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SERAFIM DE SERAFIM - XXIII - PAG. 60 (CONTINUAÇÃO)
— Ela está grávida, Francisco. – Josefa repetia, choramingando.
— A Josefa voltou a “hablar”, Silvério! Que “hermoso”! E o que “habla”, é verdade? — Perguntou.
Silvério confirmou num gesto.
— Pois então “tenemos” um problema maior do que “mi muerte”! “Tengo ahora una mujer que habla e una hija gravida, e no puedo quedarme heliz por eso, la puta madre que me pario!”
A apreensão do futuro avô ampliou para Silvério a consciência da gravidade, pelo menos, suposta gravidade da situação. Agora não enfrentava um pode ser, mas uma realidade. Foi ao próprio apartamento. Encontrou Mariana em prantos, enrolada na toalha de banho, estirada na cama. Ela já havia escrito no caderno que a mãe a tinha visto nua no banheiro, pois descuidara de fechar a porta. Apesar do corpo alterado pela obesidade, a mãe percebera a gravidez.
Enxugou-lhe as lágrimas com uma ponta da toalha. Quando ela se acalmou, alcançou-lhe as roupas, que antes ela já havia separado. Em quinze minutos estavam na sala do apartamento de Francisco, onde Josefa pusera com antecedência a mesa para a ceia.
Rapidamente se espalhou o boato. Em pouco mais de vinte minutos Francisco era avisado pelos porteiros da chegada de Clara, Cornélio, Taurino, Jovito e Alex. Silvério pediu ao sogro que os recebesse.
— É uma situação de exceção, “mujer”! - Disse Francisco, contrariando Josefa.
Josefa acabou concordando, mas buscou acomodação onde pudesse ficar mais distante da visitante indesejada.
Os amigos não demoraram a chegar.
— Nem sei o que falar. — Disse Taurino, abraçando Silvério demoradamente.
— Nada vai impedir que eu erga um brinde a meu neto.
Francisco distribuiu taças, estourou o champanha e serviu a todos.
— Cumpra-se a profecia. — Disse Clara.
— Seja feita a vontade de Deus. — Cornélio replicou.
Francisco atendeu ligação da portaria.
— Os guardas estão com dificuldade para controlar as pessoas que “quieren” saber da gravidez de Mariana. Muitos vieram do acampamento. Tem uns querendo cerrar “las cuentas”, amontoados no balcão... Dizem que está um tumulto. — Informou. Virou-se para Clara. — E os teus fiéis estão lá de novo gritando “Santinha, Santinha”, como nos aniversários da “chica”...
Taurino disse que não via outro jeito. Silvério e Mariana tinham que se afastar da cidade até as coisas se acalmarem.
— Eu tenho o meu gado. Mas tem gente meio “mala cabeza”, não é Castelhano? Não vão morrer de alegria vendo a vaca ir pro brejo. Nunca se sabe o que pode sair da cartola desses cérebros de galinha. — Comentou, sob pesado silêncio.
— No mínimo precisam se livrar do assédio do povo — aconselhou Jovito.
De acordo com os amigos, não era por outra razão que tinham tentado esconder a gravidez até então, Silvério lembrou da porteira lateral usada como entrada de caminhões quando o hotel estava em obras. Sugeriu que poderiam sair da cidade usando o velho fuca, pois chamaria menos atenção do que o Opala, antes perguntando se o mantinham em uso, o que Francisco confirmou. Pediu ao sogro que providenciasse uma caixa de refrigerantes, muita água e enlatados, sem saber o porquê, pois não pretendia se esconder no mato, mas rumar para a Capital.
Tudo providenciado, às pressas como a situação exigia, Silvério e Mariana se despediram, cientes de que poderia ser a última vez que viam Francisco.
— Se “eso es” hora do Senhor me chamar! (CONTINUA).
