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HISTÓRIAS DE VIDA E MORTE
Perdão pela recorrência ao tema nos textos. Tem a ver com a minha vida no momento.
Escrito por Jerônimo Jardim às 10h50
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DIPLOMACIA DIVINA Dizem que o demônio é um arcanjo do Senhor que declarou independência para agir e administrar com liberdade sua própria casa, o inferno. Na falta de outra versão, teríamos de aceitar essa? Difícil de engolir que Deus, em sua onipotência, permitiria que a rebelião vingasse. Inverossímil. Embora seja tarefa das mais delicadas compreender suas atitudes, porque é tão permissivo às vezes e tão autoritário em outras, porém sabedores que, em sua infinita sabedoria, não dá passos em vão, tentamos erigir a teoria da diplomacia. Não houve revolução nenhuma no reino divino. Houve, sim, um acerto. Em que pesem os cruéis castigos que Deus tem imposto às criaturas humanas através dos tempos, a figura mais corrreta de seu marketing pessoal é a do ser supremo de bondade ilimitada. Do acerto teria resultado a abertura das portas do paraíso para os justos e o fechamento para os pecadores. Aí está. Deus administraria a premiação e não se encarregaria dos castigos da outra vida. Não se harmonizaria com o paraíso a manutenção de uma casa de punição com sofrimento eterno, fogo e tridentes. Portanto, melhor medida seria deixar as maldades aos encargos do governante do inferno, bem como os atos de tentação e persuasão ao cometimento de atos pecaminosos ou sacrílegos no mundo dos vivos a arrecadar eternos usuários. Não fosse a existência de satanás e seus domínios independentes, Deus também teria que arcar com funções somente compatíveis com as dos carrascos ou deixar não premiados a vagar com suas maléficas energias pelo universo, a perturbar sua expansão e tráfego. Como ficou, satisfizeram-se ambas as partes. Deus não se incomoda com os que não rezam por sua cartilha e, ao demônio, basta esperar os recusados nos portões do céu e conduzi-los a pontadas de tridente aos portais do inferno.
Escrito por Jerônimo Jardim às 10h48
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RÉDEAS PRESAS Papai Noel tem seu trenó. Com ele consegue desempenhar a hercúlea tarefa de entrar e sair por chaminés de todos os continentes terráqueos e distribuir os presentes na noite de Natal. Batman persegue bandidos em seu batmóvel. Basta surgir nas nuvens a marca do morcego. O Papa desfila em seu papamóvel blindado. Recebe aplausos, protegido de possíveis atentados. Superman não carece de veículo especial para cumprir suas tarefas em prol do bem. Consegue multiplicar-se e, sem necessidade de asas para voar, talvez se locomova na velocidade de Deus, o que parece provar que o Criador caprichou muito mais na criação de um ser a sua imagem e semelhança no planeta Kripton, origem do consagrado herói. Tudo isso é necessário relembrar para que se tente compreender porque Deus, com gestual mágico digno de Mandrake, construiu seu teocóptero. Por que não facilitar o trabalho de suas juntas cansadas depois de tantos bilhões de tudo e nada? Por que não se valer de criações de suas criaturas, imitá-las? Tudo lhe pertence. Nada lhe é impossível. O veículo divino tem as mesmas propriedades de seu piloto. É invisível, inaudível e onipresente. A bordo dele percorre os espaços aéreos de um de seus menores criadouros a distribuir benesses, castigos, tentar neutralizar atos satânicos – o diabo se tornou mais forte do que imaginaria - e a fiscalizar as ações de seus anjos, vida, morte e sacerdotes, parte destes em frequentes crises comportamentais, envolvida em cabeludos escândalos. Um pregador de rua em Porto Alegre disse convicto que Deus adotou alguns dísticos gauchescos, tanto tem circulado pelos céus do Brasil, onde afirmam que ele é brasileiro, e que ele tem gosto especial pelos costumes, lendas e lides campeiras do sul. Para justificar as permanentes revoadas por aqui disse que o boi só engorda aos olhos do dono. Todavia, a maior crueldade divina - isso a meu ver de pouco alcance - é a farta distribuição de fome, doenças e sofrimento entre seus crentes mais fiéis, aqueles que deixam tudo aos sacerdotes, o que têm e o que não têm, valendo-se do dito campesino de que não dá pra afrouxar as rédeas, senão o bicho dispara. Vá a gente entender os afazeres e as vontades de Deus. De nada precisava e tudo criou; com defeito de fabricação, na minha modesta opinião. PS - Gracias Flávio pela sugestão do papamóvel.
