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BOM CARNAVAL
Neste carnaval teremos, Clair e eu, a oortunidade de churrasquear com amigos queridos. Primeiramente, com Ciro Vaz, Cris e família. Depois, com Rui Biriva, Priscila e família. Clair e eu já programamos longas caminhadas para compensar os excessos. Retorno às Memórias depois dessa hemorragia de prazer.
Escrito por Jerônimo Jardim às 18h25
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MEMÓRIAS - 6 Embora eu saiba que o compositor Raul Ellwanger escreverá sobre o movimento musical de Porto Alegre dos anos sessenta, porque me influenciou o que assistia em Bagé, apesar dos chuviscos da recepção em TV, creio deva referir que, antes da minha chegada em Porto Alegre, houve marcante movimento musical, apoiado por intensa participação de mídia e público. Os festivais da Arquitetura atraíam artistas que brilhariam rapidamente em plano nacional, como Edu Lobo, Paulinho da Viola e Paulinho Tapajós. Havia Elis Regina nos programas do Maurício Sobrinho. Paixão Cortez, Luiz Menezes, Conjunto Farroupilha e Os Gaudérios, no Rodeio Coringa do Darcy Fagundes, na Rádio Farroupilha; com sucesso, em rádio e disco, Teixeirinha, Mary Terezinha e José Mendes; não cabe esquecer o grande compositor Paulo Ruschel, autor de Roda Carreta e Charqueadas, para mim, o primeiro compositor do regionalismo contemporâneo (creio que influenciou minha criação no Pentagrama); na música urbana, mantinham-se vivos, embora desdenhados pelos cultores da bossa-nova, Lupiscínio Rodrigues e Túlio Piva; despontavam Geraldo Flach, Raul Ellwanger, Luiz Mauro, Paulinho do Pinho, Giba Giba, Wanderley Falkemberg, Ivaldo Roque, João Palmeiro e Sérgio Napp; marcavam posição intérpretes como Érica Norimar, Ana Maria Mazotti e Edgar Pozzer; brilhavam músicos como Adão Pinheiro, Paulo Pinheiro, Mutinho, José Gomes, Argus Montenegro, entre outros que, infelizmente, não lembro neste momento. Os festivais eram transmitidos pela TV. Havia conjuntos musicais de sucesso, como Renato e seu Conjunto e Norberto Baldauf. Muita gente ainda suspira de saudade quando lembra os famosos Bailes da Reitoria. Tudo emudeceu após festival em que concorrentes descontentes com os rumos da música popular jogaram talco na orquestra de cordas e vaiaram a música do Geraldo Flach. Para protestar contra o sistema, os atores, do palco e da platéia, entendiam se impor como necessária uma espécie de antiestética. A época glamurizada dos anos sessenta também padecia de algumas burrices. Ponto final. Mídia zero. Em vez de som, silêncio. Alguns autores, por força de radical atuação política de esquerda, se ausentaram do país. Quando cheguei em Porto Alegre, havia essa ressaca, falta de divulgação, desconfiança do que dissesse respeito à música popular do Rio Grande do Sul. Foi então que Coronel e eu levamos ao palco o Rio Grande do Som, sucesso de público e mídia. As pessoas pareciam estar com saudade de seus melhores músicos, intérpretes e compositores. E eu entrei de carona nessa saudade em parceria com Luiz Coronel. Mas como eu já narrava na página anterior os tempos da Califórnia da Canção dividida em três linhas, retorno ao Pentagrama, registrado em disco graças ao tino do Ayrton dos Anjos, vulgo Patinete, para mim, personagem mais importante da música gaúcha. Sem disco, nada fica. Poderia não ter existido para o público a maior cantora do Brasil, Elis Regina (ele foi o primeiro a produzi-la em disco), Paixão Cortez, os festivais de música nativista que geraram enorme acervo de canções; todos gravados em disco por sua iniciativa pioneira. Eu sou somente pequena parte de suas realizações. (continua)
Escrito por Jerônimo Jardim às 18h16
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A SUPOSTA VÍTIMA E OS SUPOSTOS NAZISTAS
Duvido que raivosos nazistas seriam capazes de "tatuar" a pele de uma mulher assustada com ranhuras regulares e homogeneamente superficiais. A história é inverossímil.
