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MEMÓRIAS – 17

 

                

Em capítulo próprio lá do princípio da narrativa, não referi a paixão pela campanha, pelas lidas do campo e pelos cavalos de corrida.

Aproveitando que morávamos numa chácara próxima do Jóquei Clube de Bagé, eu e meu irmão Bebeco pulávamos a janela às cinco da manhã para ir às cocheiras do Silveirinha, criador de puro sangue inglês (PSI) no haras Jaguarão Grande, nacionalmente famoso por produzir campeões.

Montávamos e íamos dar voltas a trote e a galope na pista. Os profissionais ficavam contentes. Aliviávamos o trabalho deles. Era uma troca legal. Antes da hora de acordar, estávamos de volta. A mãe nunca desconfiou. Sobre o assunto, acrescento que, aos catorze anos, antes de me voltar para o futebol, eu sonhava ser jóquei. Tio Auri, irmão de meu pai, me dissuadiu. Disse para eu notar minha altura, que já era quase a de hoje. Só poderás ser jóquei de elefantes, ele disse. Acolhi com tristeza sua opinião. Parei de fazer regime e tomar vinagre para emagrecer, como faziam os jóqueis de Bagé que tinham problemas com peso. Ainda amo cavalos de corrida e o trabalho da vida rural.

Bebeco realizou o sonho de criar cavalos. Não sei se gosta tanto como eu da campanha. É um trabalho árduo. Mas em Bagé, tem haras de criação PSI e é criador de gado, na Coxilha do Haedo, o que o obriga a viver na estrada, já que é professor na Faculdade de Veterinária de Santa Maria, onde reside.

Há alguns anos passei quinze dias das férias na estância, com o Bebeco. Íamos a campo com a peonada. Deu para matar a saudade dos tempos em que passava as férias de verão na fazenda do Tio Argemiro, correndo vaca, ajudando nos bretes.

Assumi compromisso com a peonada do Bebeco de compor uma música campeira por dia para apresentar no galpão na hora da janta. Aproveitava cada acontecimento para compor. Nasceram quase de impulso as canções que agora interessaram esse artista e pessoa fascinante que é Rui Biriva, um dos maiores cantores regionalistas dessas plagas, autor de grandes sucessos como “Tchê Loco”, “Castelhana”, por aí vai.

Rui, sua esposa Priscila e o filho Gerônimo, meu tocaio com "G", hoje fazem parte do rol de nossos poucos amigos muito próximos; aqueles das boas e más horas, com os quais se fala com freqüência ao telefone, se encontra para dar boas risadas, dizer bobagens, esquecer mazelas.

Disse-me ele que puseram no filho o nome de Gerônimo em minha homenagem, só porque ele gostou do meu jeito quando fomos apresentados pelo Patinete,  nosso “amigo de fé, meu irmão, camarada” e produtor comum, fã de Roberto Carlos, do que decorre a citação entre aspas.

Da convivência em finais de semana no sítio dos Biriva, violão de mão em mão, com a companhia do Marco Barbosa, parceiro de alguns dos sucessos de nosso anfitrião, também músico e compositor competente, ouvidas as canções que fiz nas férias rurais com meu irmão, espontaneamente como convém, sem nada ter sido antes planejado, nasceu o projeto do novo disco em que, a convite do Rui, deverei auxiliar o Patinete na produção. Sempre tive a sorte de trabalhar em música com amigos; além de amigos, talentosos.

Assim, ocupado, fazendo o que gosto, deixo as dores de lado. Elas somente me derrubarão se me levarem ao hospital. Enquanto não me parece ser uma ameaça próxima, dedico o dia de hoje, sexta-feira 13.3.2009, ao preparo de planos para a realização do projeto de CD de Rui Biriva.

 

 

PS - Espero que, neste ano, as horas em estúdio ganhem de dez a zero das horas em hospitais, laboratórios e consultórios médicos.

Também espero continuar um dia estas Memórias, mas somente com histórias boas de contar.

Feito o balanço de erros e acertos, estou em paz com meu passado.

Faltou dizer da felicidade que tive de ter filhos carinhosos, competentes, responsáveis, e que, posso dizer, a meu ver, souberam escolher seus pares; Flávio, a Penélope; Thaís, o Antônio. Desejo-lhes um futuro feliz.

