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TUDO EM NADA
Vivemos em espaço de compreensão tridimensional. Não é de estranhar que não consigamos entender grandezas infinitas; algo que não se pode conter dentro de algo ou que se possa colocar por fora como papel de embrulho, sem nada que o contenha. Para nossa compreensão, o próprio nada seria ainda espaço, mesmo que interminável. Já refletiram sobre a experiência das caixinhas que contêm outras ou que se contêm dentro de outras, rumo a macro ou a micro dimensão? Rumo a caixa maior tropeçaríamos na falta de espaço e recursos no meio da empreitada; rumo a micro-caixa, teríamos que aguardar a confecção de microscópios mais potentes. Assim me conformei, numa madrugada dessas em que as idéias brincam de esconde-esconde, com a fatalidade de que jamais comporei a canção que conteria o belo em sua magna plenitude. Teria que ser tão absoluta, tão plena, que compreenderia somente fragmentos indispensáveis; um todo depurado de supérfluos; um fazer no aparente não-feito; finalmente obra máxima, expandida ou restringida no universo do nada. Mas quem entenderia essa partitura de silêncio, assentada numa folha em branco?
Escrito por Jerônimo Jardim às 10h18
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Escrito por Jerônimo Jardim às 08h00
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REPUBLICAÇÃO
Ao ouvir em entrevistas algumas vozes que amparam a idéia de investimento estatal em escolas de horário integral como forma de educar e afastar os jovens da marginalidade, republico esse texto. Acredito nessa ação preventiva que envolve vários Ministérios e/ou Secretarias de Estado, contra a miséria, a marginalização, mais eficaz quando à segurança pública do que investimentos meramente curativos em policiamento e presídios.
TRISTE, IRRITANTE, DESCONCERTANTE.
É TRISTE ver mendigos jovens, cheios de filhos, à porta dos supermercados. Mas é IRRITANTE e desconcertante ser abordado por eles. Irritante porque vêem a gente com sacolas e sequer cogitam de oferecer ajuda em troca da grana postulada, às vezes tabelada. DESCONCERTANTE porque temos que balbuciar mentiras tipo "não tenho", já que não caberia qualquer reprimenda, sujeita que estaria a desculpas convincentes como "não acho emprego" ou, pior, impropérios revoltados. E quando tais pedintes abandonarem a posição de humildes achacadores para aderir a dos predadores raivosos, armados, dispostos a tudo, sem medo de nada, com gana de bens e sangue? Não ficarão sempre como estão, nessa humilhante condição, fenecimento passivo na miséria. Eu não ficaria. Nas esferas de poder continuam a falar em SEGURANÇA; só nisso: ações diretas contra os pobres que viraram bandidos, reforço do contingente policial, construção de presídios (bem como nas áreas de saúde, onde, a despeito dos princípios constitucionais e das normas do SUS, optam por atacar a doença em vez de sua causa, de todos sabida: a marginalização, a deficiência alimentar; a falta de moradia decente, de empregos, de melhor distribuição de renda). Basta ser pobre, ser negro, morar na periferia, para sofrer revistas quase indecentes, levar bala, perdida ou com endereço certo. Não posso me conformar que não se veja o óbvio. Basta investir nas novas gerações, dar escolas em tempo integral que ofereçam educação, cultura, esportes, lazer, comida, postos de saúde, inclusive para atendimento às famílias dos estudantes. Certamente aderirão com simpatia os pobres marginalizados (até os que já viraram bandidos e têm filhos!), vítimas do brutal abismo que, comodamente, fingimos não ver. Economicamente, será mais barato e eficaz para o Estado. Serão menos pedintes infantis nas ruas, mais cidadãos em pleno exercício da cidadania, menos candidatos a cadeias obsoletas, universidades da delinqüência, fertilizadoras do ódio, numa sociedade que não sabe como dar emprego a egressos do sistema prisional para que não retornem á delinqüência, única "profissão" que lhes é dada a exercer. Proporcionar essa chance às nossas crianças será bem mais piedoso do que as moedinhas descartadas na vulnerabilidade do assédio.
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h52
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METAMORFOSE
Hoje pensei muito na primeira página da “Metamorfose” de Kafka, no cara que acorda transformado num “inseto monstruoso”. O mundo parece o mesmo; chuva, sol, frio, calor. Mas ele, Gregor, acorda outro, cheio de limitações e dores de existência. Em “O Processo”, diz Kafka, “o instante de despertar é o instante mais perigoso do dia”. Assim me chegou o pesadelo. De repente, bicho humilhado, tímido feto, agredido pela própria ignorância e pequenez. Depois de semanas, diagnóstico. Doença auto-imune. Artrite reumatóide. Cortisona. Efeitos colaterais. Prognóstico pouco animador. Gratidão a drogas, alívios, vislumbres da anterior felicidade, tão natural e insuspeitada de que fosse tamanha. Em respeito aos que sofrem males iguais ou superiores, aos felizes (que às vezes parecem poucos por não se aperceberem de sua saudável normalidade), minha metamorfose sai em silêncio de cena para centrar-se, sem pudores, em seu umbigo egoísta. Dor não se divide nem com inimigos. Saúde e felicidade a todos. Levo fé nos lenitivos presentes e na medicina futura. Até outros assuntos. Talvez consiga tê-los e escrevê-los, quem sabe entre um capítulo e outro dessa nova e emocionante aventura. Feliz 2008.
Escrito por Jerônimo Jardim às 19h21
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