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MEMÓRIAS – 12 A partir de 1996, tocava violão somente para compor jingles para a PLUG, de Geraldo Flach e Sepé. Era um jeito de ganhar algum dinheiro. Jesus Iglesias me convidou para retornar à publicidade. Comecei a trabalhar na Agência Um como contato. Acabava me intrometendo na criação e, via de conseqüência, me atritando com o setor próprio. Era uma Agência com clientes importantes. Um deles, que eu atendia, era o Sport Club Internacional, em situação difícil, em momento de hegemonia gremista. Ademar Ribeiro, então gerente de marketing da RBS, me encomendou a criação de projeto para o Dia da Criança. Deveria ser uma história gaúcha para o público infantil. Animado, em uma semana escrevi o livro e compus dez canções. Assim nasceu “Cri-Cri, o Grilo Gaudério”. O projeto, que envolveria livro, teatro e televisão, não vingou. Ademar se transferiu para a Amazônia para dirigir canal de televisão recém inaugurado. O novo diretor não deu curso ao projeto. Todavia, Airton Ortiz, da Editora Tchê, resolveu lançar o livro. Rendeu sete edições e palestras em escolas com cachês bancados pelo IEL. Lembro de apresentações em que a Jane Bestetti, da Secretaria de Educação do Estado, manipulava um boneco do Cri-Cri, para diversão da meninada. Distante do público adulto, eu contava a história para a criançada dos colégios de interior. Hoje, alimento a esperança de realizar longa metragem de animação, baseado no livro, graças ao entusiasmo do Claudinho Pereira. Já escrevi o roteiro, bem lembrado das aulas de cinema de Pereira Dias, que freqüentei nos anos 70. É o maior projeto da minha vida. Não sei se conseguirei realizar. O livro já foi levado a teatro pelo Grupo Sem Teias, com direção e montagem de Isabel Ibias. A lembrança das atuações para criança e o desafio da produtora Ângela Moreira Flach, me levou recentemente a escrever peça musical, intitulada “Rafinha e Cacau, uma Aventura Musical”. O roteiro já está nas mãos do competente diretor Dilmar Messias. É outro dos meus projetos. Márcia Ivana, amiga da Mara, ambas hoje doutoras em literatura, apresentou a doutora Maria da Glória Bordini, que analisava textos para a Editora LP&M, originais da minha história infantil intitulada “Titinho e os Tênis Mágicos”. Publicada, obteve relativo sucesso. Pela L&PM foi também publicado o livro ´”Sob Fogo Cruzado”, posteriormente encenado por Arines Ibias. Publiquei pela Editora Vozes “O Clube da Biblioteca contra a Bruxa Pestileia”, escrita sob encomenda do amigo e conterrâneo Pompílio Loguércio, diretor da Sultepa e membro da AGEOS. Com esse livro, dei cerca de três mil autógrafos no Parcão, onde foi distribuído gratuitamente, num Domingo. Uma das garotinhas, Camila Bauer, que esteve na fila de autógrafos, tão logo formada em teatro, levou à cena este, que diz ter sido seu livro de cabeceira na infância. Não duvidei, quando ela me mostrou o livro roto. O último de meus livros, lançado pela Editora Vozes, se chama “A Revolta dos Pincéis”, alegoria em linguagem quase coloquial sobre movimentos operários em busca de respeito a direitos fundamentais dos trabalhadores. Gosto do humor que coloquei na história. Mas o livro não chegou a vender metade da primeira edição. Assim, minha criação, nesse período, foi canalizada para a área da literatura infantil. Somente recorria à música para fazer jingles, que nasciam em minutos, fáceis de fazer. Depois de três anos na Agência Um, apresentou-se novo desafio. A grande fábrica da família da Mara, em Rio Grande, Figueiredo S/A, fabricante dos então consagrados produtos Delícia, do ramo de pescados a conservas, com cerca de quatrocentos operários, ultrapassada na tecnologia de produção, agonizava financeiramente. (continua)
Escrito por Jerônimo Jardim às 08h28