Quanto ao que ainda não publiquei, se, aos sessenta e quatro anos, eu for descartado, não surpreendentemente, do ativo patrimonial dessa experiência única e fantástica que é a vida, caso um dia alguém venha a se interessar, somente gostaria da republicação de obras e da publicação de coisas inéditas que se encontram em demos arquivadas de voz/violão; do longametragem de animação, CRI-CRI, O GRILO GAUDÉRIO; da peça musical RAFINHA E CACAU, UMA AVENTURA MUSICAL; das canções regionalistas feitas na COXILHA DO HAEDO; do que tenha escrito de razoável neste BLOGUE; e, finalmente, dos originais, após revisão, de SERAFIM DE SERAFIM e de IN EXTREMIS. Qualquer coisa, além disso, encontrada em algum baú ou fita cassete antiga, podem ter a certeza, revisei e não prestam.     

Por enquanto, fico por aqui.

Dê-lhe rédeas, dê-lhe boca.

Quando o inverno chegar, tudo correndo bem, estarei em Bagé com os amigos de Porto Alegre em festeira comitiva para visitar Ciro e Cris, que integram o rol dos meus amigos mais próximos, meu primo Fernando Moreira, e demais compositores, músicos bageenses, e parceiros da terrinha. Vamos concorrer no "baile à fantasia". Cuidem-se! O Patinete é tri da Festa do Ridículo. Tem currículo em fantasia.  

 

                



Escrito por Jerônimo Jardim às 07h06
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MEMÓRIAS – 16

 

Quando um dos cônjuges tem mais de sessenta anos, pela lei civil brasileira, o casamento é com separação total de bens.

Levei para o novo casamento, de patrimônio pessoal, os vencimentos de servidor do Tribunal Regional do Trabalho, meus discos, livros, canções, o carinho de dois filhos, e a história de um casamento desfeito. Clair, então com trinta e sete anos, trouxe o ofício de servidora pública da Secretaria de Saúde de Gravataí, dois empregos de veterinária, em Porto Alegre, excesso de horas semanais de trabalho, a fama de ótima cirurgiã em clínica de pequenos animais, folgada poupança – hoje bem convertida em fundo de previdência privada -, apartamento e carro inteiramente pagos, uma família acolhedora, e a experiência de dois relacionamentos amorosos. Antes que eu esqueça, registro a felicidade de tê-la a meu lado para qualquer circunstância, o que se demonstrou nesse último ano em que fui “brindado” com uma artrite reumatóide, que me impõe dores somente superadas por elevadas doses de medicamentos, com seus malefícios e efeitos colaterais. Só em 2008 sofri uma internação por pneumonia e cinco intervenções por infecção nos maxilares.

Conto com a Clair, também, nos momentos de alegria, já que é amada por meus amigos mais próximos.

De volta ao passado, em determinado momento, Rogério saiu da Companhia Sanduíches e inaugurou o Fellini Bar, no bairro Moinhos de Vento, bem perto de onde moramos, o que facilitava a freqüência.

Como eu estava com diversas músicas novas, muitas inspiradas no momento de mudanças que eu vivia, Ayrton deu a idéia de eu gravar, ainda que somente para registro, um CD ao vivo, com o clima da noite, que eu tanto experimentei ao chegar em Porto Alegre, aproveitando que os músicos que tocavam músicas minhas naquela época, animavam as noitadas do Fellini.

Assim motivado e estimulado pela Clair, gravei o show apresentado no Fellini com acompanhamento de Adão Pinheiro, Tenison Ramos – ex-Pentagrama, que se encarregou dos arranjos -, Amauri e Rochinha. Impusemos ao disco, intitulado Quando a Noite Vem, um clima de bar noturno. Novamente publicamos pelo selo do Ayrton. Outro disco para registro somente. Acho que nem a FM CULTURA rodou. Eu acho que é um disco com alma, mas pouco equilibrado quanto à qualidade da criação. Mas valeu. A emoção suplantou a razão. Inspiração e transpiração não podem se apartar, nem na arte.

O Fellini fechou as portas. Somente era bem localizado para mim e Clair. Jesus Iglesias, meu amigo de anos, faleceu. Rogério também não sobreviveu muitos meses, depois do fracasso do bar. Portanto, perdemos amigos e ficamos órfãos de bar da noite. 

