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ABOBRINHAS

GAUDÉRIO CARIOCA

 

O amigo intérprete cantaria música de minha autoria em homenagem a Bagé. Por entender, creio eu, que valorizaria o festival nativista, como eu estava no Rio, os organizadores inseriram no texto de apresentação que a música vinha de plagas cariocas. As vaias começaram antes do primeiro acorde. Atrapalhado ante a reação da platéia, meu intérprete perdeu as alpargatas que calçara feito chinelos. Acesas as luzes dos spots, engatinhava sob o piano. Se não me engano, foi infeliz na procura. Não achou o pé perdido. A coisa ficou mais feia, segundo me contou. O público detestou a afrontosa apresentação do carioca intrometido; pra cúmulo dos cúmulos, mal calçado.           



Escrito por Jerônimo Jardim às 06h21
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ABOBRINHAS

 

 

VIROU PIZZA

 

Clair e eu fomos à Bagé a convite de Cris e Ciro, amigos de anos. Cris preparara, de véspera para dar certo, o mocotó que seria servido sábado, na festa em que estariam presentes Gianna, Christian, José Ducos, Fernando Moreira, Julinho Pimentel, Claudimir, Antônio e Tico-Tico, músicos, compositores, intérpretes e artistas da cidade com seus familiares. Passamos o dia a compor jingles e preparar vídeos para a campanha de supostos candidatos a cargos municipais. Ciro e Cris, também compositores, se envolveram na criação. Não deu outra. A Cris se distraiu. O mocotó, tirado muito cedo da geladeira, azedou. Foi uma bela noite de pizzas, compradas de última hora, e de jingles recusados, mesmo que pagássemos a veiculação das peças com slogans que, entendíamos, elegeriam facilmente nossos supostos candidatos, tipo “porqueira por porqueira vote no...”.  



Escrito por Jerônimo Jardim às 18h40
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ABOBRINHAS

FURADAS DOS AMIGOS

PRIMEIRA DANÇA

Luiz Coronel contou que um de nossos amigos, convidado para um baile em sua estada na Europa, tão logo tocou a primeira música, convidou para dançar uma loira ao lado. Foi a primeira vez que alguém dançou o Hino Nacional da Bélgica.

 

NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA PISCINA, TINHA UMA PISCINA NO MEIO DO CAMINHO

 

Um de meus amigos caminhava no pátio de casa. Lá pelas tantas, apressou o passo e alinhou em direção à porta. Afundou na piscina em pé, de terno, gravata e sapatos, falando ao celular.   

 



Escrito por Jerônimo Jardim às 18h05
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ABOBRINHAS

 

GOL DO SÉCULO

 

Eu fora campeão juvenil pelo Rio Grande. Não figurei na lista dos que subiriam ao time profissional. Abandonei. Segui na várzea. Escalado no ataque, fazia gol até de bunda. Na defesa, dava bico pra qualquer lado. Ensolarada tarde de sábado em Porto Alegre, no campo do quartel da Serraria, início da década de oitenta. Eu era centro-avante naquele jogo. Metade do primeiro tempo. Bola alçada pelo Antônio “Gripinha” lá da lateral direita, pouco além da intermediária. Disputei corrida com o marcador. Vento forte. A bola sofreu curva acentuada na trajetória. Entrada da área. Passamos do ponto. Mergulhei. Bicicleta invertida. Acertei a bola em cheio. Dois calcanhares em linha. Entrou uma bala. Ângulo direito. Tico-Tico, habilidoso meia-esquerda, bradou no bolo dos abraços: “Como é que esse monstro fez isso?” Ciro, craque maior do time, ausente em virtude de viagem, não acreditou na façanha, economicamente narrada por telegrama. Há testemunhas de fé. Aconteceu. Bem antes do chamado “Gol do Século”, na Europa; gol semelhante, mas, modéstia à parte, de menor plasticidade, com somente um calcanhar. O do Zico, no Rio, pelo Flamengo, também foi com um calcanhar, quase da pequena área. De fora da área grande, com os dois calcanhares, foi o meu. Carimbado cabeça-de-bagre, vivi meu glorioso dia de peixe de aquário.  

Escrito por Jerônimo Jardim às 07h25
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BALANÇO

A lembrança das "abobrinhas" me levou a concluir que os percalços somente serviram de desconexa moldura para o que clareou, maravilhou. Como disse em Vagalumes, "quem cai não passa do chão, na terra que é nosso ninho (...), valeu o prazer mortal, a dor que não tem tamanho."  

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h10
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PARCEIRA IDEAL DE UM NEO-MACHISTA

Independente. Competente. Inteligente. Carinhosa. Alegre. Elegante. Incentivadora. Com poucas manias. Recatada em sociedade. Bela. E muito puta na cama.  