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h07
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NELSON COELHO DE CASTRO E MONICA TOMASI
De entusiasmar a apresentação de Nelson Coelho de Castro e Mônica Tomasi. Grandes sambas, ótimo som, ótima luz, músicos virtuosos, casa cheia, platéia com muitos jovens, no Teatro Túlio Piva da República, ali na Cidade Baixa (Festival de Inverno de Porto Alegre, promovido pela Secretaria de Cultura do Município). Faço minhas as palavras de alguém no meio do show: "Essa é a verdadeira música brasileira!". Incrível como, a despeito do estragado gosto das massas e a conivência da mídia, o talento continua atuante. Parabéns Secretário Sérgius e Henrique Mann. Valeu e continuará valendo a teimosia, Nelson e Mônica!
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h44
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SERAFIM DE SERAFIM - XXIII - PAG. 59 (CONTINUAÇÃO)
Escolheram a capital portuguesa para se fixar. Bastaria seguirem mantendo discrição. Até então tinham sido bem sucedidos em sua estratégia nas outras grandes metrópoles. Pretendiam não mais se hospedar em hotel, onde maiores as possibilidades de azar.
— Turistas só circulam onde turistas costumam circular. — Silvério disse a Mariana, enquanto faziam as malas.
Viajaram sem definição de onde iriam morar. E o acaso fez de novo das suas. A solução surgiu no céu, em pleno vôo. Um casal de portugueses não descansou enquanto Silvério não deu trela. Mariana usou o caderno de conversação para se entender com a mulher. O trânsito do caderno divertiu-os, ajudando o tempo a passar. O casal forneceu-lhes o endereço de uma parenta que alugava cômodos.
A vida corria sem percalços nas acomodações recomendadas, quando um telegrama roubou-lhes a tranqüilidade.
— Francisco muito doente. Mas teve alta. Josefa. — Mariana lia e relia o telegrama da mãe. Silvério a observava, silenciosamente. O que antes era um estorvo, agora parecia de encomenda. Roupas de baixo ajustadas e de cima bem folgadas poderiam dissimular a gravidez que ia pelo sétimo mês segundo as contas de Silvério. Pensou na cavalhada sob chicote, corpo a corpo, cabeça com cabeça, entrando na reta de chegada. Primeiro ligaria para Taurino para saber o real sentido da informação.
Câncer. Estágio terminal. Silvério poupou Mariana da notícia, embora certo de que ela suspeitava da gravidade do quadro e não queria comentá-lo, já que não perguntou sobre o telefonema, o que seria de esperar.
Se tivessem sorte com passagens e conexões, partindo no dia seguinte, estariam em Serafim na véspera de Natal. A hospedeira não acreditou quando Silvério disse que comprara as duas últimas passagens disponíveis.
Telefonou a Taurino pedindo que avisasse os sogros do retorno. Taurino retornou o telefonema comunicando que um motorista estaria com o Opala no aeroporto. As horas passaram lentamente no avião e, mais ainda, na viagem de carro.
Anoitecia quando entraram na rua enfeitada que levava ao Grande Hotel e puderam ver, de cruzada, a exuberante decoração natalina da Vinte de Setembro, movimentada pelos compradores de última hora.
— Não sei por que não decoraram a rua do hotel com o mesmo esmero. — Silvério criticou. Todavia fora consultado e não opinara sobre a decoração. Arrependeu-se da crítica que atingia o sogro, ao imediato “mea culpa”.
— “Estoy malo”. — Sussurrou Francisco a Silvério na recepção.
Silvério pensou que se Mariana pudesse ceder ao pai um terço da gordura acumulada naqueles meses, chegariam ao peso normal de cada um. A pele do bugre perdera o viço. Tinha as pálpebras caídas como as de um pássaro ferido. Enquanto mãe e filha gesticulavam, parecendo a Silvério que Mariana era recriminada pelo descuido com o peso, Francisco fez questão de levar Silvério ao escritório da diretoria, instalado no último piso do hotel, próximo ao apartamento de ambos, para prestar contas, o que levou poucos minutos, já que tudo parecia em ordem.
— O problema aqui “es el encuentro con la chica fea”. Não vou mais que dois meses, tchê. — Francisco, em particular, disse com franqueza a Silvério.
Enquanto não reportou os exames e a decisão dos médicos da Capital de não extirparem o tumor, Silvério mantinha-se como ouvinte, em cauteloso silêncio. Não se lembrara de perguntar a Taurino até que ponto o sogro sabia da doença. Poderia estar tentando colher dele o que não soubesse. Não era o caso. Estava ciente de tudo. Disse ter recusado sugestão de tratamento no exterior, que não iria gastar dinheiro em vão nem o pouco de vida que lhe restava.
