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LÁ Breve luz púrpura. Emergiu dela. Espécie de parto. Encanto esgotado. Tentou mexer um braço. Impossibilidade. Dores agudas. Ruídos metálicos. Podia se ver, cercado de macas e camas desgastadas pela ferrugem. Ele próprio, jogado num monte de latas velhas, tinha esse aspecto enferrujado. Sem muita certeza, concluiu que adormecera no galpão de descarte de objetos recicláveis de algum hospital. Vencido pelo cansaço, precariamente acomodado, corpo dolorido, pegou no sono. Despertou no meio de alvoroço de trabalhadores que escolhiam e carregavam a sucata para além do portão. Não chamava atenção. Rastejou para fora por conta e risco. O barulho nas juntas persistia. A dor sumira. Por algum motivo, daqueles que ninguém pode duvidar sem sofrer castigo, entendeu que não chegara lá. Tinha uma nova chance. Capengou o velho corpo por um terreno baldio. Dias. meses, talvez anos. Os primeiros pedaços que perdeu foram os pés. Não demorou a ficar sem as mãos. Depois foram os braços. Só progredia firmando-se nos joelhos para engatinhar. Reduzido à cabeça e ao tronco, rolou por uma encosta até imobilizar-se numa grota. Sobrara-lhe a cabeça. Apesar de todas as desditas, animou-se com lembranças que lhe remetiam aos mais felizes momentos do passado. Até não ter mais nada para ver, lembrar, ouvir, contar.
Escrito por Jerônimo Jardim às 08h32
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