Com a aposentadoria pelo Tribunal, abriu-se a possibilidade de me aprofundar nos prazeres de cozinhar, compor, tocar violão, jogar tênis e escrever.

Reescrevi inteiramente uma história escrita em 1985, intitulada Serafim de Serafim. Escrevi outra, intitulada In Extremis. Destinadas ao público adulto, não obtive resposta das Editoras para as quais enviei os originais. Então resolvi publicá-las neste blogue, página por página, diariamente. 

A convite do maestro Tiago Flores, fiz inesquecível apresentação no Teatro da Reitoria da UFRGS, dividindo palco com Bebeto Alves, com a Orquestra de Câmara da ULBRA. O concerto foi convertido em disco, de distribuição limitada para clientes da DANA, patrocinadora do evento. Destaco a regência primorosa do Tiago, o virtuosismo da Orquestra e os arranjos tocantes, principalmente, o de Rodrigo Bustamante para "Lá no Fundo".     

 Quase empurrado de volta ao palco pela Clair e pela amiga e produtora cultural Ângela Moreira Flach, voltei a fazer pequenos shows, em Porto Alegre e no interior, graças aos contatos dela com alguns patrocinadores importantes como SESC, SIMPRO, Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul e Livraria Cultura do Shopping Bourbon. Foram momentos de deliciosa acolhida e inesperada receptividade.

 Tudo ia bem, até o dia em que acordei me sentindo o inseto do Kafka em Metamorfose. Dores intensas nas articulações me impediam de levantar, movimentar braços e pernas; primeiro capítulo dos tormentos. Há quem diga que não devem ser tão fortes como digo, que homem é fraco para a dor. Sei lá. A dor maior é aquela que a gente sente.   

(continua)



Escrito por Jerônimo Jardim às 19h14
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MEMÓRIAS – 15

 

Ayrton dos Anjos combinou comigo o lançamento do CD ESTAÇÃO pelo selo dele, VIRTUAL MUSIC/ VIA BRASIL.

Decidinos gravar canções antes não gravadas por serem, também por mim, consideradas com mínimas chances de execução em rádio, mesmo nos anos em que a MPB esteve em alta. Acertamos, na palavra, sem qualquer contrato, coisa que um adeva como eu só faz com alguém que confia muito e que merece essa confiança, a sociedade em 50% no CD, o que valeu também para o CD Quando a noite vem, lançado em 2004.

Convidamos para a gravação Toneco da Costa e Pedrinho Figueiredo. Ambos tinham se apresentado comigo em shows em momentos diferentes e também tinham feito destacadas participações em discos anteriores, inclusive como arranjadores.

Fizemos quatro ensaios, para que eles tomassem contato com as canções e se encarregassem de escrever cada um a partitura correspondente a seus instrumentos, Toneco no violão e Pedrinho nos sopros. Eu faria somente a parte vocal.

Foram três ensaios em casa e um no estúdio do Vacari, que na época era violonista da banda que acompanhava Renato Borghetti. O quarto encontro foi para valer, na TEC ÁUDIO, do músico e arranjador Marcelo Corsetti. Marquei somente uma sessão noturna com a intenção de gravar, mixar, masterizar. Nem eu sabia se daria certo. O rendimento, desde as primeiras gravações, nos surpreendeu. Entrávamos no estúdio, fazíamos a contagem e colocávamos o melhor de nós em cada canção, sem nos valer de play back. Gravamos todas as canções em poucas horas, demorando mais para ouvi-las e aprová-las do que para gravá-las. As seis e pouco da manhã em deixei o estúdio com o CD pronto. Alguns trechos foram deixados livres para improvisos. Mesmo quando ouço com cuidado, não consigo encontrar desentendimentos rítmicos ou harmônicos. Foi uma sessão feliz. Tenho muito orgulho desse disco.

Como eu esperava, o sucesso ficou por conta da sessão de autógrafos. Até hoje não lançamos segunda edição.

A execução na rádio FM CULTURA não ficou resumida a uma ou duas faixas. Em momentos diferentes, tocaram todas. Mas a audiência qualificada e restrita da única rádio que rodou o disco não rendeu shows.

O trabalho no TRT, árduo, porém prazeroso, me absorvia. Às vezes concluo que não é somente a criação musical que me encanta, mas toda a atividade que possibilite exercício de criar, inventar e inovar quando possível.