Escrito por Jerônimo Jardim às 10h07
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MEMÓRIAS – 5 A mais marcante apresentação do Pentagrama para a história da música gaúcha nativista foi na Califórnia da Canção de Uruguaiana de mil novecentos e setenta e quatro, ano do nascimento do Flávio. Eu trabalhava muito na agência. Uma das culpas que carrego é a de não ter estado presente no hospital na hora do nascimento do guri. Gravava os comerciais da semana. Nada a fazer. O passado não aceita borracha. É registrar, penitenciar-se e prosseguir. Normalmente, os anúncios de TV eram gravados de madrugada, todas as semanas. Desdobrava-me em criação, produção e mídia. Mas já formava equipe valendo-me dos recursos humanos da empresa, no caso, os vitrinistas, principalmente Renato e Kiko, que demonstravam talento para a criação. Supriam a contento minha deficiência como artista gráfico. Embora soubesse desenhar e tivesse boa noção de equilíbrio na montagem das peças, não queria me ocupar do ofício. Quando me dei conta, tinha uma agência eficiente, bem estruturada. Quanto ao Pentagrama, vale dizer que, antes da polêmica apresentação em Uruguaiana, já fizera sucesso em Porto Alegre no show Transas & Milongas, em que interpretava tanto canções ditas urbanas, quanto de inspiração regional, essa a principal proposta, pois introduzia nova linguagem, novos temas, novos acordes, novos arranjos, nova instrumentação. Coto de Vela, estudo erudito do Ivaldo para violão, foi letrado por mim. Contava a lenda do Negrinho do Pastoreio, transcrita por Simões Lopes Neto. Chocou o público e alguns músicos concorrentes. Fomos vaiados na apresentação, prejudicada pela ausência da Loma, que adoeceu gravemente e teve que ser hospitalizada, o que nos obrigou a mudar o arranjo vocal e a cantar tensos sob todos os aspectos. Como fruto dessa polêmica participação, desde a indumentária, que não era a tradicional de peão e prenda, restou a divisão do Festival em três linhas, iniciativa dos organizadores para evitar conflitos entre os autênticos gaúchos e aqueles que vinham, para muitos, deturpar o regionalismo. Felizmente, depois de décadas de polêmicas, esses debates arrefeceram. Renato Borghetti, com sua gaita ponto, hoje representa a síntese do regionalismo gaúcho, o que pretendíamos desde o princípio, já que eu, embora músico de formação urbana, sendo de Bagé, conhecia razoavelmente a linguagem poética e musical do gaúcho campeiro, graças às férias anuais na campanha com meu Tio Argemiro. No ano seguinte, de mil novecentos e setenta e cinco, o Pentagrama foi contratado para apresentar o show da noite de encerramento na Califórnia da Canção, tanto foram os debates que ocorreram durante o ano sobre Coto de Vela e a divisão do festival em três linhas. A apresentação permitiu maior compreensão do que o Grupo pretendia. Não foi um sucesso. Mas a recepção não foi hostil. Criadas as três linhas do concurso, quem fizesse trabalho no estilo Pentagrama, se enquadraria na linha de Projeção Folclórica. Uma das três premiadas ganharia o prêmio principal, a Calhandra de Ouro. Muitas décadas se passaram até Mário Bárbara e Sérgio Napp ganharem o prêmio maior com Desgarrados, tendo concorrido na Projeção Folclórica. Os primeiros vencedores dessa linha foram Kleyton e Kledir com uma canção letrada por José Fogaça, político de grande expressão nacional e prefeito de Porto Alegre no momento em que escrevo essas Memórias. Acompanhava-os nessa incursão a Uruguaiana o já então maior produtor de discos do Rio Grande do Sul, Ayrton dos Anjos, o Patinete, que resolveu contratar o Pentagrama para gravar pela Continental, gravadora paulista que ele representava. Patinete, além de produtor da maioria dos meus discos, tornou-se um dos meus incondicionais amigos. (continua)
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h17
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PARADOXO A indústria automobilística é uma das maiores responsáveis pela emissão de gases que geram o aquecimento global; ela própria, seus fornecedores, seus produtos e seus combustíveis. Quanto mais carros são fabricados, mais paralisado fica o trânsito das grandes cidades. No entanto, sem ela, sem os milhares de automóveis fabricados e vendidos por dia, a economia planetária desmorona. E agora? É salvá-la, alimentar o caos ambiental, opção do governo estadunidense – o medo manda preservar o que se conhece! -, ou deixar que quebrem para que, sobre os escombros, se instale nova ordem em moldes darwinianos, ao sabor de inimagináveis caprichos “naturais”?