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MEMÓRIAS – 11 A Califórnia reunia cerca de 15 mil pessoas à frente de gigantesco palco montado na “Cidade de Lona”, como era chamado o acampamento que se formava em torno do evento, na sede da Associação Rural de Uruguaiana. Era uma cidade temporária, com intenso movimento de transeuntes e centenas de churrasqueiros. Havia gente de todos os lugares do Rio Grande do Sul e jornalistas oriundos de diversos lugares do Brasil. A apresentação classificatória de “Astro Haragano” emudeceu o público, que não vaiou nem aplaudiu. Foi um quase silêncio da multidão. O arranjo, que se valia da combinação de voz, violões, percussão e sintetizadores, frases de arranjo incomuns e harmonia diferente do padrão estético vigente no regionalismo gaúcho, surpreendeu o público. Quando a canção foi proclamada vencedora, a reação continuou parecida. De estranho, notei alguns gritos isolados de insatisfação entre as pessoas que estavam próximas do palco. Quando eu recebia o troféu, uma lata de cerveja caiu perto de mim. O desastre, que quase resultou em tragédia, começou quando o colega músico Paulo Silva entrou no palco para me cumprimentar pela vitória. Pulando de contentamento, irreverente como costumava ser, devolveu com um chute outra latinha. O ato desencadeou a hostilidade. No meio de uma entrevista coletiva, no meio do burburinho, um repórter batia com o microfone nos meus dentes. Lá pelas tantas, restavam pouco mais de 200 pessoas em torno da área reservada aos artistas. Ouvi dizer que mostravam uma corda com a qual pretenderiam me enforcar caso eu não devolvesse o troféu. O fotógrafo de uma revista nacional me cobrou exaltado que ele, outros repórteres e músicos só estavam presos ali porque eu não me animava a sair. Cansado de tudo, desafiado pelo repórter, me sentindo covarde e culpado pelo desconforto do queixoso e de outras pessoas, naquele avançado horário da madrugada, peguei os troféus, o estojo com o violão e me dispus a enfrentar a pequena multidão. O poeta e letrista Dilan Camargo, que concorria no festival, cautelosamente me impediu. Os demais músicos o apoiaram. Para encurtar, o Corpo de Bombeiros se encarregou de dispersar o grupo de protesto. Dois soldados da Brigada Militar me levaram, cercado por duas moças vestidas a caráter, a um carro particular requisitado. Há quem diga que me fantasiaram de prenda. Fica por conta de quem conta. O hotel estava cercado. Terminei dormindo numa rede, no pátio da casa de amigos de Uruguaiana, que recepcionavam autores e músicos que tinham concorrido no Festival. Um mês depois, eu tinha show em Porto Alegre. Demorei a entrar no palco. O prazer dera lugar a calafrios. Hora de puxar o freio. Vendi o violão Ovation para meu primo Fernando Moreira. Desencordoei os outros violões. Passei oito anos sem tocar nem compor; onze, exatos, sem subir no palco para apresentações profissionais. Eu creio, hoje, que a vaia chegou no preciso momento em que eu carecia de novas soluções de vida. De maneira alguma atribui ou atribuo as desastrosas ocorrências ao povo de Uruguaiana. A Califórnia reunia gente de todo o Estado. Quem mais criticou minha atuação, me qualificou como deturpador do nativismo, segundo depoimentos de vários conterrâneos, foi um patrão de CTG da minha terra, chamado Diogo Madruga, se não me falha a memória. Assim foi. (continua)
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h04
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MEMÓRIAS – 10 Lucinha Lins acabou aceitando o convite para defender a canção feita para ela, a seu pedido. Seria bom para a promoção do show, Ivan convenceu-a. A vitória de “Purpurina” foi marcada por grande vaia. Mas rendeu, para mim, além do polpudo prêmio e direitos autorais de execução em rádio, um compacto simples pela Polygram; para a Lucinha, resultou LP do show de grande sucesso, “Sempre, Sempre Mais”, dividido com o multimídia Cláudio Tovar, cantor, bailarino, ator, diretor, cenógrafo, roteirista e artista plástico; hoje seu segundo marido. A nota triste foi