— “Hoy quiero” a ceia. “La muerte tendrá” que esperar. — Disse conformado, troçando da desdita, usando mais palavras em espanhol do que de costume.
— Minha filha está grávida! Minha filha está grávida! Minha filha está grávida!
Ao ouvirem a gritaria, foram à porta. Silvério viu a sogra correndo para as escadas. Abalou atrás dela na tentativa de impedir que chegasse à portaria. Ela cutucava as pessoas que circulavam nos corredores anunciando a novidade. Silvério sacudiu-a até que ela caísse em si. Levou-a pelo braço ao elevador. Conduziu-a ao apartamento onde Francisco já a esperava. Ele acolheu a esposa com carinho.
(CONTINUA AMANHÃ. FALTAM 7 PÁGINAS PARA O FINAL).
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h31
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SERAFIM DE SERAFIM - XXIII - PAG. 58 (CONTINUAÇÃO)
XXIII — O EXÍLIO
Acalentando o fruto que amadurecia em seu nicho de alheamento, Silvério e Mariana passaram os primeiros meses de exílio voluntário sem o conforto dos melhores hotéis, que até poderiam pagar, por conta dos promissores dividendos da Novo Tempo. Pulavam de uma Capital para outra. Catalogavam nomes de artistas, políticos, cientistas, na tentativa de encontrar o que dariam à criança, nunca chegando a um acordo.
Evitavam locais com maior concentração de turistas. Poderiam ensejar inoportuno encontro com alguém que os conhecesse. Silvério temia as traquinices da sorte, embora Mariana tivesse engordado tanto que, na opinião dele, ninguém seria capaz de distinguir a gravidez. Computava entre os ganhos da viagem o carinho e o respeito mútuo conquistados na relação a dois e, como perda, isoladamente, o desinteresse sexual de ambos. A gordura e a gravidez despiram a antes bela mulher dos atrativos que o tinham conquistado. E ela não abolia os chocolates da dieta. Não adiantava reclamar. Não explicitava isso, mas parecia gostar de estar diferente.
Diante da data presumida da concepção, o último ginecologista consultado, em Roma, estranhou o adiantado desenvolvimento do bebê — menino como Mariana adivinhara —, insistindo que estavam enganados, que refizessem as contas.
— Antes bem desenvolvido. — Silvério comentou, contraditando indiretamente o parecer. Tinha como marco a data do desvirginamento.
Também correram consultórios, em cada lugar que chegavam, investigando as causas da mudez e a possibilidade de reversão do quadro. Os especialistas nada constataram de anormal quanto aos órgãos necessários à fala. Mariana estava aparelhada para falar. Não houve diagnóstico ou prognóstico conclusivo em nenhum sentido. O último médico recomendou exercícios. Mariana aderiu por poucos dias.
Silvério não tinha a menor idéia do que fariam no futuro próximo. Não havia como voltarem a Serafim, por enquanto. Sentia-os como viajantes no meio de deserto desconhecido que, ao acharem um oásis, não sabem se encontrarão o próximo. Matavam a sede a cada dia sem saber se haveria como saciá-la mais adiante.
Silvério se mantinha informado por Francisco do que ocorria em Serafim. Fornecia-lhe, a cada mudança, endereço e telefone da nova hospedaria. Solicitava que não os passasse adiante, nem mesmo aos amigos, com a desculpa de que não queria ser importunado. Por meio dos freqüentes informes souberam da procissão encabeçada por Clara ao túmulo do Grande Pastor — assim ela passara a chamar o falecido Chico — na data que assinalava sua morte. Francisco o tranqüilizava quanto aos negócios, informando a lotação plena das instalações do Grande Hotel, do Novo Tempo e do Hotel Central, que tinha sofrido algumas reformas sob a administração de Josefa. Contou dos bem sucedidos desfiles em sete e em vinte de setembro. Os serafinenses também tinham retomado os festejos da Semana da Pátria. Francisco informou ainda que o comércio local adornaria as ruas principais da cidade com bolas e luzes no Natal. Silvério liberou Francisco para negociar com o Prefeito a decoração por conta da empresa, a seu gosto, da rua que ia dar na Novo Tempo. A situação permanecia estável em sua indefinição, o que levou Silvério a considerar que talvez não regressassem a tempo para as festas de final de ano.
