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CAJADO MÁGICO Eu não gostava muito de andar de carro pelo Cassino durante as férias. Havia muito cachorro bobo solto pelas ruas, prontos a morrer por atropelamento. Passavam o ano inteiro a perambular sem perigo e, de repente, chegada a temporada de praia naquele posto avançado, junto ao mar, de Rio Grande, Pelotas e cidades da fronteira, despreparados, tinham que dividir espaço com os veranistas. Mas era bom andar pelas ruas a pé, respirar maresia. Até o dia em que dei de ser ameaçado por um cãozinho sem estirpe que surgia, sabia eu lá de onde, a ganir e tentar pegar minhas pernas com seus dentinhos afiados. Eu mudava o trajeto por centenas de metros. Não adiantava. Era por mim que ele tinha antipatia. Devia sentir meu cheiro desde que eu abria o portão para a caminhada. De um galho tosco fabriquei um cajado, não muito grande, mas não muito pequeno, com o qual pretendia desencorajar as investidas do explícito desafeto. Passei a passear com minha arma em punho. Não contei que na avenida principal, à tardinha, passeavam também centenas de veranistas e que a juventude da hora se acumulava no ponto da moda daquele veraneio. Eu não dava a mínima para os olhares dissimulados. A verdade é que meu inimigo respeitou o cajado, cuja condução deve ter pressentido, sei lá como; coisa de bicho com faro aguçado. Nunca mais apareceu para me importunar.
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h30
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