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ELOGIO A NIETZSCHE
Depois de ler e reler o Ecce Homo, creio ter melhor compreendido as "arrogantes" proclamações do autor. Crentes não discutem verdades evangélicas. Quando se privam da vida natural, têm convicção de que receberão compensações paradisíacas, algumas compradas para o gozo eterno da alma, como cadeiras no céu ao lado do Senhor. Os católicos, quando cedem às "tentações da carne", conquistam as graças do Senhor com confissões, louvores a quem deles não precisaria em sua onisciência, orações, penitências e santos sacramentos; a extrema-unção como grande final. Há não-crentes que, à proximidade da morte, se submetem a todos os princípios negadores da vida natural, temerosos de castigos eternos, inculcados e formatados a séculos, mesmo nas mentes mais rebeldes. Na ignorância do porvir, se rendem às farsas da Fé. Nietzche, não. Gravemente enfermo, em sua louca lucidez, não teve sequer vergonha de se auto-proclamar dono absoluto da verdade, elevar-se ao mais alto patamar da sabedoria. Nem o próprio Cristo, consagrado membro do triunvirato divino, arriscou-se à imodéstia de reconhecer seu elevado posto, transferindo a afirmativa a Pôncio Pilatos. Nietzche, ao criticar os homens bons e elogiar os maus, não queria senão atacar aqueles considerados bons pela moral vigente e exaltar os não-alinhados. Isso ele torna claro ao transcrever trechos do Zaratustra, embora sempre pergunte ao final se foi bem compreendido. Temia não sê-lo. Afirmava isso; com razão. Disse que o homem bom surgiria depois da destruição dos velhos conceitos sobre a bondade... O cristianismo usurpou, para sucesso da evangelização, princípios enraizados na natureza do homem, anteriores a qualquer pregação apostólica. Isso Nietzsche não disse; mas acho que quis dizer. Vale lembrar que os princípios usurpados da moral natural foram várias vezes profanados; entre eles, o de não matar seus semelhantes. Os "infiéis" não eram semelhantes? Os "bruxos" não eram semelhantes? Para que usurpar riquezas terrenas, se a verdadeira riqueza era a eternidade paradisíaca? Nietzche sofreria profundamente se, enganado quanto à crença na inexistência da alma eterna, de um paraíso criado para hospedar os espíritos que realmente querem o bem, pudesse constatar que, ainda hoje, continua afirmada, como meio de ascensão às graças eternas, a privação do desfrute de venturas da vida natural, única da qual temos certeza, criada ou não por ente divino (que ele nunca afirmou existir mas que também jamais negou ao negar a existência daquele impingido, profanador do bom e justo verdadeiros que se entronizariam após a derrocada das falsidades). Dizem que cada leitor entende o que quer. Assim entendi a fala de Zaratustra; digo, desse sincero e imodesto homem chamado Nietzsche.
Escrito por Jerônimo Jardim às 04h43
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ERA UMA VEZ
Era uma vez um país vegetariano. Comer carne era crime. Os vegetais eram muito caros para a mesa dos pobres. Havia pobres que se conformavam. Passavam fome. Deixavam suas crianças morrerem esquálidas. Mas havia os que não se conformavam. Matavam animais para sobreviver. Quando eram flagrados, eram presos. As cadeias estavam superlotadas. Os apenados recebiam rações mínimas de vegetais podres. Depois da pena cumprida, muitos continuavam indefinidamente presos, os processos sem andamento. Quando eram libertados, continuavam sem meios de adquirir alimento lícito. Não havia qualquer órgão de acompanhamento para reintegração dos ex-presidiários à sociedade. Voltavam à prisão pelos mesmos motivos ou pelo crime mais grave de terem se associado a organizações que vendiam carne para os mais ricos, que não conseguiam viver sem a iguaria proibida. Os consumidores ricos, quando surpreendidos em flagrante, conseguiam se livrar das condenações, assistidos por bons advogados, à alegação de que eram meras vítimas de poderosos facínoras. Quando eram excepcionalmente condenados, dificilmente iam parar nas prisões, embora especiais, mais confortáveis do que suas próprias casas. Como toda a sociedade organizada, havia governantes, julgadores e legisladores. Mais da metade deles comia caldinho de carne, vendida, como a carne adquirida pelos ricos, por quadrilhas de bandidos oriundos da classe pobre, financiados por alguns ricos inatingíveis. Não era crime; mas era moralmente condenável. Podia levar à perda do cargo. Quando eram denunciados, geralmente por órgãos da imprensa, livre depois de longo período sob censura prévia (antes existiam os mesmos deslizes éticos, mas ninguém ficava sabendo), submetiam-se a julgamento por seus pares. As sessões eram secretas, por razões de segurança nacional. Revelar o que nelas ocorria era considerado grave ofensa, que sujeitava o acusado à pena de morte sob tortura. Os agentes públicos comedores do caldinho proibido eram geralmente absolvidos das acusações. A imprensa criticava. O povo se indignava. Mas logo esquecia. Os absolvidos acabavam retornando aos cargos pelo voto dos sem-memória. Só sofriam condenação os comedores de caldinho que sabiam demais de atividades escusas de seus julgadores. Cumpriam pena de prisão domiciliar, sem perda da remuneração do cargo de afastamento. Não havia quem fiscalizasse o cumprimento da pena. Freqüentemente, tais condenados eram vistos em restaurantes da moda, principalmente naqueles que serviam vegetais raros e caros. Em casa, continuavam a tomar seus caldinhos nutritivos. Felizmente, isso aconteceu há muito, muito tempo. Esse país, hoje, não mais contempla tratamento diferenciado entre ricos e pobres, regido que é por Lei Maior que ninguém ousa macular.
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h15
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RECUPERAÇÃO DE REGISTROS
Desolação! Perdi todos os arquivos. Ainda bem que publiquei as duas novelas no blog e que decorei todas as letras das minhas canções. As fotos que não revelei, dançaram. Peço aos amigos que me enviem seus endereços de e-mails e blogs. É um recomeçar. je.jardim@uol.com.br.
Escrito por Jerônimo Jardim às 10h55
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DE VOLTA À REDE
Depois de uma semana com problemas de software estou de volta.
Gracias pelas mais de cinco mil visitas completadas enquanto eu estava ausente.
Escrito por Jerônimo Jardim às 10h45
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