| |
PROCESSO DE CRIAÇÃO Ontem assisti entrevista com João Ubaldo Ribeiro na TV. Lançava o livro ALBATROZ AZUL. Lá pelas tantas ele disse que o título foi dado sem ter idéia se a história engendrada teria a ver com o nome dado ao livro. Sempre teria. O autor é o condutor da história. Daria um jeito da narrativa chegar lá. Alguns escritores dizem que se educaram para escrever todos os dias, mesmo sem um tema preconcebido. Não acho que se consiga classificar métodos de criação. Há idéias que o sono traz. É só polir a narrativa, dar-lhe ordenação estética, buscar originalidade. Já comecei textos pelo meio da história. Só depois fui escrever o início e o fim. Quando tenho uma música para colocar letra, nota por nota, também não sei (conscientemente) onde vai desembocar o palavreado, rimas internas e externas. Musicar letra é menos difícil. Já se tem um enredo explicitado. Nunca vou esquecer a declaração de Chico Buarque num DVD sobre seu processo mais frequente de criação quando escreve letra para música. Basta-lhe ir preenchendo o espaço das notas musicais com palavras e, verificar, ao final, se fez algum sentido. Brincadeirinha de gênio.
Escrito por Jerônimo Jardim às 08h12
[ ]
[ envie esta mensagem ]
AMIGOS DESCARTÁVEIS Uma vez eu enfrentava fila enorme para comprar ingresso para ir ao cinema. Duvidava que não anunciassem a lotação esgotada antes de eu chegar. Respondi ao aceno de um amigo que sorria próximo do guichê. Havia mais uns cinqüenta na fila depois de mim. Consegui chegar na janelinha. Não deu outra. O cara me pediu para comprar o ingresso dele e da mulher. Titubeei inicialmente, mas me enchi de coragem e, embora constrangido, me neguei a cometer o desrespeito contra os tantos que, tenho certeza, não teriam sucesso, não veriam o filme. Fico chateado até hoje ao lembrar o fato. O sujeito nunca mais se aproximou de mim ou me dirigiu um cumprimento. Soube que já morreu. Era um exemplar de amigo descartável. Encaixam-se perfeitamente na classificação aqueles que te pedem dinheiro emprestado, sem juros, pois não passas de um amigo, já que não és banqueiro ou agiota; e os que te pedem aval ou fiança. São três negócios jurídicos em que nada ganharás. Só tens duas alternativas. Empatar ou perder. Pode ser até que o amigo não tenha planejado te ferrar, tenha fracassado, entrado num período de dificuldades financeiras. Não muda nada. É presente o risco de perderes o que te levou anos de vida para amealhar. Quem tem crédito pode muito bem pedir empréstimo bancário. Existem seguros para fiança. Felizmente, eu não tenho bens que garantam pagamentos de outrem; e aprendi a dizer não. Como destaco no título, tais pedintes são amigos descartáveis. Agradeço que se afastem, fiquem a vida inteira longe de mim. Diferente é a situação em que te prontificas, por livre iniciativa, altruísta e solidátrio, a socorrer um quase irmão de um aperto momentâneo. Mas essa é uma outra história. Prodigalidade e altruísmo não são sinônimos.
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h09
[ ]
[ envie esta mensagem ]
TESÃO CAVALAR Testemunhei a faceirice de Primo César nos primeiros dias de sua aposentadoria. Troteava no cabresto com a altivez do puro sangue inglês. Parecia saber que chegara à estância com mais uma vitória, mais um troféu, conquistado no Cristal na última semana de sua carreira de atleta das pistas. Verdade também que acompanhei sua decadência física e performática, os músculos encolherem, sumirem as veias esculpidas em seu pelo lustroso que, rapidamente se tornou opaco. Para adaptar-se ao novo ambiente, abagualar-se, como explicou meu irmão, para sobreviver à intempérie, longe do conforto das cocheiras, impunha-se retirar as rações de milho e alfafa, reduzi-lo ao pasto natural dos potreiros. Em menos de uma semana era um indivíduo humilde, fora de forma, com alguma barriga. Meu irmão mandou colocá-lo no potreiro mais próximo do galpão da fazenda onde foi construída uma cocheira. Primo César usou o teto protetor durante poucas noites, a atenção desviada para uma égua alquebrada, queixo quebrado por algum coice, que o fez relegar ao esquecimento os vícios do conforto. Resfolegava e relinchava quase a chorar pelo amor não correspondido. Corria no prado com parelheiras tão belas de corpo quanto ele. Segundo meu irmão, elas não ganhavam um minuto de seu olhar. Agora sofria rejeição em torno da fêmea feia que lhe despachava certeiras patadas e que só tinha em mente namorar o cavalo castrado confinado no potreiro vizinho, o que lhe obrigava a superar a dor dos arranhões causados pela cerca de arame farpado. Vá a gente entender a química das paixões.
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h37
[ ]
[ envie esta mensagem ]
RUÍDO O ruído nunca é discreto. O mesmo acontece com o torto. Impossível não chamar todas as atenções a vaia solitária em numerosa e educada platéia. Assim acontece com o único quadro mal colocado da sala. E o erro na execução perfeita de peça musical conhecida? E a arranhada ocasional na troca de marcha quando se dirige? É difícil, muito difícil que alguém resolva contar em livro a história de personagem de ilibada conduta, comportamento exemplar. Só se for para biografar alguém incomum pela dimensão de seu talento. Essa será no caso a anormalidade gritante. Ela será o ruído. Continuo convicto de que só o desequilíbrio cria, abala e faz história.
Escrito por Jerônimo Jardim às 09h56
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ ver mensagens anteriores ]
|