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MEMÓRIAS – 8

 

Saul Wainberg, filho de Jayme Wainberg, retornara da Suécia. Queria imprimir outra imagem à Rainha das Noivas, a começar pela forma de anunciar, que desejava mais sofisticada. Envergonhava-se dos comerciais, acho. Discordávamos. Eu acreditava que se devia manter o apelo popular que representava alto faturamento. O ambiente tornou-se desfavorável para mim na empresa. Impunha-se aos poucos que eu saísse. Elis me chamava para tentar carreira no Rio. Mas eu cuidava de meu pai, quase entrevado, que eu trouxera de Bagé. Não havia como mudar naquelas circunstâncias.

Quando minha mãe, que dele estava separada há anos, decidiu - tenho certeza, hoje, que só para me favorecer - levá-lo de volta à Bagé e se encarregar dos cuidados, abriu-se a possibilidade de eu deixar o rentável emprego e cumprir o caminho que parecia se impor.

Foi fundamental o apoio da Mara e das crianças. Tiveram de trocar a casa espaçosa por pequeno apartamento na Santa Cecília e concordar por minha ausência por longos períodos.

Além dos significativos valores que recebi na rescisão do contrato de trabalho com a despedida da Rainha das Noivas, vendemos o Opala quase zero Km. Tinha ainda um pequeno apartamento que rendia aluguéis. Os valores apurados foram depositados em poupança para se somarem à renda mensal que a Mara percebia como professora, para garantir a manutenção da família. Eu permaneci vinculado ao quadro societário da RN PUBLICIDADE LTDA por mais uns seis anos, já que era exigido cotista publicitário. Continuei, assim, jungido profissionalmente à Rainha das Noivas, que sempre me deu muito apoio, inclusive Saul, e condições de desenvolver a minha arte.   

Eu decidi que teria que viver no Rio com o que conseguisse lá ganhar, sabedor de que, com a família em Porto Alegre, teria que reunir recursos para usar freqüentemente a "ponte aérea". 

No Rio, quando a fome batia, nos primeiros dois meses de estada, tinha que recorrer ao cartão de crédito. Minha mãe enviava às vezes algum dinheiro, muito bem-vindo.   

Loma, minha querida amiga, cantora, ex-Pentagrama, já tentava a sorte no Rio. Na minha primeira noite lá, me acomodou num apartamento em que ela própria morava de favor. Ajudou-me a achar acomodação barata na manhã seguinte. Teria que ser bem localizada, segundo eu exigia. Felizmente não precisamos andar muito. Conseguimos uma vaga num apartamento do Leblon. A proprietária, uma viúva chamada Terezinha, se sustentava desse negócio. Era bem localizado, perto do Luna, bar freqüentado pelos principais artistas cariocas. Distava meia quadra da praia. Mas eu tinha que dormir na parte superior de um beliche, em quarto pequeno habitado por seis outros pobres retirantes de várias profissões. As roupas não usadas permaneciam nas malas, como se tudo fosse provisório. Não havia armários. Nunca esquecerei o dia em que a Terezinha me chamou à sala porque uma mulher, que se dizia ser Elis Regina, queria falar comigo ao telefone. Era Elis mesmo, que me convidava para um programa que não aceitei: chorar com seus músicos a morte de John Lennon.         

Os companheiros de quarto desconfiavam do violão, das músicas que eu cantava, tocava e não conheciam. Mas como a cidade era cheia de aventureiros da canção, principalmente nordestinos, não davam muita importância. Isso, até o dia em que me viram caminhando com Ivan Lins na praia. O Ivan, pessoa simples, embora no auge da carreira, não se importou de ir até eles, cumprimentá-los.

Numa ida a Porto Alegre, voltei para outro endereço. A naturalidade da convivência fora perdida. Já não parecia um dos deles. Sentiam-se constrangidos à minha presença, como se eu fosse um cara fora de lugar; um fingidor, talvez.

Falei em Ivan antes de contar o encontro com Elis para comunicar-lhe a mudança para o Rio e as atitudes tomadas em Porto Alegre.

Quando visitei Elis, a situação dela havia mudado. Estava sem gravadora. Não sabia o que seria de sua própria carreira. Nem me animei a contar-lhe minha saga.

Como na zona sul do Rio quem está bem vai a praia e quem não está vai também, foi o que fiz.

Casualmente, no calçadão da Vieira Souto, encontrei Ivan, que eu conhecera uma noite na casa de Geraldo Flach. Ele lembrou de mim na hora. Interrompeu a corrida. Convidou-me para um chopp.

(continua)



Escrito por Jerônimo Jardim às 07h39
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MEMÓRIAS – 7

 

 

Começamos a gravar o LP (vinil) do Pentagrama em 1975, no recém fundado estúdio da ISAEC, na Senhor do Passos, onde fica a Igreja da Instituição. Os equipamentos e instalações, importados da Alemanha, eram de última geração. Mas tivemos problemas com o clima das gravações. A Instituição não permitia fumar ou beber em suas dependências. O Ayrton então decidiu que gravaríamos em São Paulo, nos estúdios da Gravadora Continental, que nos contratara. Foi um equívoco de minha parte não ter preferido a ISAEC. Estaríamos presentes na hora da mixagem. Teríamos mais tempo. O que se salva no disco é a criação, modéstia à parte. Nós acabávamos de terminar uma turnê de quinze dias pelo Interior quando viajamos para Sampa. Minha voz estava nas últimas. Gravamos tudo em três dias, quase sem sair do estúdio. A mixagem não contou com nossa presença. Os violões, bases da harmonia, ficaram “enterrados”, abaixo da percussão e do contrabaixo. O disco não obteve sucesso. Foram editadas somente mil cópias. Ficou somente como registro para a história. Mas, não só eu, muita gente acha, que ainda é referência no tocante ao novo regionalismo.

