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ATÉ SEGUNDA-FEIRA, 06.8.2007
Desejo a todos um ótimo final de semana.
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h40
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BICO FINO
Quando será que sairão de moda esses sapatos de matar barata em canto de parede e dar calo nos dedinhos das prendas?
Escrito por Jerônimo Jardim às 18h16
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SERAFIM DE SERAFIM - PUBLICAÇÃO HOJE DAS ÚLTIMAS CINCO PÁGINAS DO CAPÍTULO "O CELEIRO"
Para quem está acompanhando, como Clair e eu temos viagem aérea marcada para o Rio, onde pretendemos permanecer do meio até o final desta semana (o que representa perigo em dobro, he, he!), e como não gostaria de colocar em risco a publicação completa, aviso que publiquei hoje as 5 páginas finais. Portanto, para não perder o fio da história, é preciso retroceder no blogue à PÁGINA 62 da novela.
"O RESTO É SILÊNCIO"!
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h48
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SERAFIM DE SERAFIM - XXIV - PAG. 66 (FINAL)
— Falta te pôr a par de outra novidade. Ninguém até agora contou a coisa muito bem. Só a Clara acha tudo lógico: a espada de Deus se vingando das ofensas! — Taurino fez pequena pausa. — Eu não gostava do cara, mas o destino armou pra ele uma baita cilada. Pra ele e pros cupinchas dele. Que descansem em paz... No primeiro do ano o Prefeito, o Delegado, o Presidente da Câmara e o outro safado, o Líder da Situação, voltavam da estância do Prefeito... Tinham ido festejar a passagem do ano longe do povo. Deve ter chovido de uma nuvem que passou somente pela estância dele... Verdade que tem muitas léguas... Fez tempo bom na cidade e no resto do Município... Pelo jeito como encontraram os corpos, talvez tenham decidido consertar um aramado, evitar que o gado saísse pro corredor... Bem, o que importa e que tomaram um raio no meio dos cornos. Não sobrou nenhum pra contar a história. Podes imaginar o que a Clara disse... Sempre atribuiu a eles o assassinato de Chico...
Taurino deu por finda a narrativa. Ninguém se dispôs a tecer comentário.
Mantinham-se acesos os faróis da caminhonete.
Temendo que ela ficasse sem bateria, Jovito se lembrou de desligá-los. Antes que o fizesse, Mariana apareceu no portão, com o filho no colo.
Aproximou-se, olhos fitos no céu.
Novamente olharam para o cometa.
— Quando retornar, outros serão os atores!
— Outras serão as loucuras. — Taurino acresceu à reflexão de Alex.
— Outros serão os sonhos. — Silvério arrematou.
Mariana baixou os olhos do firmamento para a criança e, surpreendentemente, rompeu o silêncio de vinte anos:
— Serafim.
F I M
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h39
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SERAFIM DE SERAFIM - XXIV - PAG. 65 (CONTINUAÇÃO)
— Então é por isso que os turistas estão de volta? — Silvério perguntou, animado.
Obteve entusiástica confirmação.
— Pra nós, os machos dessa cidade, é que o problema ficou sério. Vamos ter que voltar ao chinaredo. A faixa etária das turistas mudou. — Disse Alex, provocando riso.
— Eu discordo. Vamos ter a mulherada daqui. Estão bem assanhadas. Já provaram o gostinho. — Jovito atalhou, despertando novas risadas.
— Seja como for, o certo é que com as turistas de agora não dá... Se recolhem cedo, cansadas de se refestelarem na lama. — Insistiu Alex.
Continuavam a rir.
Eu sempre disse que é a ciência que nos dá as soluções. Um viva pra Universidade! — Silvério alteou demasiadamente a voz, fazendo o bebê chorar pela primeira vez. — Até que enfim esse guri chora. Isso é que é botar respeito. — Comentou, bem-humorado.
Mariana acalmou a criança, oferecendo-lhe o peito.
— É... Mas continuamos sem saber a razão de as barrigas terem ficado duas décadas sem pegar cria. — Observou Jovito, depois que o menino silenciou.
