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MEMÓRIAS - 1 Jerônimo Jardim Corria o ano de 1957. Eu tinha quase catorze anos. Meu pai, na época tenente do Exército, chegou em casa com um violão comprado de um colega de farda. Foi surpreendente vê-lo dedilhar sem talento o instrumento desafinado. Eu e meus irmãos, Bebeco e Margarida, não tínhamos a mínima idéia de que ele, algum dia, tivesse se dedicado à música. Não combinava com seu temperamento rude. Tocava uma milonga paraguaia aprendida quando servia no Mato Grosso. Depois de alguns dias, desinteressou-se da novidade. Deixou o violão largado num sofá. Ouvíamos em Bagé a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, mais pela facilidade de sintonia do que por preferência. Aos domingos de manhã acordávamos com Francisco Alves. De noite, nessa emissora, calouros tentavam imitar intérpretes famosos no programa de Renato Murse. Não recordo em que dia e horário da semana, o compositor Ari Barroso humilhava calouros analfabetos que ousavam cantar suas criações. Ouvia-se Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves, Francisco Carlos e Ângela Maria na programação normal. Havia também o programa Cesar de Alencar em que Marlene e Emilinha Borba disputavam a preferência de fãs histéricas. Conheci a voz de Pedro Raimundo pelas ondas da Rádio Cultura de Bagé. Havia, nessa emissora local, um programa de auditório que apresentava trovadores em desafios hilariantes. Os cinemas exibiam musicais mexicanos em que o astro, Miguel Aceves Mejias, alongava incríveis falsetes. Dizia-se que atingia tais agudos porque um anão apertava-lhe os bagos quando aparecia na tela em plano aproximado. Não foi por acaso que as primeiras canções que toquei e cantei, após muito treino no violão desdenhado, foram mexicanas, tudo graças a um método para aprendizado de ouvido chamado Paraguassú, comprado na Livraria Previtali, na Avenida Sete. Depois comecei a tocar lançamentos de Nelson Gonçalves e, um pouco mais tarde, com a colaboração vocal de meus irmãos, canções gravadas pelos trios vocais cariocas, se não me engano, Nagô e Iraquitã. Para minha surpresa, o pai resolveu contratar o violonista João Dornelles para me dar aulas de teoria e solfejo. Não estudei mais do que um ano. Não levava jeito para a música erudita. Não conseguia dar velocidade de execução às peças, por mais escalas e arpejos que ensaiasse. Senti que nunca seria um bom instrumentista. Por outro lado, andava muito interessado em treinar futebol no Bagé e nas leituras do Tesouro da Juventude. Comecei a compor as primeiras canções e a cantar em serenatas de final de semana nas frias madrugadas bageenses, na companhia de colegas e amigos do Clube Comercial, o que me rendeu popularidade e fama de jovem boêmio e cantador. Ganhávamos tantas garrafas de bebidas de todo o tipo em cada janela ou sacada que terminávamos de porre, cansados por ter de ainda, depois de encerrada a peregrinação cantante, recolher os seresteiros mais sedentos que tinham perdido o tino antes do raiar do dia. Os irmãos, Bebeco e Margarida, integravam o vocal caseiro. Bebeco e eu cantavamos em dueto nas serestas. Aos dezessete anos, mais ou menos, mudei para a casa de meu tio Djalma em Rio Grande, para onde fui com a finalidade de me preparar para o vestibular de direito, curso que não havia em Bagé. (continua)
Escrito por Jerônimo Jardim às 23h59
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MEMÓRIAS
Vou tentar recuperar memórias sobre os tempos por mim vividos na música do Rio Grande do Sul e registrá-las aqui, sem pressa. No site www.jeronimojardim.com há somente resumos. Sobre a música gaúcha dos anos sessenta, sei que Raul Ellwanger resolveu encarar a empreitada. Muita coisa aconteceu na música de Porto Alegre nessa década em que eu advogava em Bagé. Logo veio o estrangulamento político e o silenciamento das artes e da cultura. Vou tratar da parte que participei e que, por isso, bem conheço, ainda que sob o risco de não lembrar de tudo.
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h33
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