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INFERNO E PARAÍSO A merda dessa doença chamada artrite reumatóide, que me apareceu de surpresa em novembro do ano retrasado, é que ela não permite que eu esqueça dela um dia sequer. É ciumenta e possessiva. O paciente se torna chato. Não consegue deixar de falar nela, em sua incômoda presença. Quanto à letalidade, somente mata, pelo que já li, quando atinge órgãos vitais, o que é raro. Mas a dor que causa nas articulações obriga à ingestão de medicamentos que reduzem as defesas do organismo contra ataques de vírus, bactérias e fungos oportunistas. Tudo de ruim, que passaria de viagem, decide se aquerenciar. Mas, sem remédios, o sofrimento seria insuportável. Um dia dói a mão; um outro os ombros, joelhos, pés, maxilares; às vezes, todas as juntas. Sou covarde diante desse tipo de inimigo, que briga com armas superiores. Sei que um por cento da população do mundo sofre dessa porra. Sei que há pessoas com dores maiores; algumas, nunca experimentaram vida sem dor. Mas não adianta querer compartilhar a dor dos outros, por solidariedade. Não posso senti-la. Ninguém pode sentir a minha. Gentil e sinceramente, alguém pode lamentar, proferir palavras de conforto. O Inferno e o Paraíso estão aqui, tenho certeza, nessa única vida. Posso habitá-los num único dia. Faço o possível para ser feliz quando me livro por alguns momentos da indesejável companhia que me converteu em manancial de queixumes. Torço para que a Clair volte para casa e que meus amigos só me encontrem em horas de Paraíso. Hoje não é um bom dia; ao menos até agora. Talvez mais tarde esteja bem, depois de vinte miligramas de cortisona. Por isso, sem vítimas de meu discurso queixoso por perto, encho a paciência de quem se animou a acessar este blogue, neste instante respingado pelo espicaçar do tridente, chamuscado pelas chamas da fornalha. Mil perdões. Amanhã pode ser meu dia de estada no Paraíso. Portanto, até amanhã, se tudo estiver bem. Daqui em diante não mais acessarei o computador quando estiver hospedado no Inferno.
Escrito por Jerônimo Jardim às 13h51
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SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE
Esqueci de falar no atendimento do SUS. O Governo Federal, em tempo anterior ao Lula no poder, pensou utopicamente. O projeto é ótimo no papel. Pretendeu gerenciamento regionalizado, trabalho em colaboração; recursos administrados pelos Estados e Municípios. Não está funcionando como foi idealizado. É preciso repensar, corrigir rumos, sujeitar a penalidades rigorosas as autoridades que desviam as verbas oriundas dos cofres da União para fins diversos. Está um caos. Pobre povo, morre nas filas, como se viu ontem nos noticiários; como se vê ao entrar num hospital conveniado.
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h37
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ESTADISTA
Em razão das ultrapassadas posturas petistas e da falta de preparo intelectual do Lula quando no início do primeiro mandato - se bem que ninguém chega onde chegou sem méritos pessoais -, porque cogitavam de decretar moratória unilateral, temi pelo futuro do País. Acho que sou como o Lula se autodenomina, parafraseando Paulo Coelho, na letra que fez para Raul Seixas; também me considero uma "metamorfose ambulante". Nesse sentido, depois de alguns momentos de ceticismo, por exemplo quando vi bobagens ao estilo "não interessam os meios para atingir os fins", mudei de opinião. Creio que somente por implicância alguém pode hoje deixar de admitir que o Lula conduz com competência os destinos da Pátria e que se tornou um estadista de forte personalidade, opiniões firmes e acatadas, internacionalmente respeitado, fino humor em encontros presidenciais, humor apropriado quando fala com o povo. Fala aos presidentes e é entendido. Fala ao povo e é entendido. Acho que até aprendeu a falar "ingleix". Dança com desenvoltura o jogo global. A crise financeira, de origem alienígena, atrapalhou um pouco os planos, pois iam de bem a melhor. Mas as ações adotadas, mesmo no meio da surpreendente turbulência, me parecem acertadas, geradoras de credibilidade, até quando o discurso é demasiadamente otimistas na intenção de não gerar desânimos, crises de desconfiança inibidoras de consumo e retraidoras de produção e investimentos. Falta ainda solucionar o problema da desigualdade social que gera insegurança; erradicar a miséria para diminuir a opção pelo crime. O PAC levará progresso, dará empregos; mas não é o bastante. É preciso investir em escolas que levem nossas crianças pobres a mercado futuro de trabalho honesto e digno. Não dá para fazer tudo, eu sei. Mas, outro mérito do Lula, temos a sorte de ele contar com pessoas certas nos lugares certos nas áreas governamentais. Portanto, anacrônico agora é ficar tirando o tapete só por tirar, com argumentos meramente preconceituosos.
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h08
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ANACRONISMO Foram muitas as conquistas femininas. Muito resta a conquistar. Os salários são inferiores aos dos homens para idênticas atividades em muitos setores da iniciativa privada. O percentual de mulheres no poder ainda é tímido. Verdade que muitos homens, conscientes de que as mulheres trabalham tanto ou mais do que eles fora de casa, já dividem parte das tarefas domésticas. Por se ocuparem em casa de mais encargos, seria justo que mulheres comprovadamente mães conquistassem direito a jornadas de labor reduzidas; se bem que medida de tutela legal nesse sentido poderia gerar redução de postos de trabalho para cidadãs sujeitas à benesse da maternidade, o que representaria regressão. Bem intencionadas proteções legais geram às vezes efeitos colaterais malignos. Em qualquer hipótese, tudo sopesado, as reivindicações de igualdade são mais do que justas. Desigualdades de direitos e deveres não se justificam. Aí chego a um ponto crucial. No meu entender, a aposentadoria antecipada das mulheres em cinco anos, é vantagem contraditória e anacrônica. As estatísticas comprovam a maior longevidade feminina, parâmetro adotado inclusive para cálculos atuariais. É onerada a Previdência Oficial por largos cinco anos sem justificativa plausível. Minhas amigas e familiares mulheres poderão se indignar, mas não encontro fundamento em favor da vantagem. Poderei pensar de modo diferente se alguém trouxer argumento convincente que a ampare. Aguardo.
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h31
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ESPIONAGEM
Os chefes e agentes, mais ainda os agentes secretos, dos órgãos de informação pelo mundo (sabem até o que não é publicado) devem estar se rolando de rir da intenção dos legisladores brasileiros de obrigar autorização judicial para escutas. A clandestinidade é a cortina que lhes confere eficiência. James Bond é um pálido retrato ficcional das ações governamentais de espionagem protagonizadas pelas agências de informação.
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h35
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