| |
VELHO TESTAMENTO
Leio, no momento, o Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago. Em determinado momento o narrador considera que a obra parece ficcional, escrita por autores descuidados quanto à verossimilhança da narrativa. Mas mais inverossimilhanças há, a meu ver, no Velho Testamento. Excluo das inverossimilhanças o fato de Deus ter mensurado a duração do trabalho em dias e ter descansado no sétimo, uma vez que teria começado a criação pela Terra. A girar em torno de seu eixo, ensejaria ela a contagem da tarefa em dias, quem sabe em luas, se Deus também teve logo a idéia de criar o satélite para desfrutar de noites enluaradas após árduo labor ao sol, também imediatamente criado antes do resto do universo. Diante de episódios, para mim não convincentes, entre eles o de que Deus teria preferido instalar a sede da criação num dos menores grãos de uma das menores galáxias de sua obra, tento reescrever o Velho Testamento, antes que o genial Saramago o faça. Começo mal por absoluta carência de expressões para narrar sentimentos, pensamentos, percepções, projetos e motivos de Deus; sendo Deus quem é não careceria de verbo e sentimentos. A tal ente único sequer poderíamos atribuir a qualidade de genial, própria a qualificar seres que, dentre nós, pobres e limitados mortais, se destacam por sua sabedoria incomum. Por mera incompetência, recorro à assertiva aceita, para mim também inverossímil, de que Deus nos teria criado a sua imagem e semelhança, o que lhe conferiria necessidades de pensar, falar e sentir, mais outras tantas tão humanas. Assim eu iniciaria. “Gozava Deus eternos momentos de ócio; sem adoradores, milagres, castigos; enfim, sem ocupação. Todo seu corpo era um incomensurável vazio; saco cheio de nada. Deus sequer precisava desenhar, planejar; talvez nem o sentir lhe fosse próprio; somente o fazer, sem qualquer necessidade ou objetivo parecido com aqueles que nos levam às ações. Então, de seu ventre incorpóreo, gerou em fogo todos os corpos celestes que, de imediato, sem contagens de tempo em anos-luz, ocuparam sua infinita dimensão. Porque seria enfadonho administrar sem opositores ou, quem sabe, para se livrar de tarefas pouco prazerosas como as de fazer frágeis almas sucumbirem à tentação para depois puni-las no Inferno, sem prescindir da autoria de bênçãos, benesses, favoritismos, cataclismas cósmicos, castigos, pestes e raios, inventou Deus o demônio. Quando se arrependeu era tarde. Criara oponente também eterno, indestrutível, capaz até de dissimular-se, fingir ser seu divino autor de acordo com suas satânicas intenções, para aliciar almas, fazer das suas." Por aí...
Escrito por Jerônimo Jardim às 08h34
[ ]
[ envie esta mensagem ]
ARANHA VOADORA
Petulantes que somos, achamos que inventamos o modo de voar sem asas próprias. Só que, agora mesmo, passou pela minha janela, no décimo primeiro andar, uma pequena aranha, lépida e faceira à ponta de uma teia, original e serpeante aparelho flutuador que dispensa asas, feito no cuspe. Por certo, seus antepassados inventaram (?) e vêm transmitindo (?) tal saber aeronáutico a seus pósteros, muito antes das arrojadas navegações de nosso intrépido Santos Dumont.
Escrito por Jerônimo Jardim às 08h00
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ ver mensagens anteriores ]
|