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O TAPETE DE ELIS REGINA
Mara se lembrou de uma. Ela e eu, Geraldo Flach e Malu Pederneiras, estávamos no Rio. Eu e Geraldo éramos jurados do MPB Shell-80 da TV Globo. Elis iniciava a longa temporada de SAUDADE DO BRASIL no Canecão. Gravara MODA DE SANGUE, minha parceria mais conhecida com Ivaldo Roque. Queria mostrar a gravação que figuraria no antológico disco. Convidou-nos para o almoço no apartamento que alugara em Ipanema. Quando o cheiro da feijoada começava a chegar na sala, ela colocou a demo para rodar. Voltou com a Mara para a cozinha. Notei que me espiava da porta. Quando soou o acorde final, veio até mim com dois cálices de cachaça. Na tentativa de pegar o que ela me oferecia, entornei o cinzeiro no tapete branco e peludo em que ela sentara à minha frente. Ela quase se desmanchou numa gargalhada. Eu ali, sem palavras, a pensar em como meu pai estava pleno de razão quando, para criticar meu desajeitamento canhoto, me chamava de Aranha. Senti gana de sumir com as cinzas no tapete maculado.
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h43
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ABOBRINHAS - IV
AFOITO NO BAILE
Os músicos do conjunto musical Norberto Baldauf já tinham afinado os instrumentos. Eu olhava as mesas em busca de par. Perto do conjunto, no campo visual de todos os olhares e atenções naquele momento, vi uma linda guria que eu não conhecia. O conjunto atacou um bolero. Resolvi não perder para ninguém a primeira dança. Atravessei o salão confiante, a retocar o nó da gravata. Era tarde quando vi a cadeira de rodas. Ela solicitou a alguém que me cedesse lugar à mesa. Ali fiquei a conversar, sei lá o quê, ao lado dela, até o primeiro intervalo. Fico encabulado até hoje. Mas também me emociono ao lembrar o belo rosto, a simpatia e a desenvoltura da menina paraplégica.
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h37
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ABOBRINHAS - III
CORTINA INESQUECÍVEL
Após me apresentar em Uruguaiana, fui convidado para jantar na casa de amigo rico. Parcela importante da alta sociedade estava presente. Uma cortina, ondulante e transparente, que parecia não ter costuras, cobria parede inteira da ampla sala de jantar. Depois da janta, os homens se reuniram para conversar e fumar em sofás próximos da abertura que havia para florido jardim de inverno. Uma lufada de misteriosa e inesperada brisa jogou a cortina no meu cigarro. Abriu-se fumegante buraco. Tentei em vão conter o estrago a tapas. Jamais vou esquecer meu constrangimento ante o indisfarçável olhar lamentoso da dona da casa, a receber gaguejados pedidos de desculpas e a tentar me convencer de que não fora nada.
COZINHEIRA
O show fora bom. Eu jantava a convite do amigo Jorge André, músico e empresário, em casa de outros amigos de Santa Maria. Cada prato que vinha à mesa superava o outro em sabor. Maravilhado e agradecido, tomei a iniciativa de ir à cozinha cumprimentar a cozinheira. Da porta eu a aplaudi e cumprimentei em voz alta para que todos ouvissem. Repeti mais de três vezes aplausos e cumprimentos. Nada. Ela nem aí, de costas para mim, envolvida em suas lidas. Retornei à mesa. Risos contidos. Jorge André, mais íntimo, gargalhava. Jerônimo, ela é completamente surda, disse. Explodiram. Quem mandou se meter de pato a ganso, como dizia meu pai.
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h48
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FURADAS
FLÁVIO ME LEMBROU DE OUTRAS FURADAS MINHAS, PIORES QUE AS DO CLEMER. FICAM PRA AMANHÃ.