a morte de Elis, em circunstâncias trágicas, no dia da estréia de “Sempre, Sempre Mais”. De manhã, eu estava no enterro, em São Paulo; de noite no show, que quase a Lucinha não fez, tão abalada ficou. O espetáculo foi interrompido no meio para homenagem. O meu compacto simples, produzido por Ivan Lins e Arthur Laranjeira, que conheci por meio do compositor e parceiro carioca Fernando Gama, tocou bem em rádio. “Eu vim do Sul” permaneceu no topo da audiência na Rede Atlântida da RBS por seis meses. A outra canção, “Vento e Pó”, que defendi no MPB-Shell 82, também rodou bastante. "Eu vim do Sul" mereceu, anos mais tarde, gravações de Neto Fagundes, Henrique Mann e João de Almeida Neto. Como não classifiquei “Vento e Pó” para a final, a Polygram perdeu interesse em mim como intérprete. Outras gravadoras não demonstraram interesse no gênero musical que eu adotava. Estavam atentos ao novo rock que conquistava a garotada. A Blitz, do Evandro Mesquita, chegou com tudo nas paradas de rádio. Antes de esgotar essa síntese da minha vida artística no Rio, devo registrar que fazia shows em colégios e participações em shows de amigos, como os do Boca Livre, a convite do Zé Renato; os de Kleyton e Kledir, de Tunai e de Bebeto Alves. Também cantei na Cinelândia em comício do Brizola, a pedido de Hugo Carvana, indicado pelo Tunai, parceiro de Sérgio Natureza em inesquecíveis canções cantadas por Elis, como "As Aparências Enganam". Lembro ainda uma boa apresentação no bar do Nelsinho Rodrigues, em Botafogo. Enfim, não passei em branco. Na Azenha, em Porto Alegre, em sociedade com os amigos Ciro Vaz e Chuteira, companheiros de futebol no Bageense, que atuava na várzea, clube tradicional de conterrâneos “exilados”, inauguramos o bar Purpurina, sucesso que durou pouco. Era freqüentado por jovens que amavam música; mas permaneciam horas na mesa, consumindo caipirinha e batata frita. Ter mais ou menos empatado no fechamento, foi quase considerado lucro. Ainda tentei o prosseguimento da carreira no Rio, até que resolvi voltar definitivamente para casa em 1983 ou 1984, não recordo bem. O panorama da música brasileira mudou drasticamente em curto período. O rock engoliu a MPB. Surgiram com sucesso Lulu Santos e Lobão. Não demorou a Legião Urbana e os Paralamas do Sucesso tomarem conta do coração da garotada. Começaram sucessivas edições do Rock in Rio. Terminou o MPB-Shell. Não havia mais interesse da mídia e patrocinadores. A audiência migrara para outras praias. No Rio Grande do Sul, concorri no Musicanto e na Califórnia de Uruguaiana em 1984. As canções, “Ave Matreira”, apresentada por mim, Renato Borghetti, Neto Fagundes e Flora Almeida em Santa Rosa, e “A lo Largo”, parceria com Antônio Carlos Machado, apresentada também por mim, Jorge André Brites e Canela, são até hoje lembradas. Creio que foi em 1984 que concorri no Musicanto de Santa Rosa com uma música, intitulada "Peregrinos", que fiz sobre poema de Jaime Vaz Brasil, poeta conterrâneo. Fomos para o palco, Geraldo Flach no piano e eu no vocal. A música foi classificada para o disco e Geraldo, merecidamente, ganhou o prêmio de melhor instrumentista. Apresentei diversos shows pelo Rio Grande do Sul, até escassearem as contratações. Gravei LP em hora errada pelo selo RBS/SOM LIVRE, com produção do Ayrton dos Anjos (Patinete) e arranjos de Geraldo Flach. Passara o meu melhor momento, o melhor momento da MPB; e o da então chamada MPG, Música Popular Gaúcha. Então veio “Astro Haragano”, em 1985, para apresentação em Uruguaiana ao lado de músicos de marcante expressão internacional nos dias de hoje, na época em início de carreira, Jua, Gringo Sagionatto, Tonda, e Alegre Correa, que mora na Áustria há anos, já tendo dividido palco em turnê européia com João Gilberto. A lembrança dessa participação na Califórnia da Canção ainda dói, embora infinitamente menos do que a dor sentida na época. (continua)