O trabalho com a Juíza Rosa Maria na Corregedoria possibilitava o exercício do prazer inventivo.

Ao anoitecer eu deixava o TRT e ia para a Companhia Sanduíches, do Rogério Messina, no Menino Deus, encontrar o próprio, mais Ayrton dos Anjos, Renato Borghetti, Geraldo Flach, Sepé; enfim, estar com pessoas que me proporcionam alegria e prazer.

Conheci Clair num aniversário da Companhia. Veterinária, ela atendia uma cadela do Rogério.

"Yo no buscava nadie e te vi”, como diz a canção do argentino Vitor Paes.

Jamais se conseguirá explicar a irresistível química da paixão; o encontro de energias que se dá ao cruzamento de olhares; o diálogo que se estabelece, antecipa palavras, torna-as desnecessárias ou demais.

Nada foi fácil. É difícil romper relação de décadas, lembranças boas e ruins, aflições e carências. Mas não seria possível manter duas vidas amorosas. Não havia como não causar sofrimento. Mas também não havia como não assumir a paixão cuja intensidade eu desconhecia e que se mantém há anos com o mesmo frescor das primeiras horas do encontro no bar do Rogério.

Veio o divórcio e o novo casamento civil.

Felizmente, Mara e eu somos bons amigos.

Creio que ela me perdoou, dada a sua generosidade; compreensão dos sentimentos humanos; capacidade de "ler" o mundo.

Clair é a pessoa que me ampara nas fraquezas e me empurra para o jogo a cada queda de ânimo ou recuo.

Jogamos juntos, em harmonia, nossa linha de passes quase exatos.     

(continua)



Escrito por Jerônimo Jardim às 21h26
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MEMÓRIAS – 14

 

Compunha jingles nos estúdios. Os violões de casa não tinham cordas. Não fazia músicas novas. Muni queria uma canção para o Festival do Carrefour. Disse a ela que tinha antigas fitas cassetes com demos de voz e violão com canções inéditas. Ela ouviu e escolheu “Portal”. Autorizei a inscrição. A Muni venceu com a ela a parte regional do Festival e figurou no disco entre as melhores da fase nacional. Isso me entusiasmou. Cachorro que come ovelha, só matando, como diz o ditado.

Coloquei cordas num violão. Recomecei a compor.

Nesse meio tempo, fiz concurso para servidor do Tribunal Regional do Trabalho. Assumi cargo em Guaíba no primeiro dia do Plano Real de Fernando Henrique Cardoso.

Em menos de dois meses, indicado pelo Juíza Magda Biavaschi, professora da FEMARGS, a escola de magistrados da AMATRA, fui lotado no Gabinete da Juíza Rosa Maria Weber Candiota da Rosa na qualidade de assistente jurídico.

Fiz grandes amigos entre os colegas, como Cleo, Elizete, Marco, Ana Luíza e Neusa.

Trabalhei com a excepcional Juíza Rosa Maria, hoje Ministra do TST, o que muito me orgulha, até minha aposentadoria. Fui seu assessor jurídico no período em que se elegeu Corregedora e quando exerceu a Presidência do TRT. Foi um trabalho árduo, de longas jornadas; mas muito gratificante diante dos resultados obtidos.

Em 1996, os organizadores da Califórnia da Canção de Uruguaiana, ao tomarem conhecimento da minha disposição de retornar ao palco depois de tantos anos, contrataram-me para fazer o ambicionado show de encerramento.

Foi assim que, no exato dia em que a monumental vaia de “Astro Haragano” completava onze anos, tive uma das maiores emoções da vida: a canção foi aplaudida de pé, do primeiro ao último acorde. Guardo com carinho gravação da narrativa do fato por Paulo Deniz, em transmissão da Rádio Guaíba. 

Em 1998, gravei o disco intitulado DIGITAIS pelo selo RBS/RGE, presidido em Porto Alegre pelo amigo Jorge André Brites.

Estava cercado pelos meus mais próximos amigos.

A produção foi do Ayrton dos Anjos e os arranjos dos companheiros de quase toda a minha carreira musical, Toneco da Costa e Geraldo Flach.