— Se vocês se lembram, eu sempre disse que nem tudo precisa ser explicado. — Taurino tentou encerrar o assunto, com sucesso.
Jovito buscou na caminhonete uma garrafa de champanha que trouxera numa caixa de isopor. Abriram sem estardalhaço, para a criança não se assustar novamente. Tomaram no gargalo, passando de mão em mão, como cuia de mate.
Silvério contou que o fuca enguiçara. Taurino ficou de trazer o Opala, aconselhando que não retornassem logo à cidade, viajassem por uns tempos, pois Mariana ainda corria o risco de ser assediada pelo povo da Vila, ansioso por festejá-la e ao menino.
— Me lembrei que esse fuquinha gosta de implicar contigo. Lembras de quando chegaste? Me empresta a chave.
De posse da chave, Taurino entrou no fuca. O carro pegou. Os faróis acenderam. Repetiu várias vezes a operação.
— Mas que falhou, falhou, senão não teríamos ficado todos esses dias passando trabalho aqui nessa espelunca. — Silvério se sentiu culpado por expor Mariana e a criança ao desconforto do celeiro. Teve a impressão de que aquela cena já ocorrera, o que costumava lhe acontecer quando estava muito estressado.
Saíram à rua para tomar o resto do champanha.
O céu estava estrelado. Taurino quis saber o nome do menino. Silvério disse que ainda não tinham escolhido.
Passaram a amenidades. Alex comentou sobre os acontecimentos do último festival de Uruguaiana. Taurino disse que as garrafas e pedras jogadas ao palco se justificavam porque os músicos urbanos não tinham nada que se meter no festival da gauchada, usar sintetizadores em vez de gaita, opinião não compartilhada por Alex, que achava que o conservadorismo acabaria por condenar os festivais à mesmice.
— O novo sempre vem, já cantou a Elis, como o menino que está ali dentro. — Disse convicto, apontando para o celeiro.
— O pior é que o tema da música vaiada é aquele frustrante cometa. — Jovito comentou, olhando para o céu.
Localizaram o Halley, que não correspondia ao espetáculo grandioso que os astrônomos esperavam.
— Dizem que o cantor, acossado pelo público, que queria a devolução do troféu, fugiu fantasiado de prenda. — Todos riram. — Ao menos tinha que ter agido como a altivez do Gaudêncio... daquela música que o Leopoldo Rassier canta, do Marco Aurélio Vasconcellos e do Luiz Coronel... partir pra briga...
— Pra quê, Touro Velho? Ninguém me convenceu ainda de que há outra vida... O “gaucho” mítico do conto de Borges, que prefere morrer numa peleia a morrer na cama de um hospital, já era. Aliás, nem sei se existiu. — Disse Silvério, lembrando-se de sua própria fuga e dúvidas a respeito da vida eterna. — No fundo, essa coisa toda em Uruguaiana, é só disputa de espaço... Somos sempre bichinhos lutando pra levar mais farelo pra toca.
Os amigos ainda não haviam contado todas as ocorrências daqueles dias.
(CONTINUA)
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h36
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SERAFIM DE SERAFIM - XXIV - PAG. 64 (CONTINUAÇÃO)
Como até sal os funcionários do hotel tinham posto junto aos mantimentos, Silvério se animou a sacrificar um cordeiro, que entregou sem resistência a jugular ao fio pouco afiado do canivete. Carneou com dificuldade. Enterrou as tripas no terreno, aos fundos. Descuidado da segurança, acendeu fogo durante a noite. Em espetos toscamente esculpidos, assou toda a carne.
Ao se esgotarem os mantimentos, sobrava-lhes ainda um pouco de assado, que comiam sem aquecer para não repetir a temerária façanha de fazer fumaça. Silvério decidiu só acender fogo novamente se matasse outro cordeiro. Incautamente, os animais continuavam a dormir no celeiro.