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h14
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MEMÓRIAS – 9 Desse encontro com o Ivan resultou a amizade com ele e Lucinha. Fiz Purpurina a pedido deles para o show que ela sonhava fazer. Introduziram-me no meio artístico. A referência sobre mim era somente a autoria de “Moda de Sangue”, gravada por Elis. Também fiz amizade com Paulinho Tapajós, compositor de sucesso, vencedor de importantes festivais nacionais e sua esposa Lozinha, irmã dos então garotos Mu e Dadi de “A Cor do Som”, estourado nas paradas de rádio com músicas do Paulinho. Com ele passei a jogar futebol no campo do Chico, o que resultou na parceria gravada por ele com o nome de “O Campo do Chico” e, por mim, com o título de “O Baba do Chico”, com algumas diferenças na letra. A minha letra fora alterada para animar comícios das “Diretas Já”, que eu fazia por todo o Estado acompanhando Fogaça. No final do ano de 1980 voltei para passar Natal e Ano Novo em casa. No trajeto, em Sampa, no trânsito congestionado da Marginal do Tietê, viajando de carona com minha irmã Margarida, seu marido Helder e seus filhos, compus “Lá no Fundo”, que gravei em ao vivo, agora, em 2004, para distribuição restrita da patrocinadora DANA, com a Orquestra de Câmara da ULBRA, arranjo de Rodrigo Bustamante e regência do maestro Tiago Flores, meu maior sucesso no concerto apresentado no Teatro da UFRGS. Nesse espetáculo, participamos Bebeto Alves e eu como convidados da Orquestra. Na volta ao Rio, fui morar, a convite, com Jovelina - prima de minha sogra -, que fazia de tudo e mais um pouco para me agradar. Nessa estada carioca, conheci Esmeralda, filha da Jovelina; Umbelinda e Marco; os jovens da família, filhos da Esmeralda, Celso e Marta; Mônica, namorada do Celso, mais tarde esposa dele; e Sérgio, então esposo da Marta. Foram eles que montaram a grande torcida de “Purpurina” com camisetas desenhadas pelo Sérgio, na conturbada final do MPB-Shell 81 no Maracanazinho, em que o público queria como vencedor Guilherme Arantes com “Planeta Água”. Comecei, por indicação de Lucinha Lins, a gravar jingles com ela, Regininha, Márcio Lott, Luna e Flavinho, que formavam coro fantástico, que também atuavam em shows e gravavam com os mais famosos artistas brasileiros. A minha experiência de fazer e cantar jingles em Porto Alegre favoreceu a aceitação no estúdio Sonora, de Júlio Hungria.Chegávamos a gravar seis jingles numa manhã, por incrível que pareça, com qualidade. Retornei ao Sul para passar uns tempos com a família. Em Porto Alegre soube da classificação de “Purpurina” para o MPB-Shell 81. Na volta ao Rio, não querendo mais abusar da hospitalidade da Jovelina, já em melhores condições financeiras com os cachês dos jingles e classificado para o Festival, aceitei convite de Denise Saraceni - hoje grande diretora de novelas da Rede Globo – e de Sandra Alvim, também do núcleo de novelas. Fui dividir aluguel de apartamento com elas no Bairro Peixoto, em Copacabana, próximo da Figueiredo Magalhães, há umas seis quadras da praia. Mas continuei a passar os finais de semana na Jovelina, a desfrutar de seus dotes culinários e do carinho da gurizada da família e seus muitos amigos. Com Denise hoje quase não mantenho contato, infelizmente. Com Sandra, é como se não tivesse passado o tempo. Falamos e nos correspondemos via virtual com a mesma espontaneidade de antes. Nesse momento da história, aguardava a volta de Ivan e Lucinha dos Estados Unidos. Ele fora acertar gravações e shows; Lucinha fora gravar cenas dos Saltimbancos Trapalhões com Renato Aragão. Eu queria que ela defendesse a canção no festival. (continua)
Escrito por Jerônimo Jardim às 18h45
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ONZE MIL
Gracias pelas onze mil visitas. Amanhã, um pouco menos ocupado do que hoje, retornarei às Memórias.
Escrito por Jerônimo Jardim às 10h46
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