Esse disco conta com participações de Borghettinho, Luiz Carlos Borges, Greice Morelli - cantora conterrânea, hoje uma das minhas amigas próximas -, mais Bebeto Alves, Kako Xavier e o Grupo Muito Prazer, bem como dos músicos Kiko Freitas, Fernando do Ó e Mário Carvalho. Diante da venda modesta, ficou na primeira tiragem.

Quanto à vida em família, depois do talagaço da ENCOL, em que perdemos em torno de R$ 100.000,00, Mara e eu conseguimos comprar um apartamento na Lageado, onde ela mora até hoje. Ficava perto do Petrópole, o que facilitava minha vida de aficcionado pelo tênis, esporte que adotei quando os joelhos não mais suportaram as agruras do futebol. 

Em 2000 resolvi gravar sem selo de grande gravadora.

Nasceu então Estação, que considero meu melhor disco.

(continua)



Escrito por Jerônimo Jardim às 07h53
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MEMÓRIAS – 13

 

Décadas de boa fama, para tristeza da família que a construíra com trabalho árduo e honestidade, se esboroaram com o endividamento. Enfrentou-se com pesar a despedida de mais de dois terços dos trabalhadores para enxugar o quadro que a empresa não mais tinha como assalariar. Todos os dias batiam à porta cobradores e oficiais de justiça. Era difícil não atrasar o salário dos trabalhadores, honrar pagamento a tradicionais fornecedores e entregar os produtos encomendados a clientes fiéis. Começou a faltar matéria-prima. A inflação era elevada.  

As últimas esperanças morreram em duas frustradas safras de camarão.

Para a diretoria, que tentava manter a tona a pesada máquina que fazia água, restavam migalhas.

Um dia não deu mais. Chegou-se ao fundo do poço.  

Nesse período, em busca de uma tábua de náufrago, lembrei do diploma de bacharel, há anos engavetado.

Não sei bem porque, resolvi estudar Direito do Trabalho. Atualizei conhecimentos. Estudei bastante, aproveitando a estada em Rio Grande.

Resolvi testar o resultado dos estudos.

Enfrentei banca qualificada para uma vaga de professor na Universidade de Rio Grande. Obtive as melhores notas, mas a vaga foi conquistada por um jovem advogado de Porto Alegre, porque concluíra mestrado em Direito. Somente assumi o posto diante da desistência dele.

O salário era baixo, porém aprendi um bocado, talvez mais do que meus alunos, lecionando Direito Processual do Trabalho por um ano.

Viajava para Rio Grande às quintas-feiras. Regressava a Porto Alegre aos sábados. Aproveitava as viagens de ônibus para preparar aulas.

Em Porto Alegre, passei a prestar consultoria trabalhista ao CCAA, curso de inglês, por indicação do amigo Raul Krebs, sócio como eu do Petrópolis Tênis Clube. Prestei exames e fui aprovado no curso de Direito da AMATRA, direcionado à preparação de candidatos à magistratura trabalhista.

Como os ganhos mal davam para auxiliar a Mara nas despesas de casa - creio que cobriam pouco mais que o valor do aluguel do apartamento -, resolvi tentar a ampliação do trabalho em consultoria trabalhista, mais senhor me achava dos saberes do ofício.

Foi assim que Saul Wainberg, já presidente da Rainha das Noivas, ao recusar o trabalho por mim proposto de consultor trabalhista, propôs meu retorno à criação de comerciais para a empresa; mas não nos moldes remuneratórios anteriores. Seria uma prestação de trabalho sem vínculo trabalhista, somente para criar as campanhas publicitárias, o que aceitei. Isso passou a tomar dois dias da minha semana. A renda melhorou por quase três anos, até os antigos desentendimentos aflorarem e a relação de trabalho ser rompida.

Quanto à música, nesse período, existe para contar somente que eu fazia jingles para o estúdio de Elói Zorzetto, o que reforçava um pouco a renda. De resto, nada mais.

O melhor dos períodos difíceis, do afastamento da música, foi o retorno à família.

Acompanhei melhor o crescimento dos guris. Muito perdi da infância deles. Porém, como já disse, nada a fazer, já que o passado não aceita borracha.

Eu estava há oito anos afastado da música, quando a cantora Muni me pediu uma canção para um festival do Carrefour, de âmbito nacional, com classificatórias regionais.         

 (continua)



Escrito por Jerônimo Jardim às 06h39
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