Após meses de vida nômade, Silvério e Mariana combinaram se fixar em Portugal. Dar rédeas ao tempo era a única opção que se oferecia, no entender de ambos.
— Bem que gostaria de acreditar numa solução mágica. — Silvério disse a Mariana num dia em que ela escreveu sobre a vontade de voltar para casa, embora consciente do tumulto, da falência dos negócios e, sabe-se mais o quê, a descoberta da gravidez poderia acarretar.
O Acaso corria como azarão a espera do momento da atropelada final, enquanto ponteava a favorita Incerteza. Sempre preferira apostar nos azarões dos páreos, sem olhar filiações ou retrospectos. Muitas vezes saíra do Cristal com a carteira recheada. Novamente apostava no competidor desdenhado. Faltam quatrocentos, trezentos, cem metros; logo adiante a linha de chegada e a definição; pules na mão, sem sofrer, por esporte.
(CONTINUA AMANHÃ. Faltam somente 8 páginas para o final).
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h29
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SERAFIM DE SERAFIM - XXII - PAG. 57 (CONTINUAÇÃO)
— Vamos à Europa curtir a gestação do nosso filho e consultar um especialista quanto a tua mudez. — Emergiu dos pensamentos.
Mariana abraçou-o com ternura. Escreveu:
— Obrigada. Fico feliz. Tive medo de que me pedisses para abortar o menino.
— Não pensei nisso nunca. Mas porque achas que é um menino? — Silvério perguntou.
— Eu não acho, eu sei. — Ela garantiu, enchendo a página ao escrever “Eu sei”. — Eu te amo. Sempre acredites em mim. Que Deus me perdoe, mas nem o amor por Ele é maior. — Acrescentou.
No dia seguinte Cornélio apareceu no escritório, o que costumava fazer seguidamente para se inteirar dos negócios, em defesa dos interesses da “Santa Madre Igreja”; e porque se habituara aos convites de hóspedes para almoço no galpão do acampamento.
Talvez naquela manhã tivesse como principal intenção a descoberta do que fariam, Silvério imaginou.
Contou ao padre da decisão sobre a viagem e de sua substituição pelo sogro na direção dos negócios.
— É muito justo procurar solução para o mal de sua esposa. O Grande Hotel ficará em boas mãos. — Disse Cornélio, elogiando Francisco, chamado à sala por Silvério logo após a chegada do visitante. — Quando viajam? — Perguntou.
— Daqui a uma semana. Preciso dar as coordenadas pro meu sogro, providenciar passagens e hotéis. Vamos aproveitar pra fazer um pouco de turismo.
— Férias merecidas, Silvério. Afinal, lá se foram meses de trabalho bem sucedido. Essa cidade jamais esquecerá tudo o que fizeste e fazes por ela.
Silvério teve vontade de levar mais longe o diálogo para contar quantos atos falhos o Padre cometeria. Era provável que nunca ficaria sabendo pelo confessor se Mariana teria mencionado em confissão o temor da opção do marido pelo aborto. Era pergunta fora de questão. Diante dos interesses econômicos o Padre não desejaria esse novo fiel. O compromisso com os dogmas católicos? Preferia acreditar que o Padre, se estivesse ao alcance o exercício de alguma opção ou lhe fosse ensejado opinar, sugeriria a ocultação do fato no presente e a entrega do futuro a Deus.
Silvério comunicou a viagem aos amigos. Alex disse que o problema da mudez talvez decorresse de distúrbio emocional, que aconselharia consulta em Porto Alegre mesmo, no máximo em São Paulo ou Rio de Janeiro. Silvério argumentou que cogitavam de exames em profundidade, não descartando as sugestões, mas preferindo a busca de solução na Europa, já que dispunham de meios para tanto.
