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SOCORRO

PERCO TEMPO EM ESTUDOS DA NOVA GRAMÁTICA. QUANDO APARECER NO MERCADO UM CORRETOR DE TEXTOS ATUALIZADO, ALGUÉM PODE ME AVISAR? GRACIAS MIL. AFASTO-ME DO BLOGUE PARA CIRURGIA. ATÉ.  



Escrito por Jerônimo Jardim às 07h06
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REFORMA ORTOGRÁFICA E OUTROS PAPOS

 

"Prefiro solfejar a verossimilhança da fantasia, a emudecer nos inverossímeis compassos da realidade".

(Jerônimo Jardim).

 

 

     Expressivo o título, "É preciso ter má ortografia", de Gabriel García Márquez, Gabo, principalmente neste instante de transição ortográfica.

     A respeito, ótima a charge publicada na página do UOL em que o aluno critica correções protagonizadas pela professora antes da reforma. "Eu já escrevia certo, não acentuava idéia e não usava trema", ele afirma, jactando-se de sua visão antecipatória.

     Não estranhem as referências freqüentes (a palavra ficará menos bela sem trema!) a García Márquez. Tenho me dedicado à leitura de verbetes literários de sua obra publicados no Dicionário, patrocinado pela Companhia Zaffari e editado pelo poeta Luiz Coronel, do qual participei como pesquisador, com a prazerosa tarefa de selecionar os de "Veneno da Madrugada".

     Paralelamente, releio a maravilhosa "Metamorfose", de Kafka, escritor preferido e prioriariamente recomendado por Gabo, sobre o pobre homem que um dia acorda transformado em inseto. A leitura de "Ulisses", de Joyce, que Gabo declara ser o escritor com quem aprendeu a arquitetar um romance, não tentarei pela quarta vez para interrompê-la na página oitenta e poucos.

    A verdade é que, cada vez mais, aprecio o maravilhoso, o realismo mágico ou fantástico, como queiram. O rótulo é o que menos interessa, quando é rico o conteúdo.

     Com franqueza, não me importaria se existissem erros gráficos nas obras dos autores que referi. Li várias obras de Saramago, que, por exótico, usa propositadamente vírgulas onde deveria usar ponto; além do mais, em edições impressas em português de Portugal, que contêm troca de acentos circunflexos por agudos e usa um monte de letras de meio, para nós, dispensáveis. Há poucos meses, li com prazer o "Don Quixote", tradução com grafia própria do tempo da Segunda Guerra Mundial.  

     Mas fico sempre alerta, tratando-se de opiniões e conselhos advindos de Gabo. Não podem ser levados ao pé da letra. Guri travesso, arteiro e manhoso, é contraditório em várias passagens de sua obra sem qualquer constrangimento. Para quem parece não conferir grande importância à grafia das palavras, soa estranho o verbete extraído da obra jornalística "É preciso ter má ortografia" em que confessa certa predileção, no alfabeto castelhano, pela letra "h", segundo argumenta, por "combatida, denegrida e injustiçada".    

     De qualquer modo, com boa ou má grafia (embora priorize a boa do próprio Gabo!), vou morrer abraçado ao seu maior livro, "Cem anos de solidão". Prefiro solfejar a verossimilhança da fantasia, a emudecer nos inverossímeis compassos da realidade. 

 



Escrito por Jerônimo Jardim às 18h01
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CIGARRO E AMOR

Paulo Santana, em sua coluna de hoje em ZH, alude à dificuldade de abandonar o cigarro. García Márquez cita esclarecedora frase dita por um amigo médico, com a qual concordo: deixar de fumar é como matar um ente querido. Valeria para qualquer tipo de vício e qualquer forma de amor. Se a recíproca é verdadeira, matar um ente querido seria como matar um vício. Concluiria daí que somos viciados em bem-querer. Quem mataria um ente querido, mesmo quando esse causa sofrimento? Somente num ato de insânia, digno de nota policial. Não enlouqueci o bastante. Continuo a fumar. Mario Quintana foi velado entre centenas de cigarros avulsos (Santana filou um deles). Não sei se chegou um dia a deixar de fumar ou se morreu por causa do vício. Se morreu por causa do cigarro, não matou; foi morto por ele. Segundo García Márquez, nada existe de mais sublime do que morrer por amor. Não confundir com matar por amor. Vivo com intensidade resignada esse meu lado submisso.  



