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ALMÔNDEGAS

 

 

1985. Rua Santa Cecília. Sábado. Perto do meio-dia. Mara e Thaís tinham viajado. Eu ficara com o Flávio. Comprara almôndegas. Bastariam alguns minutos de forno para servi-las. Providenciei o preparo. O telefone tocou. Aviso da turma do futebol. Haveria churrasco antes do jogo. O Flávio, que nunca topava me acompanhar, dessa vez resolveu ir. Saímos. Não me lembro de como localizaram meu parceiro Geraldo Flach, nem de como ele conseguiu me encontrar. “Não precisa te assustar. O problema está solucionado. Mas vai logo pra casa. Os bombeiros arrombaram teu apartamento”, Geraldo informou. “As almôndegas!”, exclamei. Acelerei. Chegamos no prédio. Entramos. As almôndegas, a torrar a tarde inteira, tinham feito fumaça, assustado os condôminos. Chamados, os bombeiros evacuaram o prédio e meteram machado na minha porta. Havia produto químico desde a entrada, uma espumarada que chegava às canelas. O fogão jazia torto no meio da cozinha. Achamos na assadeira o que sobrou das almôndegas: umas bolotas que mais pareciam bosta de ovelha. Flávio e eu suamos na limpeza. Evitei por vários dias a vizinhança, temente de merecidas reprimendas. Essa furada rendeu outra. Eu prometera sair para algum bar da noite com a Thais, então com quinze anos. Ela ficou bem animada. Esperou horas na janela, bem arrumada. Eu, que costumo ser pontual e cobrar pontualidade, justamente naquela noite, me esqueci da vida no Ratão, bar da Protásio Alves. Quando me lembrei do compromisso, era tarde. Ela já dormira. Fiquei triste por tê-la frustrado. No dia seguinte ela me perdoou. Mas cunhou a frase queixosa que me fez temer novos esquecimentos: “Virei almôndegas!”.        



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h45
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GRAVAÇÃO NO ARMÁRIO

 

1973. Descobri que, dormindo, compunha com mais originalidade. Tratei de deixar o gravador à mesa de cabeceira. Na madrugada em que inaugurava a primeira dessas parcerias comigo mesmo, para não perder tempo, esquecer a canção, abri a porta do guarda-roupa somente o que bastava para poder ligar o gravador e meter a cabeça. Comecei o registro vocal. Mara acordou, o que eu tentava evitar ao gravar no escuro meio dentro do armário. Acendeu a luz. Nada entendeu, ao me surpreender naquela estranha posição.       



Escrito por Jerônimo Jardim às 06h52
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FORA DO TOM

 

Rio Grande do Som. 1971. Primeiro show em Porto Alegre com minha participação. Eu dividia a produção com Luiz Coronel, letrista da maioria das canções. Participariam intérpretes, músicos e autores destacados do Rio Grande do Sul. Preocupado com o todo, não ensaiei direito uma parceria de Coronel com Ivaldo Roque. Apresentação de casa cheia. Iniciei bem o tema. O problema ocorreu no retorno à cabeça. A primeira nota era minha, sem acorde preparatório. Voltei fora da tonalidade. Lembro bem da expressão crítica do pianista Adão Pinheiro e do meu alívio no acorde final. O público ficou em silêncio, perplexo. Pudera! Ainda bem que, na seqüência, vinha uma canção que eu bem ensaiara. Suo na testa até hoje quando me lembro da desastrosa interpretação.
  
 



Escrito por Jerônimo Jardim às 06h31
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