Escrito por Jerônimo Jardim às 20h04
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MORREU UM BOM HOMEM
Faleceu Marcelo Zaffari. Não só um dos maiores empresários dessas plagas, mas homem de muitas outras qualidades. Poucas palavras que troquei com ele foram bastantes para conhecer as medidas de sua modéstia, simpatia e afabilidade. Episódios narrados por Luiz Coronel, nosso amigo em comum, dizem bem o quanto o saber empresarial e a fortuna não modificaram sua terna personalidade. Deixará lacuna. Mas navegar é preciso.
Escrito por Jerônimo Jardim às 12h46
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TRAGÉDIA PROVEITOSA
Não é a primeira vez que tragédia abre portas para aproximação de inimigos.
O furacão que devastou mais da metade das plantações cubanas pode conduzir ao fim do embargo comercial. Não tem porque perdurar desde o final da chamada "Guerra Fria".
Os Estados Unidos ofereceram ajuda humanitária. Cuba recusou. Disse que prefere empréstimos. Basta agora atitude positiva dos americanos.
Bush está de malas quase prontas. Fidel fuma seus derradeiros charutos.
É hora de zerar pendengas.
Escrito por Jerônimo Jardim às 12h19
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ABOBRINHAS – II
CHESTER
Thaís se lembrou de outra minha. Resolvi aproveitar um jantar que ela queria oferecer aos colegas do Rosário para testar meus pretensos dotes culinários; servir chester, novidade culinária da época. Não contava que o cheiro de tinta fresca das paredes recém pintadas do prédio impregnaria o sabor do prato depois de tirado do forno. Nem cachorro comeria aquela droga. Perdido o chester, já em cima da hora da festa, eu e meu filho Flávio saímos a correr em vão pela cidade a procura de um bicho daqueles, pronto para consumo imediato. Só nos restou arrematar os franguinhos quase queimados que restavam na TV de cachorro do derradeiro botequim. Servi somente a carne branca, de peito. A turma comeu. Repetiu. Elogiou o cozinheiro. Talvez porque o sabor de chester fosse pouco conhecido. Desisti do pedido de desculpas. A gurizada lembra com saudade do chester na casa da Thaís.
PRESTATIVO
No nosso prédio morava simpático casal de cegos. Ela se deslindava da limitação com mais desenvoltura. Ele vivia a tropeçar nas floreiras, nas árvores, nos canteiros, nos degraus. Escurecia quando eu e ele chegávamos no prédio. Ele trombara no portão. Passei-lhe à frente. Eu abro a porta, falei. Ele agradeceu. O corredor estava escuro. Corri para o interruptor para outra gentileza. Eu acendo a luz, disse-lhe. Ele apressou o passo. Seguiu em frente. Ao ritmo da bengala. Sem palavras vãs.
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h58
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ABOBRINHAS - I
Voltei, de olhos reformados, com vontade de escrever e contar abobrinhas. Também gostaria de ler abobrinhas alheias. Não se encabulem. Contem-me as suas nos comentários.
CARA DE POBRE - 1
Eu saía de terno e gravata do shopping onde fora almoçar. Auxiliei uma idosa a descer do táxi, enquanto o rapaz que a acompanhava pagava a corrida. Ao perceber a prestativa ajuda, ele me ofereceu uma moeda de cinqüenta centavos que, atrapalhado, deixei cair na sarjeta.
CARA DE POBRE – 2
Eu me aproximava a passos rápidos do Viaduto Obirici, boné enterrado na cabeça, camiseta, bermudas e tênis confortáveis. Colega, tu já recoieu os papel aí pra cima? Um papeleiro me interpelou. Não, respondi surpreso. Então eu vô recoiê, ele retrucou. E lá se foi, a assobiar uma sertaneja.
CARA DE POBRE - 3
Depois dessas, não tenho mais medo de ser assaltado à noite. Meu medo agora é de que algum transeunte ou, pior, algum policial, me confunda com pobre que mudou de ramo, desistiu de batentes convencionais, como portaria de shopping e coleta de lixo.
Escrito por Jerônimo Jardim às 20h14
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