Escrito por Jerônimo Jardim às 16h12
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MEMÓRIAS – 4 Um pouco antes de buscar novas oportunidades em Porto Alegre, o que incluiria a tentativa de trabalhar como advogado, a cada vez que tinha causa para defender perante o Tribunal de Justiça, eu visitava os bares da noite, Clube dos Cozinheiros do Lupi e do Rubem Santos, Varanda da Vera Vargas, o bar do violonista Jessé Silva e o do Túlio Piva, cujos nomes não lembro. Tocava em todos, nos intervalos de descanso dos músicos, a convite deles. Osmar Meletti, Glênio Reis e Osvil Lopes, Ney Gastal e Juarez Fonseca, cronistas famosos de música, cada um a seu tempo, comentavam minhas canções em rádio e jornal. Eu conseguira um terceiro lugar em festival de música de Bento Gonçalves, que ocorria durante a Fenavinho. A música premiada, Ser Criança, era cantada na noite por Zilah Machado. Jamais foi gravada. Lembro da canção. Mas eu a acho muito piegas. Mas foi ela o estopim que detonou a projeção do meu nome no meio musical de Porto Alegre. Também antes da decisão de mudar para a Capital, Luiz Coronel e eu tínhamos montados show de sucesso intitulado Rio Grande do Som, em que recebíamos músicos, cantores e compositores convidados. Adão Pinheiro, pianista deste espetáculo, tocava Noite, canção minha com letra do Coronel, nos bares em que atuava, com a interpretação vocal de Ivo Fraga. Os compositores costumavam se encontrar no Estrela para tocar informalmente, um barzinho mágico que ficava na esquina da Jacinto Gomes com a Jerônimo de Ornellas. Portanto, quando cheguei em Porto Alegre para morar, já era um pouco conhecido no meio musical e pelos freqüentadores dos bares noturnos de música ao vivo. Enquanto eu tentava colocação de trabalho em Porto Alegre, o que levou uns quatro meses, a Mara encerrava as causas e atendia clientes remanescentes. Ainda havia honorários a receber. Para custear as despesas de transferência, vendemos o Simca. O piano da Mara, que tocava bem música erudita, veio na bagagem. Não consegui emprego de advogado. Mas, depois de compor seis jingles num único mês em parceria com o Coronel para a agência de propaganda Letra 3, para a qual o poeta trabalhava na criação de textos, fui contratado com salário mensal para fazer contatos e o que pintasse em criação musical. Aluguei apartamento na São Manoel, perto do Hospital de Clínicas. Mara, substabelecidos os mandatos nas causas que levariam mais tempo para solução, conseguiu transferência para um colégio estadual próximo da Catedral. Ela e Thaís puderam vir. Comecei a compor com o violonista Ivaldo Roque, meu professor de violão no Liceu Musical Palestrina. Compúnhamos músicas para a Escola de Samba Praiana. Quando a Letra 3 faliu, o Zimmermann, dono da agência, conseguiu emprego para mim com o maior cliente, Rainha das Noivas, de Jayme Wainberg. Minha função seria mediar contato entre a empresa e a nova agência que seria contratada. Não desperdicei a chance. Antes que agilizassem a contratação de nova agência, comecei a criar, produzir e me encarregar de tudo que tinha a ver com publicidade, TV, rádio e jornal. Coloquei a empresa no negócio de tecidos para carnaval. A Rainha anunciou pela primeira vez nas férias de verão. Eu aprendera a me desempenhar em todos os departamentos na Letra 3. Fazia tudo sozinho, menos a parte gráfica dos anúncios, que planejava e entregava para a Nara, artista gráfica e publicitária que logo se destacou no cenário da propaganda gaúcha. Ela criava mediante pagamento por obra certa. Fundei, assim, a primeira ou uma das primeiras agências caseiras de Porto Alegre, a RN Publicidade. A Rainha das Noivas cresceu rapidamente. Eu levava jeito para anúncios de varejo. Em pouco tempo eu percebia o maior salário da propaganda gaúcha, pois Jayme Wainberg, generosamente, resolvera me assalariar com 0,25% de comissão sobre o faturamento bruto. Como as três lojas viraram doze, a minha renda aumentou consideravelmente. Sem esse polpudo salário não teria sido possível manter o Pentagrama, grupo que tinha como base parcerias minhas com Ivaldo Roque e, em sua formação definitiva, nós, os compositores, mais as cantoras Loma, Yoli e o baixista Tenison Ramos. Os pontos de partida do grupo foram: um terceiro lugar na Califórnia da Canção de Uruguaiana de mil novecentos e setenta e três, com a formação que só incluía Lúcia Helena, além de mim e do Ivaldo, e que contou com Jarbas na percussão e um show no aniversário da cidade de Porto Alegre, intitulado Transas & Milongas. Esquecia de mencionar o quanto foi importante para mim e Ivaldo a gravação, no recém fundado estúdio da ISAEC, com a participação de integrantes da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre – OSPA e arranjos do fagotista Mamão, de duas canções compostas para um curta-metragem, premiadíssimo no Festival de Cinema de Gramado, sobre a Festa de Navegantes. Mas a carreira do Pentagrama não foi longa nem tranqüila. (continua)
