Escrito por Jerônimo Jardim às 07h02
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ABOBRINHAS
MICOS COM DROGAS
PREÂMBULO
Sou frontalmente contrário às drogas proibidas e me esforço para reduzir, com sucesso meramente parcial, o consumo individual das permitidas, cigarro e álcool. Mas nas décadas de 70 e 80, tempos de senso de responsabilidade reduzida e de aguçada curiosidade, em oportunidades de contar nos dedos, aceitei “presa” de cocaína e maconha. Só me dei mal. Nas duas vezes em que provei cocaína, percebi a auto-estima atingir o topo do Everest e, depois de passado o efeito, despencar ao fundo da mais profunda mina chinesa. Lança-perfume, cheirado para entrar no salão em bailes de carnaval, não conta, porque somente proporcionou falsa coragem, tontura e zumbido. Maconha? De positivo, somente rendeu os micos que agora conto.
PRIMEIRO MICO
Princípio da década de setenta. Eu recém chegara de Bagé. Morava na São Manoel, perto do Hospital de Clínicas. Um colega de música me dera uma ponta de baseado. Era noite de sábado. Eu não exercia mais a advocacia, profissão que ficara para trás, em Bagé. Vivia da publicidade. A música não rendia nada, além do prazer de compor e dos aplausos nas “canjas” em bares de música ao vivo. Fumei a bagana e saí a pé, a fim de dar canja no Bar da Adelaide, no centro da cidade. Quando estava na Osvaldo Aranha, tive a sensação de que era observado. Achei que dava bandeira. Tentei adotar comportamento mais natural, dissimular. Resultado contrário. Todas as pessoas que passavam por mim se viravam curiosas. Riam. A plenos pulmões, eu cantava trecho do “Sole mio”, que não compunha meu repertório de canções autorais. Jurei nunca mais experimentar aquela droga desgraçada.
SEGUNDO MICO
Segunda metade da década de setenta. Show no melhor bar de música ao vivo de Porto Alegre, o Viña d’Alho. Antes de entrar em cena, para não fazer desfeita e receber a pecha de careta, quebrei o juramento de alguns anos atrás e dei dois pegas no baseado que correu na roda feito chimarrão. No meio do show, tive um lapso de percepção. Perdi a noção da canção e do trecho que cantava. Devo ter voltado em outra, dada a confusão que se instalou na banda e dos olhares espantados dos freqüentadores. O susto, a adrenalina e o senso de responsabilidade venceram, devolvendo-me, daquele momento em diante, a lucidez e o equilíbrio. Assustado, novamente jurei que, definitivamente, nunca entraria em outra fria dessas.
TERCEIRO MICO
Hoje, menos radical, sou agnóstico, porque, sem comprovação, não creio cegamente no que leio ou me contam. Na segunda metade da década de setenta, eu era ateu de carteirinha. Nova quebra de juramento. Aceitei duas ou três tragadas de um baseado, na casa de uma amiga. Lá pelas tantas, iniciou-se diálogo interno que me conduziu a profundo silêncio e isolamento. Resolvi ir rapidamente para casa. Queria tomar notas daquela incrível experiência. Acreditava ter descoberto a essência de um Ser Superior. Isso decretaria absoluta mudança em minhas convicções. Passei a madrugada a escrever. Fui dormir satisfeito. Acordei ansioso pela leitura dos apontamentos. Nada havia além de rabiscos ininteligíveis. Rasguei tudo, indignado.
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h15
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ABOBRINHAS
MICO RECENTE - O CHURRASCO QUE VIROU ARROZ
Clair e eu convidamos para um churrasco e recebemos ontem em casa os amigos Jorge André, Coordenador de Música da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, sua esposa Cinara, a cantora Greice Morelli e o produtor cultural Ayrton dos Anjos. Clair pediu que eu acrescentasse arroz ao cardápio. Contra o argumento fronteiriço de que arroz não combina com churrasco, ela argumentou que salada de batata também não diz com os costumes gaúchos; alegação vitoriosa, ainda bem. A maminha embalada a vácuo saiu da churrasqueira fedendo a amônia. Não dava para cheirar; imagina comer. O churrasco ficou no salsichão da entrada, arroz ao alho com salsa picada e maionese. Não vou poder sequer reclamar direitos de consumidor. Doei a nota de compras para um asilo, na urna de entrada do supermercado.
Escrito por Jerônimo Jardim às 19h20
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