Na sexta noite posterior ao espetáculo dos fogos de artifício — tinham passado a contar os dias —, sobressaltados, ouviram o som isolado do motor de um carro chegando. Faróis alumiaram o celeiro. Aguardaram em silêncio. Por sorte o menino nunca havia chorado. Não iria berrar naquela hora inoportuna. Ouviram o motor ser desligado. Os faróis continuaram acesos. Três vultos se aproximaram, seguindo o facho de luz. Silvério sentiu o coração na garganta. Pegou um porrete disposto a defender até a morte a mulher e o filho que não acarinhara uma única vez. Num impulso, correu com passos leves até eles e beijou-os.
Voltou ao portão e assumiu posição de defesa.
— Zeca, estás aí? Somos nós. Não se assustem. — Silvério reconheceu a voz de Taurino, única pessoa que o chamava por aquele apelido sem nexo.
Abriu o portão. Taurino vinha acompanhado de Alex e Jovito. Abraçaram-se. Silvério convidou-os a entrar. Ligou a lanterna para indicar onde estavam Mariana e o filho. Traziam fraldas, chupetas e chocalhos, até roupinhas azuis, que entregaram à mãe. O menino acompanhava-os sob a escassa luz com olhos interessados.
— Como souberam que estávamos aqui? E os presentes? — Silvério perguntou.
— De certeza, não sabíamos. Clara sonhou com o parto da Santinha aqui no celeiro. Viemos por desencargo de consciência. Felizmente deu certo. — Informou Taurino.
— Alguém deve ter visto fumaça no dia em que fiz churrasco. — Atalhou Silvério.
— Ninguém falou nisso. — Disse Jovito.
— Ela também disse que era um menino e que o menino era...
— Nem precisas ir adiante. — Silvério interrompeu Jovito.— Imagino até que ponto foi com suas predições... — Como está Francisco? — Perguntou, mudando o rumo da conversa.
— Por enquanto, vai comandando o barco... Por sinal, não afunda mais. — Respondeu Taurino.
Depois contou dos dias de angústia, dos hotéis, do acampamento, da cidade se esvaziando, de Clara conseguindo controlar os arroubos dos crentes.
— Faltavam dois dias para a virada do ano quando Clara anunciou no culto que diversas crentes tinham engravidado. Algumas mulheres da zona central, que tinham se relacionado com turistas, perderam o medo e a vergonha e contaram que também estavam grávidas.
— Mas isso só agravaria a situação. Não entendi ainda. Eu vi o povo indo embora. É verdade que agora tenho visto movimento também na direção da cidade...
Taurino cortou o raciocínio de Silvério:
— Zeca, as coisas aconteceram num ritmo incrível, desde a noite do dia vinte e quatro. No dia trinta, saiu em destaque nos jornais de Porto Alegre que havia muitas mulheres grávidas, não só entre as turistas que tinham se hospedado em Serafim buscando a esterilidade, mas entre as próprias serafinenses, Mariana citada como exemplo. Mas publicaram também que a universidade alemã, que mandara profissionais pesquisar as razões da esterilidade, não encontrara nada que a justificasse, mas descobrira propriedades medicinais no Arroio do Padre só comparáveis às das mais famosas fontes do mundo.
(CONTINUA)
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h34
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SERAFIM DE SERAFIM - XXIV - PAG. 63 (CONTINUAÇÃO)
Inspirou o ar da campanha aliviado. Tudo correra bem. Nada lhes faltara. Até a inclinação do terreno para empurrar o carro e escondê-lo fora providencial. Apalpou-se, novamente procurando cigarros, que não tinha e nem deveria ter. Encheu novamente os pulmões do frescor daquele início de madrugada. Depois de alguns minutos de repouso, sentiu sede. Voltou ao interior do celeiro. Bebeu água diretamente da garrafa. Ficou montando guarda à beira da porta com um pedaço de pau. Teve a impressão de ouvir galope de cavalos na estrada. Apurou o ouvido. E se fossem os cavaleiros da visão? Fora uma visão? Alarme falso. Continuou atento, esforçando-se para vencer o sono. Nada mais aconteceu na madrugada, afora os pios isolados das corujas e as cochiladas resistidas.
O dia encontrou-o acordado, a mente em branco, como se nela não houvesse pensamentos que merecessem se consolidar ou como se temesse provocá-los.