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h05
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ABOBRINHAS

 

 

HONORÁRIOS EM PERU

 

As nomeações como defensor “ad hoc”, no início de advocacia em Bagé, renderam mais essa. O réu fora absolvido da acusação. O inquérito não proporcionara certeza de que as galinhas apreendidas, que ainda não tinham ido para a panela, fossem mesmo da vítima. Por óbvio, no mesmo processo, o cidadão que comprara as aves também fora absolvido. Eu voltava do Foro para o apartamento, que servia como residência e escritório. Zulmira, doméstica a serviço da Mara e secretária a meu serviço, disse que guardara na despensa um saco branco com algo dentro que muito se debatia, presenteado por homem que ela bem conhecia como meu cliente. Discreta, não conferira o conteúdo. Era um vivíssimo peru. Quem poderia garantir que o grato cliente não teria cometido crime de capitulação idêntica ao do processo em que fora absolvido? Simples flagrante policial e eu poderia ser acusado de receptação. Sei lá o destino que demos aos honorários. Lembro somente das boas risadas. 

Escrito por Jerônimo Jardim às 07h24
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SEBASTIÃO LAMOTTE

O bageense Sebastião Lamotte faleceu, informa por e-mail o síndico do condomínio. Éramos vizinhos, moradores do mesmo prédio aqui no bairro Floresta. Três vezes, nos últimos noventa dias, encontrei-o de passagem. Simpático, ele queria combinar um chimarrão para prosear. Eu sempre tinha um ou outro compromisso nos horários livres dele. Sou cético quanto a majoritariamente acreditada existência de vida após a morte. Gostaria de estar equivocado para, a tempo e em tempo, tomar com o Sebastião aquele mate que tardou. 

Escrito por Jerônimo Jardim às 06h06
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ABOBRINHAS

 

 

VAIAS MONUMENTAIS

 

PRIMEIRA

 

Eu tinha uns quinze anos. Começava a tocar violão. Pouco me arvorara a compositor. O que mais ouvia no rádio em Bagé era o mexicano Miguel Aceves Mejias, cujos falsetes tentava imitar, e Nelson Gonçalves, cuja voz grave era inalcançável para meu registro. A bossa nova fazia sucesso entre os jovens de classe média. Veio o show de alunos do Colégio Auxiliadora. Depois de aplaudida apresentação de “O barquinho”por uns garotos, cantei “De cigarro em cigarro”. Foi vaia do primeiro ao último acorde. Não desisti. Como saber que, ao continuar na música, viriam outras maiores? E se soubesse?

 

SEGUNDA

 

Classifiquei “Purpurina” no MPB-Shell-81 da Rede Globo. Na finalíssima do festival o público queria  como campeã bela  canção de Guilherme Arantes que amanhã lembrarei o nome. Deu branco. Mas não é trauma. Venceu "Purpurina". A vaia foi tamanha e de tão longa duração que Lucinha Lins, a intérprete, não conseguiu ouvir os músicos na reapresentação. Declamou em vez de cantar. Mas nos juntamos com prêmio pra lá de bom. A Lucinha lançou "Sempre, sempre mais", espetáculo musical de sucesso. A canção rendeu belos direitos autorais. Resolveu minha vida por vários anos. Essa vaia somente me deu alegrias.

 

TERCEIRA

 

Apresentei em 1985 “Astro haragano”, de minha autoria, na XV Califórnia da Canção de Uruguaiana, com arranjo arrojado e participação instrumental de Alegre Corrêa, músico que faz sucesso nos palcos da Europa há quase vinte anos.Quando foi anunciada vencedora, o público jogou o que podia no palco, principalmente latas de cerveja, ainda bem que vazias. O cerco se estendeu à madrugada. Fui salvo das ameaças de forca em carro particular, sob escolta da Brigada, e graças a ação dos bombeiros, jatos d'água apontados na direção da turba enfurecida. Dizem que somente consegui fugir por me ter fantasiado de prenda. Nego peremptoriamente o uso desse disfarce. Mas se fosse preciso, quem sabe? Por causa dessa vaia, saí de cena por onze anos exatos. A volta ao palco ocorreu em show contratado pelos organizadores da Califórnia, na noite final do festival, na edição vencida por Sérgio Rojas. A canção da vaia foi aplaudida por quatro mil pessoas, do primeiro ao último acorde.O trauma foi superado; as mágoas esquecidas.    