Silvério também visitou Clara. Achou que ela gostaria de ter dito mais. Mas não foi além dos votos de boa viagem e boa estada, recomendando que cuidasse bem da Santinha, momento em que gaguejou emocionada. Despediu-se dela certo de que não era preciso acreditar em suas crenças e profecias para admirá-la. Cornélio não inspirava o mesmo carinho, embora lhe fosse grato pela confiança no desvario empreendedor que ele próprio desconhecia. Josefa e Francisco viajaram em companhia do genro e da filha à Capital para despedir-se no aeroporto. Mãe e filha choraram em estreito aconchego. Nunca tinham deixado de se ver um dia sequer. Francisco perguntou se previam a data de retorno. Silvério respondeu que permaneceriam no exterior o tempo que lhes parecesse necessário, impossível prever quanto duraria a peregrinação, primeiro em busca de clínico geral para definir a especialidade, depois para encontrar o maior especialista da área. (CONTINUA AMANHÃ).
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h07
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SERAFIM DE SERAFIM - XXII - PAG. 56 (CONTINUAÇÃO)
XXII — A FUGA
A primeira reação de Silvério à notícia da gravidez foi de perplexidade. Depois veio a alegria, a natureza bradando vitória. A euforia deu lugar ao medo. E o medo à tomada de uma posição de defesa. Entendeu os sentimentos controvertidos de Mariana ao contar-lhe a nova. Agora era sua vez de enfrentar os impasses. Mariana informou, em poucas linhas, que a falta de menstruação, antes sempre regular, dava-lhe a certeza da gravidez. As mulheres dificilmente erravam nisso. Em qualquer hipótese, nem cogitava da busca de confirmação médica. Consultar Alex, por mais que prezasse sua amizade, nem pensar. O fato envolvia tamanha repercussão que nem nos amigos acreditava poder confiar. Perguntou se alguém tinha conhecimento do fato, prevendo a resposta que ela rabiscou no caderno:
— O Padre.
— No confessionário? — Fez nova pergunta.
— Sim. — Ela escreveu.
Silvério imaginou Cornélio rodando em círculos pela sacristia desde que soubera, arredondando as arestas do segredo que não podia compartilhar. Padres também tinham confessor. Cornélio contaria o fato ao seu? Quem seria ele? De onde? Seria confiável? Não havia tempo para paranóia. Ele não contaria a ninguém. Até essa notícia o Padre recebera antes dele! Afastou o pensamento enciumado. Lembrou-se de Clara. Profecia? Rechaçou. Perigo? Claro que havia: no misterioso túnel do futuro, na aventura do dia-a-dia. O sangue seguirá correndo nas veias? O pulso pulsará até a próxima indagação? No caso, o perigo residia no precário equilíbrio da obra alçada sobre a areia movediça do tabu. Planejar. A gestação não poderia correr à vista do mundo. Como evitar? Ocultar um cadáver talvez fosse menos difícil do que manter em sigilo uma gestação. Quase dois meses de gravidez, pelas contas. Dois meses quase nada podem revelar. A única diferença que notara fora o aumento de peso. A gordura dissimularia por algum tempo a gravidez. Se nem ele desconfiara, ninguém teria desconfiado, convenceu-se.
— Mariana, nem pra Josefa e Francisco podes falar, entendes? Sinto muito. Sei que gostarias. Mas não dá.
— Compreendo. — Ela escreveu no caderno, mantido à mão porque ele pedira, prevendo que tinham muito a conversar.
Silvério obteve a promessa de que ela não comentaria seu estado nem com os pais nem com ninguém. Criticou a revelação da gravidez ao Padre. Explicou os interesses em jogo. Obteve a promessa de que ela não revelaria nem ao Padre o plano de ação que traçariam, persuadindo-a de que, por não se tratar de pecado, ela não tinha obrigação de confessar e o que contasse fora de confissão Cornélio não se sentiria obrigado a manter em segredo, que só manteria para resguardar interesses, se fosse precavido.
— É lógico que qualquer coisa que a gente faça, pelo que já sabe, ele vai deduzir. Mas não quero que saiba dos detalhes. Ele é meio descuidado, boca grande. Precisamos torcer que não acabe revelando, mesmo por descuido, o que disseste a ele em confissão.