— Qual o nome que pretendes pôr no menino? — Silvério indagou, sonolento, alcançando caderno e caneta à mulher, também desperta. Ainda não tinham escolhido o nome do guri, apesar da imensa lista analisada nos meses de espera.
Ela escreveu:
— Jesus.
— Era só o que me faltava, tu te convenceres de que és mesmo uma santa... Pior, Nossa Senhora... Até porque eu não tenho vocação pra José... que nem era pai do menino, segundo as Escrituras, inseminado no útero da mulher por um bico de pomba porque Deus não se dignaria a trepar com uma terráquea judia. Eu, hein?! Vai ficar sem nome, porque com esse eu não concordo. — Afastou-se indignado, vingando-se da possível brincadeira com o discurso de cunho sacrílego.
Dia após dia, de chuva ou de sol, Silvério temia que o celeiro fosse invadido e incendiado como o templo de Chico Manivela. Recordava a fuga do Natal, em destaque a visão dos quatro cavaleiros do mural da Tempo de Redenção. Só podia ser coisa do cansaço. A imagem teimava em ocupar o pensamento, por mais que tentasse afugentá-la.
Perderam-se dos dias.
Silvério mexeu sem resultados na fiação elétrica do carro na esperança de que a pane fosse semelhante àquela que o levara a Serafim. Virou a chave diversas vezes. O fuca novamente poderia ter desligado sem aparente razão. Não obteve sucesso.
Percebeu, na estrada, reduzir-se o movimento de carros, até se tornar quase nulo na direção de Serafim.
Divagava enquanto montava guarda.
Alguém precisava defender o direcionamento de recursos do orçamento para o asfaltamento da estrada, se bem que tal providência seria dispensável agora, a não ser que o Prefeito resolvesse investir em favor dos próprios serafinenses. Após a notícia da gravidez de Mariana, tudo levava a crer, não haveria mais turistas buscando a anticonceptividade natural.
Observava a estrada por uma fresta mais larga, evitando por todos os modos dar sinal de que ali estivessem refugiados. Passados alguns dias, percebeu sensível aumento do trânsito de carros no sentido de Serafim.
Mariana recuperara as forças. Emagrecera, quase dando a perceber as antigas formas do corpo. Pouco se comunicavam. Ela guardara o caderno. Silvério nunca mais o vira. Flutuava entre eles um rancor que partia dele sem razão que quisesse verbalizar.
Quando não estava a alimentar ou ninar o menino, andando de parede a parede, Mariana passava o tempo a varrer o celeiro com uma vassoura improvisada. Silvério deixava aberta a porta dos fundos para renovação do ar. À noite, alheias à presença deles, as ovelhas calmamente se recolhiam por ela ao celeiro.
Souberam da passagem de ano pelos fogos de artifício que iluminaram o céu num ponto indicativo de que os festejos aconteciam em Serafim, fato estranhável à luz dos acontecimentos recentes.
(CONTINUA)
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h30
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SERAFIM DE SERAFIM - XXIV - PAG. 62 - O CELEIRO (CONTINUAÇÃO)
XXIV — O CELEIRO
Não queriam acreditar quando tudo escureceu. A parte elétrica do fuca desligara. Não conseguiam ver nada em torno, as retinas desabituadas do breu da noite. Silvério torceu para que a antiga lanterna, que costumava guardar no porta-luvas, sempre precavido para eventualidades, nele estivesse. Encontrou-a.
Desceu do carro. Focou em torno. A vinte metros viu o celeiro abandonado que havia notado em passagens anteriores, única instalação à margem da estrada de Serafim. Tentou acalmar Mariana, que gemia. Poupava a carga da bateria temendo que fosse pouca. Ela gesticulava dando a entender que queria o caderno para escrever algo. Entregou-o, acendendo a lanterna para que ela escrevesse o que pretendia. Se achava a situação caótica, agora não sabia como classificá-la. Ela escrevera:
— Vou ganhar o bebê.