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h14
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MEMÓRIAS - 3 A formatura em Direito foi em mil novecentos e sessenta e oito. Uma semana depois, no dia dezesseis de março, Mara e eu casamos com grande festa promovida pelos pais dela no Clube Comercial de Rio Grande. Não havia dinheiro para lua de mel. Eu começava a carreira de advogado aos vinte e três anos. Fomos para Bagé. A Mara dava aulas de inglês na rede estadual. Conseguiu transferência do Colégio Lemos Junior para o Colégio Estadual Carlos Kluwe. Para sorte nossa, no primeiro dia de casados, uma cliente absolvida em processo de receptação, pagou os honorários advocatícios, o que nos garantiu o mês em curso. No dia seguinte o advogado Osvaldo Moraes me encontrou na rua e disse para eu passar no Banco Mauá de Bagé, onde exercia a presidência. Ofereceu-me trabalho como advogado na carteira de locações. O gerente do Unibanco me contratou para cobrar inadimplentes da carteira de empréstimos. As coisas melhoraram de um dia para o outro. Compramos o primeiro carro, um velho Simca, mas em bom estado. Nos finais de semana, em lugar das serenatas, eu tocava nas festas dos colegas de advocacia, juízes, promotores e escrivães do Foro. O advogado Octávio Santos, pai do jornalista Cândido Norberto, num churrasco em que toquei na casa dele, perguntou se eu pretendia passar a vida a redigir petições em vez de tentar revoadas maiores com as composições. Tarcísio Taborda me encomendou uma canção para ser intercalada entre os poemas que o jogral da Faculdade de Letras declamava. Foi minha primeira apresentação pública bem sucedida, já que a anterior, anos antes, para estudantes do curso ginasial do Colégio Auxiliadora, quando recém aprendera a tocar Nelson Gonçalves, fora vaiada. O pessoal já estava em Beatles ou Tom Jobim. Eu marcava passo como seresteiro. Um dia o poeta conterrâneo Luiz Coronel, que além de parceiro se tornou um dos grandes amigos de toda a vida, após intervalo de desentendimento que interrompeu a amizade por alguns anos, apareceu em Bagé. Já participava ativamente dos movimentos musicais de Porto Alegre. Ouviu minhas canções numa festa de advogados. Ele também era bacharel em Direito e pretor em Campo Bom. Enviou-me diversas letras que me impressionaram. Musiquei todas. Com uma delas, Caminhante, interpretada por mim, obtivemos colocação destacada em festival musical internacional na fronteira Livramento/Rivera. A outra canção, intitulada Laçador, não aconteceu. O saudoso cantor Leopoldo Rassier, também advogado que fazia carreira musical nas paralelas, como nós, esqueceu a letra na apresentação. Como concorriam diversos dos bons compositores que tinham se destacado no rico panorama musical dos anos sessenta em Porto Alegre, nesse evento eu acabei conhecendo Ivaldo Roque e outros tão marcantes quanto ele. Os retornos a Capital para defender clientes perante o Tribunal de Justiça, viraram férteis encontros de criação. Por meio do radialista Walter Ferreira, tio da Mara, fiquei amigo de Lupiscínio Rodrigues. Via Lupiscínio, conheci Clio Paulo, Rubens Santos, Zilah Machado, Demóstenes Gonçalves, Jessé Silva e Túlio Piva. Túlio escreveu carta de recomendação para eu apresentar a Codil, nova gravadora carioca que o contratara. Em lua de mel no Rio de Janeiro com um ano de atraso, só não larguei a advocacia para ficar no Rio porque não tive coragem. A Codil, depois de um teste, me ofereceu contrato para gravar sob produção do maestro Erlon Chaves, o mais famoso do Brasil naquele momento, pois produzia, entre outros, Agostinho dos Santos, Wilson Simonal e Milton Nascimento, que recém despontara nos festivais. Sorte minha não ter ficado. Primeiro, porque minhas músicas ainda não tinham atingido maturidade. Segundo, porque a gravadora faliu. Em mil novecentos e setenta e um, acho que prejudicada pela minha imagem de boêmio, a carreira de advogado empacou. Thaís já tinha nascido. O dinheiro andava curto. Decidi tentar a sorte em Porto Alegre, onde ainda poderia incrementar a carreira musical sem sofrer preconceito. (continua)