— Tens alguma idéia? — Mariana perguntou no caderno.
— Ainda não. Mas vou ter. Caderno, mudez, Silvério repetia mentalmente. O inconsciente sugeria-lhe solução que não conseguia captar. Estava impedido de comemorar publicamente sua realização de macho por inteiro, filho único emendando mais um elo na corrente da gênese, estirpe ganhando representação futura. Por outro lado, precisava garantir segurança ao nascituro, dar-lhe boas-vindas desde o ventre. Em Serafim, no momento, filho era fruto proibido. Caderno, mudez. Fora mínima a procura de solução médica. Isso! Isso! A ciência de um grande centro poderia fornecer a chave da cura, abrir as comportas da palavra. A busca de tratamento era motivo mais que plausível para uma viagem. Essa era a saída, a solução momentânea. Depois? Cada passo no devido tempo. O que precisava fazer de pronto? Indicar substituto temporário para suas funções, o que não parecia difícil. Francisco careceria de poucas instruções. Até Josefa, antes simples cozinheira, apesar das limitações, inclusive por não falar, aprendera a dirigir o Hotel Central, liberando o marido para as novas ocupações. Somente o Padre tinha conhecimento da principal razão do afastamento. Mas esse conhecimento somente ficaria sob pressão, sem válvula de escape. Poderia explodir? Novamente o túnel do futuro, incerto e misterioso. (CONTINUA AMANHÃ).
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h37
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SERAFIM DE SERAFIM - XXI - PAG. 55 (CONTINUAÇÃO)
Nunca perguntara a Clara se a razão da idolatria que nutriam por Mariana transcendia ao fato de ter nascido muda, se seria simplesmente um ícone sem obra ou mártir em processo de “via crucis”. Duvidava que Clara tivesse resposta racional. Não conhecia fé com fundamentos racionais. Bastavam-se em si mesmas. Nada perguntou. Limitou-se a confirmar que viviam em harmonia, enchendo cadernos de conversação. Clara sorriu. Silvério devolveu-lhe a cuia. Despediu-se. O maior perigo de vida é viver, pensou. Apressou-se para tomar outros mates na farmácia.
Os amigos estavam para trivialidades. Cada um tinha mais vantagens para contar sobre conquistas nos bailes do acampamento. Riu das peripécias sem inveja de suas vidas. Sentia-se leve, realizado e sem culpas. Perto das seis deixou a roda de chimarrão. Estacionou diante da igreja. Mariana não tardou a aparecer. Mantinham sempre caderno e lápis no carro para assuntos que ocorressem em trânsito. Achou-a perturbada. Perguntou-lhe se tinha ocorrido alguma coisa. Ela sacudiu a cabeça. Sorriu. Depois chorou. Escreveu:
— Estou grávida.
(CONTINUA AMANHÃ. FALTAM 11 PÁGINAS PARA O FINAL).
Escrito por Jerônimo Jardim às 04h58
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SERAFIM DE SERAFIM - XXI - PAG. 54 (CONTINUAÇÃO)
XXI — A ANUNCIAÇÃO
As noites não bastavam. No inverno frio de Serafim, Silvério chegava de inopino, à tarde, no escritório em que Mariana trabalhava, e a convidava a subir ao apartamento onde se cansavam de amor. Quando iam à missa das cinco sem a companhia de Josefa, na desculpa de trocarem as roupas de trabalho, iam antes ao apartamento e se amavam sob o chuveiro, embora ela explicitamente preferisse a cama. Não sabia se crítico ou cúmplice o olhar de Cornélio quando se atrasavam para o ofício religioso.
— Silvério, tive um sonho muito estranho na noite passada. O Chico entrava no quarto pisando leve como fazia sempre que eu adormecia antes dele, pensando que eu não acordaria. Mas ao invés de dizer que eu poderia voltar a dormir, que era só ele chegando, disse que muito perigo rondava o forasteiro, porque dúbia sua posição diante dos desígnios do Senhor. Então me acordei. E pensei. Desde que nós nos conhecemos eu simpatizo contigo. Te acho um homem decente. Gostar de alguém nos despe de senso crítico com relação aos atos da pessoa estimada. Mas a tua posição me parece complicada. À queima roupa, eu te pergunto. Administrando esse negócio, o patrimônio das pessoas que investiram nele, tu torces pra que as coisas voltem à normalidade, o que nós acreditamos que ocorrerá com a chegada do Salvador, ou que permaneçam como estão? Estás do lado da doença ou da cura? Do pecado ou da salvação?