Procedimento número um: evitar o pânico. Número dois: considerar a situação. Carro estragado. Havia somente ele para cuidar de uma mulher prestes a ganhar um bebê fora de tempo. A favor, havia comida, água e refrigerantes no porta-malas. E um abrigo para se ocultarem. A situação era complicada, mas não calamitosa.
Entregou a lanterna a Mariana para que ela iluminasse o caminho. Continuava a gemer, sinalizando que as dores se agravavam e se reduzia o espaço de tempo entre as contrações. Aproveitando o pequeno e providencial declive da estrada ao celeiro, quase esguichando suor, Silvério empurrou o carro até sumi-lo em seu interior. Teve dificuldades para movimentar o portão de dobradiças enferrujadas. Mas conseguiu fechá-lo. Grato ao acaso que oferecia soluções ao lado das circunstâncias preocupantes, colocando a lanterna sobre a cabina do carro, acomodou a mulher em trabalho de parto num monte de pasto seco, apenas emparelhando-o.
Sentiu um arrepio ao perceber olhos na escuridão, acompanhando seus movimentos. Dirigiu-lhes a lanterna. Meia dúzia de ovelhas, encostadas umas nas outras, próximas de uma carroça desmontada, ocupavam um dos cantos do celeiro. Alívio.
Explorando mais em torno, encontrou latas, pedras e pedaços de madeira. Improvisou uma chaleira e uma trempe. Ateou fogo na palha seca e na lenha rapidamente juntada. Deixara novamente de fumar, mas não de carregar isqueiro, mantendo na lembrança a memória do vício. Encheu da água que trouxera a lata mais limpa entre as encontradas. Pegou uma toalha da bagagem.
Esperou a água esquentar contando as contrações e respirando profundamente no ritmo da mulher, solidarizando-se com suas dores, estimulando-a.
À luz tênue da lanterna posta no chão, ajudou a trazer ao mundo um robusto bebê de cabelos negros e olhos azuis, que, sem chorar, olhava em torno como se buscasse reconhecer pessoas e coisas.
Silvério cortou o cordão umbilical com o canivete do chaveiro e amarrou-o como pôde. Encheu novamente a lata de água. Amornou-a com a que fervia na trempe. Banhou o menino, livrando-o dos resíduos de placenta; tudo sem nojo ou emoção. Somente agia, sem sequer pensar que ajudara uma criança a vir ao mundo, sem qualquer ponderação a respeito de como conseguira executar tantos procedimentos sem prévio preparo.
Entregou o fruto à mãe. Iluminou-os. Ela sorriu, cerrando os olhos, ofuscada. Acomodou o menino para a primeira mamada. O guri buscou um seio. Abocanhou o mamilo e sugou-o com avidez. Os três pareciam ter ensaiado aquela cena, idéia que veio à mente de Silvério naquele momento.
— Vou desligar a lanterna. Precisamos habituar os olhos ao ambiente. Só vamos acendê-la se for necessário. Vamos economizar bateria e evitar que alguém veja luz pelas frestas. — Silvério deixou mãe e filho no escuro, em sua íntima troca ancestral, saindo à rua para relaxar.
(CONTINUA AMANHÃ).
Escrito por Jerônimo Jardim às 04h57
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SERAFIM DE SERAFIM - XXIII - PAG. 61 (CONTINUAÇÃO)
Mariana demorou a se largar dos braços do pai. Silvério sentiu a garganta se apertar, vendo-o vivo, enxergando-o morto. Diabo de vida, ter que administrar perdas ou perder-se, pensou. Adorava a mãe. Durante o tempo passado em Serafim pouco se lembrara dela. Nada a fazer. Francisco estava ali e já não estava. Precisavam olhar em frente e acelerar.
Conseguiram fugir pelo portão desativado.
Quando cruzavam pela Vinte de Setembro, Silvério viu quatro cavaleiros de preto em cavalos brancos, a galope no rumo do hotel. Perguntou a Mariana se ela os vira. Ela negou. Também não viu Dedé abanando-lhes sob a fraca lâmpada do portão do cemitério.
(CONTINUA AMANHÃ. FALTAM SOMENTE 5 PÁGINAS).
Escrito por Jerônimo Jardim às 16h10
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