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h45
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MEMÓRIAS - 2 Em Bagé eu cursava o terceiro ano Científico. Odiava física, química e matemática. Em Rio Grande, cursei o último ano do Clássico no Colégio Lemos Junior. Gostei mais. Temporariamente engajado em movimentos estudantís considerados de esquerda, por pouco não compliquei meu futuro diante da nova ordem política que se avizinhava. Quando Jango foi deposto da presidência da República, eu já retornara para casa. Não mais participava de protestos e passeatas. Conheci e me apaixonei pela Mara, primeira esposa e mãe dos meus filhos Flávio e Thaís. Fomos aprovados no vestibular de Direito. Ela, muito mais preparada e estudiosa, em terceiro lugar. Também foi aprovada em Pelotas no vestibular para o curso de Letras. Continuei a tocar e cantar minhas medíocres canções de aprendiz em festas de universitários e em saraus de verão, na praia do Cassino. Predominavam no repertório baladas de Moacyr Franco. Era o que eu ouvia no rádio. Um dia descobri a MPB, de Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Custei a decifrar as novas harmonias, melodias e letras. Paixão à primeira vista. Passei incólume pelo rock. Muitos anos depois, estudei o dançante gênero atentamente. Era tarde demais. Sua pulsação binária não encontrou compartimento em minha bagagem. Logo fui tentar ganhar a vida com futebol. Terminei contratado para a equipe Juvenil do Sport Club Rio Grande. Quando percebi que, apesar de ter sido campeão juvenil da cidade, jamais seria um craque, abandonei o meio salário mínimo que ganhava com a bola e fui ser aprendiz de corretor de imóveis na LAP, imobiliária em que um colega de faculdade, Sinésio Cerqueira, ex-namorado da Mara, trabalhava com Lauro, seu irmão e dono do negócio. O gerente da filial da LAP na Cidade Baixa, onde fui trabalhar, tão logo intermediei com sucesso a venda de uma casa, conseguiu um teste para mim na filial do Banco Nacional do Comércio, hoje Santander. Em poucos meses, com dezenove anos, assumi a chefia da carteira de descontos e dobrei meu pequeno salário. Com um metro e setenta e oito de altura e pesando cinqüenta e oito quilos, pedi demissão do banco e retornei à Bagé para tratar dos pulmões. O doutor Camilo Gomes, primo da mãe, médico e prefeito de Bagé, me curou. Passei a cursar a faculdade sem frequência. Meu rendimento nos estudos melhorou. Passei a obter ótimas notas nas provas. Mara enviava caprichosas anotações de aula. Eu estudava com liberdade, lia os autores que queria. Passei a me interessar por literatura, a ler os clássicos, por influência dos novos amigos, Davi Ulisses e Tarcísio Taborda, o primeiro advogado e o outro juiz, que lecionavam na faculdade de Letras de Bagé e eram apreciadores de toda e qualquer manifestação cultural e artística. O pai, já reformado como Major e eleito vereador, apoiou a minha idéia de abrir uma imobiliária em Bagé. Alugou uma sala e comprou um jipe para as locomoções em venda. Eu aprendera a trabalhar com loteamentos na LAP. Meu irmão Bebeco e meu primo José Darci revelaram-se ótimos corretores. Eles saíam a campo para contatar clientes. Eu me encarregava de arrematar os negócios, mostrar os produtos no local e firmar os contratos. Em três meses vendemos cento e oitenta e sete terrenos de um loteamento em que o pai fazia parte da sociedade. Quanto ao que mais interessa, além da necessária manutenção da sobrevivência nas linhas paralelas, o que incluiu o início na advocacia como solicitador, segui compondo canções para as serenatas de final de semana. Em casa, as canções eram cantadas às vezes pelo vocal familiar, formado com os irmãos - O Major Jardim, meu pai e minha mãe, Aida, não afinavam duas notas seguidas - acrescido da participação maior da Carmem Dora e, com menor frequência, do José Walter, irmãos por parte de pai que foram morar conosco. Quando me pergunto de onde vem o meu lado musical, lembro os tios por parte de mãe, Argemiro e Camilo. O primeiro tocava gaita de oito baixos e o segundo harmônica. Lembro também que o Tio Djalma tocava violão e cantava. Somente isso. (continua)
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h43
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