Escrito por Jerônimo Jardim às 18h00
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VIDA E MORTE: O AMISTOSO ENCONTRO Dessa vez não foi de encontro a, mas ao encontro da, troca de preposições que distingue radicalmente, no sutil idioma português, uma rota de aproximação amistosa ou mesmo amorosa de uma de colisão ou mesmo trombada, infelizmente não dominada por muitos oradores. Tal introdução se impõe ao se pretender narrar de forma clara e convincente a disposição da Morte de interromper os exaustivos afazeres de ambas e bater um papo sincero e franco com a Vida, esclarecer algumas dúvidas de séculos, como a desproporcionalidade estatística, o absurdo aumento da população terráquea não obstante seus esforços com a ceifadeira. Não seria difícil, já que estão, as duas, em todos os lugares a todo o tempo, algo temerário de afirmar, pena do cometimento de sacrilégio sujeito a severo castigo, sem explicar que são a longa manus de Deus, único ser onipresente do universo. Bastaria apresentar-se sem ranger os dentes, embora impossível para ela um sorriso. Assim foi e deu certo. A Vida acolheu de bom grado a simpática abordagem. Interromperam a visita e se acomodaram à cabeceira da cama em que um casal de namorados arrojava-se nas carícias preliminares da relação corporal não utilizada pelos humanos somente para finalidades reprodutivas como seria a vontade do Criador, no dizer de seus sacerdotes católicos que, contraditoriamente, são celibatários. Acho que seria desperdício de linhas ficar a dizer quem disse o quê. Então, me limito a repercutir as frases com a maior fidelidade possível. Espero que não se ofenda por eu começar dizendo que os incrédulos afirmam que não passas de hiato na linha do nada. Claro que não me ofendo, já que mais atingem a ti do que a mim, por te reduzirem a mera passagem, portal do hiato para o nada. Ademais, que crédito nos merecem os incrédulos? Nunca vi crianças nascerem às gargalhadas. É sempre aquela choradeira, se não dou um jeito nelas antes. Eu acho que já nascem como medo de ti, como se já soubessem que passarão a existência sob permanente ameaça, dissimulada pela promessa de outra vida melhor. As pessoas vivem nos templos por que viver é um calvário, cheio de temores, fome, doenças. Até compram cadeiras no céu. Mas do contraste entre sofrimento e alegrias, conseguem mensurar os estados de graça e felicidade. E não podemos duvidar da sabedoria do Chefe ao criar esses dois estados. Quanto à desproporcionalidade entre mortes e nascimentos que, tenho certeza, é o que mais te aflige, digo-te que a humanidade tem abusado do livre arbítrio, fazendo sexo por prazer e, cá pra nós, que Deus não me ouça, já que em sua onipotência odeia conselhos, estaria mais que na hora de ele ter uma conversinha com seus representantes para não condenarem o uso de camisinhas. Com isso até não me preocupo, desde que surgiu a AIDS. Acho, isto sim, um despropósito essa profusão de remédios que permitem a um monte de inúteis pesar nos encargos de família, conturbar os cálculos atuariais dos planos de saúde. Como será que Deus resolve esses impasses nos demais cantos do infinito universo? Questionaram em afinado dueto. As circunstâncias determinaram o término prematuro do encontro. Despediram-se rapidamente com todas as dúvidas que poderá o leitor ainda levantar. Apelo ao trabalho, já que o casal, que transava sem camisinha, avançara para o orgasmo, milhões de espermatozóides dispostos a ganhar a corrida para penetração no óvulo. Um deles bicou, bicou e entrou abanando o rabinho. A Vida clamou angustiada pela providencial interferência da Morte. A Morte fingiu surdez. Deu um suspiro prazeroso. O resultado desse óvulo fecundado, desenvolvido a contento no útero era de seu maior interesse, daí a atuação aparentemente contraditória de ambas. Com a onisciência da qual dispunham como longa manus de Deus, sabiam que aquele indivíduo nasceria predestinado à acionar o botão do apocalipse.
Escrito por Jerônimo Jardim às 08h50
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