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DÚVIDA
Eu me considero um cara responsável, cumpridor das leis. Quando vou a um bar à noite, não dirijo carro. Mas tenho que dirigir às cinco e trinta da manhã. Se for dormir ás duas da manhã e tiver tomado umas três ou nove, o bafômetro acusará álcool no meu sangue? Quem sabe, pode informar? Creio que a lei deveria conter essas informações.
Escrito por Jerônimo Jardim às 22h37
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OBRA PRIMA
Sob o prisma da estética, no universo conhecido, nada existe de mais lindo do que uma linda mulher. O homem é mero coadjuvante. A natureza, simples cenário.
Escrito por Jerônimo Jardim às 15h56
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HOLLYWOOD COLOMBIANO
Achei a franco-colombiana com aparência de atriz que desperta do sono maquiada e beija com boca de hortelã. Não conheço o roteiro do filme, mas algo me diz que a cena foi exaustivamente ENSAIADA. O figurino segue o modelo explorador da selva. Os dentes claros e íntegros, as faces hidratadas e bem protegidas contra a intempérie, revelam cuidados especiais. A protagonista parece saída de tratamento com proteínas e fibras; de sessões de ginástica, massagem e musculação. Caberá agora à nova heroína - com tão boa aparência, apesar do tifo, da malária, da hepatite e do estresse de anos no cativeiro - protagonizar a cena de sua candidatura à presidência. Talvez esteja escrito que as FARC se renderão e, com orgulho preservado, se tornarão aliadas importantes para o final feliz. Minha lente capta imagens distorcidas?
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h23
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DOSE EXCESSIVA
Em quase tudo é recomendável moderação. Doses excessivas de álcool causam a maioria dos desastres nas vias públicas. É necessário intimidar os irresponsáveis. Mas dose zero para os condutores e proibição da venda de bebidas alcoólicas em bares e restaurantes de zonas rurais é medida exagerada. O legislador deveria ter buscado parecer de especialistas quanto à medida de álcool reveladora de embriaguez capaz de embotar reflexos e causar acidentes. Como está publicada, a lei já carece de normas de tolerância, como já se manifestaram diversas autoridades. Todavia, sabem os operadores do direito, regulamentos e decretos, por serem hierarquicamente inferiores, não prevalecem contra a força da lei. Terão os juízes de recorrer a interpretações benéficas, buscar no texto legal o sentido justo, fundar as decisões na intenção do legislador que seria a de punir condutores irresponsáveis que assumem no trânsito o risco de matar. Tementes de situações vexatórias, de serem surpreendidos pelo bafômetro, cidadãos responsáveis passarão ao largo de qualquer dose de álcool, mesmo em casa. É quase certo que a chacina nas estradas diminuirá; que os cofres públicos arrecadarão muito dinheiro com as multas; que haverá menos carros no tráfego caótico das grandes cidades. Tudo isso é ótimo. Mas o medicamento que extermina o vírus, quando ministrado em excesso, pode vitimar o paciente. A queda no consumo, como efeito colateral, poderá falir fabricantes, distribuidores, comerciantes, bem como gerar desemprego e reduzir a arrecadação de impostos. Logo agora que descobriram efeitos medicinais no vinho consumido em doses moderadas. Novamente em pauta a moderação! A vigência da lei com jeitinho aqui e ali para corrigir seus excessos pode desmoralizá-la. Por fim, me ocorre perguntar: haverá depósitos para todos os veículos apreendidos e cárcere para todos os infratores? Contra doses cavalares, formularam dose burra. Só mesmo bebendo; sem dirigir depois!
Escrito por Jerônimo Jardim às 19h41
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A DOR MAIOR É A DOR QUE A GENTE SENTE
É tarefa inexeqüível tentar explicar a dor que se sente. Nem o médico consegue imaginá-la. Quando passa, felizmente, a gente nem se lembra de como ela era. Quem perde pessoa querida, assassinada por marginais raivosos; quem tem filho torturado, filha estuprada, só pode querer morder a jugular dos culpados, arrancar-lhe as unhas, submetê-los a tortura igual. Qualquer de nós, em nossa humana condição ainda tão pouco distante da selvagem, está sujeito a tais sentimentos brutais. As nações civilizadas cometem barbáries por vingança. O que são as ações militares retaliativas? Publiquei há algum tempo no blogue novela que escrevi, intitulada IN EXTREMIS, em que abordo o tema da contradição entre a racional lucidez e o envolvimento emocional. Personagem de drama não é pessoa indicada para solucionar problemas, evitar que um dia o mesmo aconteça com outrem. Na novela, palestrante de painéis sobre segurança pública, ferrenho defensor de teses contrárias à instituição da pena de morte, sofre o abalo de ter a filha estuprada diante de seus olhos. Eu sou contrário à fria e premeditada pena capital. Mas tenho certeza de que também não ficaria conformado com a simples prisão dos culpados. Viriam à tona meus piores instintos; desejo de vingança pessoal, de aplicar a lei do "olho por olho". Mas sentir ameaça ou consumação dessa tragédia, essa inexplicável dor, não pode tolher ações racionais que buscam evitá-la. Mesmo raciocinando como sociedade que só age egoisticamente, em causa própria, não por sentimentos nobres, a medida terápica indicada seria a que esvaziasse os motivos da raiva transbordante para não ter que um dia sentir gana de cometer brutalidade igual à brutalidade dos ofensores, pela mesma gana de vingança, embora por motivos diferentes. Se a parte sã da sociedade encontrar a forma de combater a miséria que corrói seus órgãos doentes e ameaça contaminar o todo, não terá que sair por aí eliminando seres humanos. O câncer é a miséria; não os miseráveis, apodrecidos pela doença nascida da desídia social. Não há porque vivenciar sentimentos contraditórios; colocar em confronto discurso e ações. É preciso cortar a causa da dor na raiz; extirpar a chaga da pobreza; não a única, mas a maior causadora dos desvios de conduta.
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h57
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