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NUMA ESQUINA DA NOITE

Quarta-feira, vinte e dois de agosto de dois mil e sete, vinte e três horas e trinta minutos, esquina da Cristóvão Colombo com a Dr. Timóteo, bem perto de casa. Eu e Clair tínhamos deixado o carro na garagem, recém chegados de show inesquecível no Teatro São Pedro, com Geraldo Flach, Renato Borghetti, Yamandú Costa e Frank Solari. Declinamos do convite da Ângela Flach. Não fomos jantar com os artistas do espetáculo. Ficaria tarde. Costumamos acordar às cinco horas para eu deixar a Clair na Farrapos, onde ela toma ônibus para Gravataí para cumprir sua jornada de veterinária da Secretaria de Saúde. Pretendíamos conhecer o Calamares, provar seus frutos do mar. Ali, tão perto de casa, não nos atrasaríamos. Subitamente fomos abordados por um rapaz alto, magro, branco, bem vestido, de uns vinte e poucos anos. Cortou nosso caminho. Chegou muito próximo. Suplicava por ajuda em dinheiro. Testa franzida. Dizia que estava muito necessitado. Era muito sincero ou excelente ator. Notei logo que não estava armado. Mandei que se afastasse. Quando se afastou, eu disse a ele, disposto a lutar, que não lhe daria dinheiro, que não se aproximasse. Ele atendeu. Desistimos do trajeto. Voltamos atrás. Ele falou então, voz chorosa, andando à distância mas na mesma direção, que não precisávamos voltar. Sentou no cordão da calçada, quase na esquina, perto da lixeira, cabeça entre os joelhos, rosto entre as mãos. Fomos para a Churrascaria Santo Antônio, quase na frente do nosso prédio. Comemos em relativo silêncio. Clair cogitou de que o rapaz, ao dizer que seguíssemos, teria percebido que nos intimidara, prejudicara nosso programa. Consciência pesada, eu pensava no desemprego convertido em mero percentual para os governantes. Pensava nos momentos mais difíceis da minha vida. A diferença é que eu morreria (para não roubar, quem sabe matar?) , mas jamais pediria esmolas. Será? Ele tinha idade para ser meu filho. Levantei várias hipóteses para ele estar ali, naquela humilhante situação. Pensei em sair do restaurante, encontrá-lo naquela esquina tão próxima (e tão distante), aliviar sua carência. Nada fiz. Se ele ainda estivesse lá, como interpretaria meu retorno? Dormi pouco à noite. Ainda não me recuperei. Nem sei se me recuperarei de todo um dia. Minha geração vive com a crise de consciência de não ter conseguido resolver os problemas sociais.           



Escrito por Jerônimo Jardim às 15h43
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AS BOCAS DA TOCA

Criminosos um dia foram crianças. Querem premissa mais óbvia? Todos nós, os honestos e os que se consideram honestos; os que ainda não foram flagrados em falcatruas e os que nunca o serão porque não as cometem ou precisam cometer; os que foram criados em lares onde nunca faltou nada ou faltou pouco; ou em lares carentes de tudo; todos, indistintamente, tivemos nosso tempo de inocente dependência daqueles que teriam por obrigação dar-nos meios para um sadio desenvolvimento; cumpriram-na ou não; por querer ou não; por poder ou não poder. O Estado falhou e continua a falhar por não proporcionar emprego, vida digna a milhares de adultos que figuram na linha de frente quanto às obrigações de alimentar, dar saúde e educação, evitar a formação de novos infratores. Desnecessário falar em amor e carinho, também incluídos entre os gêneros de primeira necessidade para quem chegou nesse mundo sem pedir. Menos carentes dessa cesta básica de utilidades existissem, menor seria a premência de tomarem à força o que lhes falta. A gana de sobreviver é mais forte; tanto que a lei isenta de punição aquele que comete assassinato em legítima defesa ou em estado de necessidade. De forma honesta ou desonesta, saímos às ruas diariamente para tomar de mãos alheias as porções reclamadas pelas bocas da toca; muitas vezes, mais do que o necessário. Os homens reunidos sob uma bandeira não fazem diferente; se não têm petróleo, tomam de quem tem, por bem ou por mal. É guerra, guerrilha, “Amores Perros”! Agora me vêm de Brasília com mais Leis e Planos que só fazem acirrar a ira das hostes marginalizadas! Colocar como prioridade entre as ações de segurança pública a construção de presídios com ensino profissionalizante para menores infratores é tentar curar a ferida em vez de evitar o ato que a produziu; é tentar extrair a bala depois que o tiro foi disparado. Tenho convicção de que não é utópica, como ação preventiva, a construção em bairros, vilas, favelas, zonas rurais, de escolas de horário integral que forneçam educação, cultura, esportes, assistência médica, lazer e refeições. Até os pais que o Estado condenou ao crime por descaso se sentiriam gratos se, quem deles não cuidou, se redimisse ao zelar por suas crianças. Menos uma razão de ódio. Pelo mal já produzido, precisamos de mais polícia, hoje? Sim. Faltam presídios, hoje? Sim. Mas carecemos, antes das prioridades eleitas pelos governantes, de ações de cidadania, que diminuam a necessidade de tantos presídios no futuro.  

Escrito por Jerônimo Jardim às 15h37
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BABEL E AMORES BRUTOS

Narrativas originais, espelhos sensíveis da luta cruel dos bichinhos-homens pra levar mais farelo pra toca. Recomendo, mas não pra de noite, como assisti. Leva-se muito tempo pra conseguir dormir depois, tal o volume de reflexões que os dois filmes suscitam.

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h20
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