Os músicos costumavam se encontrar e dar canja no mágico bar Viña d'Alho. do Luiz Mauro, na João Pessoa. Digo mágico porque tinha tudo para não dar certo como instalação: quente, enfumaçado e com som precário. Mas rolava o melhor som da cidade. Fogaça e Clóvis chegavam de bando com a gurizada do cursinho famoso da época que lecionavam e eram donos, creio. Funcionava até os últimos instantes da madrugada com públicos diferenciados. Até meia-noite, mais ou menos, era frequentado por famílias com seus filhos. Depois chegavam os estudantes que se preparavam para os vestibulares. Era nosso melhor público. Depois das três, chegavam as garotas de programa para o sopão recondicionador da madrugada. As estrelas eram Ivaldo Roque, Yoli, Loma e Biba. Eu não saía de lá antes das cinco horas. A Mara raramente ia, pois tinha que levantar cedo. Às vezes encarava, num fim-de-semana. Músicos e atores, que vinham com espetáculo a Porto Alegre, terminavam a noite lá. Foi onde Elis me ouviu cantar Moda de Sangue. Foi onde conheci, seu irmão e produtor Rogério, Cesar Camargo Mariano e ela.  

O Pentagrama não durou. Ivaldo queria que eu abandonasse a publicidade para me dedicar somente ao Grupo. Eu sabia que, sem a minha remuneração no trabalho paralelo, não haveria como manter-nos. Os cachês que recebíamos da Secretaria de Educação e Cultura, órgão que patrocinava eventos culturais no Estado, eram pagos de seis em seis meses. Não haveria como bancar as turnês e apresentações. Saí do Grupo, que se extinguiu poucos meses depois.

Em 1976 gravei meu primeiro disco individual na ISAEC, contratado por Geraldo Flach, então seu diretor, amparado na opinião de Fernando Ribeiro, estrela da música popular gaúcha naquele momento da história. O próprio Geraldo, mais Toneco da Costa, Paulino Batera, Tenison Ramos, se encarregaram dos arranjos e participações instrumentais. O disco foi lançado em 1977. "Elas por Elas" e "Moda de Sangue" tocaram bastante em rádio. Esta última rodava à tardinha no famoso programa do Júlio Furst na Rádio Continental, a rádio jovem da época. Em 1977 venci, com "Seis da Manhã", parceria com Zezinho Athanásio, a Linha de Projeção Folclórica da Califórnia da Canção pela primeira vez. No ano seguinte, venci novamente a Linha, mas na condição de intérprete da canção de Geraldo Flach e Knelmo Alves, "Sementes de Pedra", incluída no repertório do vinil individual. 

Foi nessa época que o Sepé Tiaraju de los Santos, produtor da ISAEC, me indicou para solar a abertura do filme a Intrusa, baseado em conto de Jorge Luiz Borges, música de Astor Piazzola e letra do poeta Ubirajara Constante. Gravei no Rio de Janeiro. Como Piazzola já voltara a Europa, o diretor argentino Carlos Hugo Christensen pediu, tão logo terminei a gravação de voz e violão referente à abertura do filme, que eu compusesse alguns trechos incidentais que estavam sem trilha. Diante da projeção das cenas, inventei no violão dois ou três momentos. O filme ganhou tudo em Gramado. Revelou José de Abreu, Arlindo Barreto e Maria Zilda. José de Abreu foi premiado melhor ator e Maria Zilda, melhor atriz do Festival. Esqueceram de colocar meu nome nos créditos. Disseram-me que não tinham mais como corrigir o erro. Não havia mais dinheiro para fabricar novas cópias. Chamaram-me ao palco. Saiu na imprensa. Eu saberia que o tempo me apagaria do filme. Mas não quis embargar a obra. Não houve maldade. O filme se tornou um cult. Não me arrependo de ter desprotegido o meu interesse em detrimento da arte.     

O disco da ISAEC foi o trabalho que entreguei a Elis Regina quando ela esteve em Porto Alegre para apresentar o show “Essa Mulher”. Graças a ele, “Moda de Sangue”, com o acompanhamento brilhante e solitário do Geraldo, terminou incluída no repertório de “Saudade do Brasil”, marcante show da Elis que permaneceu por meses em cartaz no Canecão do Rio de Janeiro. A canção foi incluída na trilha da novela “Coração Alado” da TV Globo, me abrindo caminho para a tentativa de carreira nacional, pois tocava nas cenas dos atores Vereza e Nívea Maria, que representavam os principais protagonistas. Como eu posso esquecer mais tarde de registrar esse fato, "Moda de Sangue" voltou, na mesma gravação de Elis de dezenove anos atrás, a ser trilha na Globo da novela "Torre de Babel", como tema das personagens principais representadas por Toni Ramos e Maitê Proença, por iniciativa da amiga e grande diretora Denise Saraceni. 

Elis disse que eu seria o primeiro artista, lançado por ela no repertório, que ela produziria em disco como intérprete. Vários artistas cujas obras ela gravara tinham sido produzidos com sucesso por seu marido e grande músico e arranjador César Camargo Mariano.

O destino começou a conspirar para que eu fosse tentar a sorte nas praias cariocas.

(continua)



Escrito por Jerônimo Jardim às 06h49
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FERIADÃO INESQUECÍVEL

No churrasco do Ciro, em Tramandaí, ouvi as novas e boas músicas dos compositores de Bagé.

No sítio do Rui, quase não parávamos de tocar e compor, com a participação do novo amigo, também bageense, músico e compositor, Marco Barbosa.

Agora é tentar perder os quilos excedentes adquiridos nos encontros festivos.

Retorno às Memórias.   



Escrito por Jerônimo Jardim às 06h49
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