Escrito por Jerônimo Jardim às 10h31
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DA MÁ SAÚDE E DA MÁ FAMA

 

 

Em O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA, Gabriel García Márquez diz que "a única coisa pior do que a má saúde é a má fama". Pensei, na primeira vez que li a frase: o que interessa a boa fama para um estelionatário? Para ele, a saúde seria sempre mais importante. Ao medir sem cautela o peso da fama pela minha ótica, discordei de meu escritor predileto. Anos depois, achei que ele tinha razão. Entre seus iguais, também o bandido necessitaria de "boa fama". Tempo ao tempo. Na ocasião também não estava acometido de males de saúde. Reviravolta. Quantas interrogações, quantas dúvidas, quantos entendimentos para uma boa frase!  Voltei agora a discordar do grande escritor. Tudo depende do que se tem, não se tem ou se perdeu. Separados, males da saúde e da fama, impossível compará-los. O pior será sempre o mal que nos aflige. Ninguém pode sentir a dor da nossa dor.  E quando os dois males vêm juntos? Em tese, seria possível compará-los. Qual deles o mais cruel? Não sei. Nem quero saber. Um deles me basta: o que sofro agora. Viva tua frase, Gabriel!       



Escrito por Jerônimo Jardim às 06h42
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HILÁRIO

Muito engraçado, na página da UOL, o chilique do apresentador de TV surpreendido pela aparição de uma barata no chão do estúdio.  



Escrito por Jerônimo Jardim às 06h44
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FOI ONTEM

Acho que foi ontem, fui dormir com vinte anos de energia, sonhos e certezas. Acordei hoje com sessenta e quatro de fraquezas, frustações e cautelas. Tentei muito. Fiz tão pouco. Nada consegui decifrar da vida. Ainda bem que, às vezes, embora sem conseguir verbalizar sequer internamente, cheguei bem perto das descobertas; ou, simplesmente, ao fazer arte, elocubrei essa ilusão.  



Escrito por Jerônimo Jardim às 06h15
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VELHICE

 

Estado natural da existência? Para mim, é doença. O espelho não é bastante para revelá-la. Ocasionalmente, com freqüência (não precisa mais trema!), nos vemos refletidos em algum lugar. Habituamo-nos diariamente com a decadência física. Avança tão lentamente que não notamos; uma ruga aqui, um cabelo branco ali. Também começamos a esquecer fatos recentes, organizar obsessivamente objetos para poder localizá-los, minimizar a perda de memória. Ao ingressar na velhice, reportamo-nos, à exaustão dos outros, a emocionantes aventuras dos "bons tempos", localidade temporal em que nos sentimos mais seguros para relatar o trânsito das ocorrências. De tanto repetir, decoramos até as que foram inventadas. Velhice é doença sim, tanto que merecedora de especialidade médica, clínicas e hospitais geriátricos. Os médicos reconhecem-na sem dificuldade em seus pacientes. Difícil mesmo é o próprio paciente admiti-la. Ontem, com intensos e desgastados sessenta e quatro anos, precisei quitar diretamente no caixa do banco uma conta que esquecera de pagar na véspera do Natal (viu só?). Constrangido, como sempre desde que atingi a idade da benesse, não me animei a entrar na fila dos idosos, deficientes e portadores de dificuldades físicas temporárias. Esperei pela vez por meia hora na fila dos cidadãos presumidamente sem problemas maiores que os decorrentes dos carnês.       



Escrito por Jerônimo Jardim às 06h59
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