Silvério não sabia porque, independente da ida com os amigos aos cultos, entrava na Vila sozinho, quase sempre numa fuga do escritório pela manhã, quando sentia necessidade de espairecer. Dessa vez fora à tarde, gazeando a missa, deixando Mariana cumprir sozinha o compromisso com a religião. Talvez gostasse de ir à Vila para se alegrar com o fato de que algo da colheita sobrava aos pobres. Alguns já reformavam as casas de torrão, agregando peças de alvenaria. Colhiam as migalhas, como Clara dizia para motivá-los a não se desviar dos objetivos da seita. Desfrutava da amizade dela, que não lhe opunha o fato de manter estreita relação com a religião que desfazia de sua seita. É claro que a questão levantada por ela na conversa estava sob foco constante. Mas a sucessão de fatos tinha ocorrido de um modo que o levava a crer que nada faria de diferente, porque nada de diferente havia a fazer. Tinha convicção disso. Já retrocedera no caminho diversas vezes tentando discernir se haveria outro que não tivesse vislumbrado. Não encontrara. Essa era a resposta para a pergunta de Clara. Jamais iria dizer-lhe que não acreditava na vinda do Salvador, como nunca lhe mentira crer em suas pregações. Mas não via contradição nem maldade nos próprios atos. Tinha-se em alta conta. Se fosse obrigado a se colocar frente à questão, teria que admitir que torcia pela manutenção do estado que proporcionava progresso à cidade e, com egoísmo que achava justificável, a posição que conquistara no dia em que imergira naquele universo. Mas isso também não precisava contar. Também não revolvera, nem em confissão formal perante o Padre, o pó depositado na intimidade de sua alma. Não precisaria revolvê-lo numa roda de mate, somente porque Clara revelara um sonho profético e aludira a perigo que não vislumbrava. Se fossem verdadeiras as declarações das pessoas que tinham ido à imprensa se dizerem lesadas pela vinda à cidade, teria que enfrentar o caminho que se oferecesse. Afastada a hipótese, seguia aquele aberto à frente.
— Clara, as coisas simplesmente aconteceram. Eu estava aqui. Pessoas não tinham onde se hospedar. Assim tudo começou. E aqui estamos. Um passo levou a outro. Não acho que tenha feito mal a ninguém. A coisa existia. Agora parece que nem pensam nela. Quando se defrontam com doenças incuráveis os médicos procuram um modo de o paciente conviver com elas. Às vezes a convivência é dolorosa. Mas não o abandonam à própria sorte. Sem querer me fazer de importante, me vi na condição de médico diante do diagnóstico de doença incurável.
— A diferença é que não estamos diante de doença incurável. — Disse Clara, fazendo roncar a cuia.
— Mas foi como eu a vi. E não podes negar que doentes mentais entocados, ao não se sentirem bichos exóticos, saíram de suas furnas. Alex contou que muitos de seus pacientes tiveram alta, voltaram à normalidade. Apenas se livraram da pressão. Mariana convive com a mudez. Não se aflige, nem se revolta. — Disse Silvério, recebendo o mate, receoso de que Clara o reprovasse.
— Nada do que eu te disse foi pra te criticar. Foi apenas pra te prevenir que existem perigos. Quando o Chico me mandou conduzir o povo, atendi. Agora me manda um aviso que te transmito. Serás sempre bem-vindo a esta casa. Lamento que a Santinha não venha contigo. Tenho notícias de que formam um casal muito feliz. Pena que Mariana estava engordando um bocado, pensou Silvério sem externar o pensamento. Apaixonara-se por chocolate. Nunca pensara que o amor poderia transcender à estética. Ao menos por enquanto, a atração resistia às alterações prejudiciais ao corpo em que saciava seus desejos. Mas já reclamara dela. (CONTINUA AMANHÃ).
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h59
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