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SHOW DE VIVA VOZ NO SOLAR DOS CÂMARA

Escrito por Jerônimo Jardim às 06h52
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O SABIÁ DA TIMÓTEO
Existem mitos a serem derrubados. Um deles é o de que poeta precisa sofrer na carne para criar. Creio que poeta necessita, sim, de emoções intensas para que a central de criação seja ativada. Poemas não exigem, necessariamente, vivência dramática pelo próprio criador. Atendo-me a letras de música, chão em que melhor transito, Chico Buarque deu voz a prostitutas e damas de alta classe, expressando-se como se tivessem existido nele; com rigor estético e lirismo de poeta. Tomou emprestado o sofrimento; mas, em igual proporção, a alegria. Os sentimentos, quaisquer que sejam, podem nascer poesia do que o poeta atiça em si para dar vida e voz a personagens ficcionais, ao sofrer ou se regozijar em texto para somente revelar almas da imaginação. Quando falo em poetas, falo de criadores de arte em geral; compositores, romancistas, atores ou pintores. Verdade que conheço um artista que, até prova em contrário, manifesta arte nascida da própria solidão e que, por isso, qualquer dia desses, poderá encontrar morte nada poética, nada parecida com anemia profunda ou tuberculose, que vitimavam poetas de antanho; alguma pedrada oriunda da mão impiedosa, insensível e perturbada, de um dos que sua arte intempestivamente desperta nas madrugadas da Timóteo, quase esquina com a Cristóvão: o sabiá que canta e cantará todos os dias, às quatro da manhã, até encontrar a amante desejada ou seu trágico final.
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h07
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