Escrito por Jerônimo Jardim às 14h15
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ABOBRINHAS

 

 

DEUS POR TESTEMUNHA

 

Final da década de sessenta. Recém formado em Direito, eu advogava em Bagé. Não havia na época Defensoria Pública. Os novos advogados eram nomeados em rodízio pelo juiz defensores “ad hoc”. Fui encaregado da defesa de um cidadão negro de quase oitenta anos que cometera crime de lesão grave. Decepara numa briga de facão o braço de um jovem de vinte e poucos anos. A vítima passara horas à frente da casa dele a gritar impropérios, desafiar para briga. Meu cliente queria comprar pão. Não conseguiria sair à rua sem ser agredido. A vizinhança espiava das janelas. Depois de horas, indignado, ele não suportou mais ouvir as provocações. Saiu no portão armado. Trançaram-se os ferros. Deu no que deu. Eu disse que ele teria de alegar ter saído para suas compras rotineiras, de facão na cinta porque as ameaças prenunciavam necessidade de defesa à altura. Eu alegaria legítima defesa. Ele disse que não fora assim. Que até esquecera da necessidade de comprar pão. Que saíra mesmo para brigar. Que não podia mentir. A religião não permitia. Deus era sua única testemunha. Eu disse que isso não bastaria. Precisava do depoimento de vizinhos para comprovar que ele fora atacado e se defendera. Declarar somente que  aceitara a luta, configuraria duelo, ato criminoso pela legislação pátria. Ele preferiu o testemunho de Deus. Sem opção, arrolei na defesa prévia  “Deus de Tal, residente em lugar incerto e não sabido”. O Oficial de Justiça percorreu sem sucesso a Vila para notificar a testemunha. Ninguém soube informar onde morava. O fato foi por muito tempo lembrado e relembrado no Foro de Bagé. Sem elementos para que o juiz fundamentasse sentença absolutória, o velho Claudionor foi condenado a um ano de reclusão sem direito a sursis. Festejou os oitenta anos, conformado com a vontade de Deus e grato pelo meu esforço, a rezar atrás das grades.                    



Escrito por Jerônimo Jardim às 07h03
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ABOBRINHAS

 

 

DEU CERTO POR ACASO

 

No início da década de oitenta fui tentar a sorte no Rio de Janeiro. Aprendi a cozinhar na marra. Ainda não sabia nada, mas me meti a oferecer janta para o compositor Paulinho Tapajós, festejar nossa recém inaugurada parceria, O BABA DO CHICO, samba que se inspirava nas nossas peladas de sábado no campinho de futebol de Chico Buarque, gravado no meu vinil TERCEIRO SINAL. Resolvi preparar carne assada, batata inglesa na manteiga e arroz ao alho. Nunca tinha cozinhado arroz nem me informara a respeito. Ficou um grude. Emborquei a panela. Saiu um bolo compacto. Cortei uma fatia. Provei. Estava boa de sal, bem acentuado o sabor do alho. Cobri com salsa e cebolinha. Coloquei numa travessa. Cozinhei em água e sal e passei batata inglesa na manteiga com salsa bem picada. Já era perito nesse prato. Também sabia assar carne no fogão. Aprovei. Foi assim que inventei o meu bolo de arroz ao alho, com cobertura de salsa e cebolinha e uma pitada de pimenta do reino, mais óleo de oliva a gosto. Deu certo. Por acaso. 

Escrito por Jerônimo Jardim às 14h31
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OUTRA ABOBRINHA

ERA INÉDITA E INÉDITA PERMANECEU

 

 

VII Califórnia da Canção de Uruguaiana de setenta e sete. Eu concorreria com duas músicas. A primeira, SEIS DA MANHÃ, parceria com Zezinho Athanásio, contava a história de trabalhador campeiro que optara pela vida de auxiliar de pedreiro na Capital. Venceu a Linha de Projeção Folclórica do festival. A segunda, CAVALO, VIOLA E MULHER, ironia à fanfarronice de velho gaudério, era somente minha. Seria apresentada na eliminatória seguinte. Felizes com a classificação da primeira, eu e os músicos não dormimos. Passamos o dia de festa. Quando nos demos conta, estava na hora da apresentação da segunda. Saímos do bar direto para o palco. Sem microfone, ansiosamente afoito, fiz a contagem e ataquei. Toneco da Costa, Loma, Paulino Batera e Zezinho passaram a me “perseguir” como podiam. As mais de mil pessoas presentes ouviram somente o ÉEERRRR de “bem me quer”, no exato momento em que colocado para mim o aparelho. Público em silêncio, perplexo. Despedimo-nos com encabuladas reverências. Sem aplausos. Sem vaias. Assim CAVALO, VIOLA E MULHER permaneceu inédita. Lembro do ÉEERRRR. Do resto da canção, quase nada. 

Escrito por Jerônimo Jardim às 06h59
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