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REALISMO FANTÁSTICO

O texto explícito é o glacê dissimulador dos absurdos maiores presentes na realidade não explicitamente narrada. 

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h39
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ACM

Sinto muito. Não senti nada. Nem alívio.

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h26
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SERAFIM DE SERAFIM - XX - PAG. 53 (CONTINUAÇÃO)

— Eu não vejo assim. Estamos vivendo do jeito que Deus nos permitiu, mastigando de acordo com os dentes que Ele nos deu, andando conforme o cumprimento das pernas. E não me venha falar em acertos daquela canibal, engolidora de almas simples. Sua fé é desprovida da verdadeira palavra de Deus... Mas mudando de saco pra mala, tenha paciência com a minha menina. Os sacrifícios pelo Senhor não são em vão. A recompensa virá.

— Está difícil, Padre, muito difícil!

Cornélio, que já havia levantado da poltrona e pegado o chapéu enquanto falava, aproximou-se. Pôs a mão no ombro de Silvério. Encaminhou-se à porta, parecendo disposto a livrar-se das queixas que estaria prestes a ouvir. Silvério notou que a batina era nova e perfumada. Cornélio era outro, só igual no corpanzil. Frutos colhidos da exibição da mulher barbada! Silvério estava fixado na metáfora que ao acaso construíra e que acreditava se adequar à deliberada super exposição das mazelas.

— Parabéns pelas entrevistas. Brilhantes! Às vezes pensar demais ajuda; às vezes complica. Vamos cumprir o que Deus nos delegou. Nada é à toa. Mas há perigos nessa Cruzada. Estamos numa. E não me perguntes porque. Não me meto a vidente como aquela sujeita. E não se esqueça também que a menina merece todo o amor que um homem possa dedicar-lhe e a incumbência é sua. — Cornélio acrescentou, de saída.  

Silvério fechou a porta. Por instantes ficou a ouvir os passos ecoando no corredor, lembrando-se do dia em que os ouvira na nave da igreja, da alusão do Padre à possibilidade de que talvez não estivesse indo da cidade definitivamente como imaginava. Os negócios estavam sob controle. Quais os perigos a que se referia? Qual a Cruzada? Que intenções havia no pedido de paciência com a esposa? Ela também pedira tempo e paciência. Não havia dúvida. Atos falhos. Pesavam nas palavras do Padre segredos de confessionário. Mas o que estava a perigo era o casamento. Referia-se a isso? Raiva de que outro homem pudesse saber mais do que ele sobre a esposa! A zanga voltou. Foi ao quarto. Chamou-a. Não apareceu. Ouviu ruído no banheiro. Invadiu-o, abruptamente, sem aviso. Ela parecia esperar a invasão. Nunca a tinha visto no suposto esplendor de sua nudez, inesperadamente confirmado. Os olhos azuis expeliam fagulhas reveladoras de desejos em erupção. Descobria-se a fêmea ávida, liberta do cárcere dos pudores. A brabeza se evaporou como a água no ambiente. Temendo a quebra da magia por um gesto mais brusco, despiu-se vagarosamente. Envolveu-a na toalha. Conduziu-a nos braços à cama onde sorveu gota a gota do corpo mal enxugado. Conquistou centímetro a centímetro o território inexplorado. Sentiu-a gemer timidamente. Depois gritar, gritar alto, mais alto, bem mais alto, no palco sem platéia da paixão. Homem pleno, exausto; mulher plena, exausta. Sono. Mancha vermelha no lençol. Casamento consumado.   

Silvério acordou no meio da noite. Beliscou-se para constatar se não sonhara. Levantou-se. Pegou o maço de cigarros. Amassou-o. Jogou no lixo.

(CONTINUA AMANHÃ). 



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h14
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VOLEIBOL DE PRATA

A VIDA NOS EXIGE MUITO ESTUDO, MUITO TRABALHO, MUITO TREINO, MUITO ENSAIO, MUITA CONCENTRAÇÃO, MUITA TRANQÜILIDADE E DEDICAÇÃO. NÃO EXISTE VITÓRIA ANTECIPADA. MESMO QUANDO SOMOS MERECEDORES DO LUGAR MAIS ALTO DO PÓDIO, OUTROS FATORES - ALÉM DE MAIS ESTUDO, MAIS TRABALHO, MAIS TREINO, MAIS ENSAIO, MAIA CONCENTRAÇÃO, MAIS TRANQÜILIDADE E DEDICAÇÃO DE OUTREM - PODEM LEVAR-NOS À DERROTA. O PRINCIPAL DENTRE ELES: A FALIBILIDADE, PRESENÇA INAFASTÁVEL DO JOGO.        

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h37
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SERAFIM DE SERAFIM - XX - PAG. 52 (CONTINUAÇÃO)

XX — A CONSUMAÇÃO

 

 

Ao abrir a porta do apartamento Silvério encontrou Mariana ajoelhada, gesticulando perante Cornélio que, sentado numa das poltronas individuais da ampla sala, ao vê-lo, fez o sinal da cruz e finalizou a pantomima. Teve a impressão de estar devassando a intimidade da esposa, embora, intimamente envergonhado, estivesse sentindo prazer nisso. Sabia que ela costumava se confessar na sacristia da igreja, longe de olhares que poderiam interpretar gestos. Como gesticularia para contar em confissão ao Padre, se precisasse, os fatos que tão curiosa e obsessivamente os padres que conhecera costumavam perguntar? Não lhe parecia possível supor que Mariana tivesse o que contar a respeito em confissão.     

— Tenho estranhado a falta de vocês na missa das cinco. — Reclamou Cornélio, sem se levantar da poltrona.

— Como o senhor sabe, têm sido muitos os compromissos e as preocupações dos últimos dias. — Silvério desculpou-se, aproximando-se para apertar a mão que o Padre lhe estendia.

— Sei. Mas os compromissos com Deus precisam ser cumpridos antes de todos. Amar a Deus sobre todas as coisas, não lembras?

Silvério não superara a ojeriza que tinha às frases feitas do abecedário católico. A presença do Padre deixou-o irritado, pois chegara disposto a acabar com a angústia, resolver o impasse que estava afetando sua saúde emocional, desfazer a conquista do bem não apropriado, devolver a mão frígida que recebera em matrimônio.  

Mariana pôs-se de pé. Silvério viu-a se aproximar e, para grande surpresa, beijá-lo suavemente na boca. O quadro da esposa perfeita e do casal ideal na frente do Padre! A cretina encena, pensou, sentindo crescer a zanga. Tentou transmitir-lhe pelo olhar que não se prestaria à farsa. A mágoa que o afligia boiava à tona pronta para o bote decisivo. Esquivou-se da intimidade que ela pretendia demonstrar pelo jeito como se aconchegava. Não queria causar impressão enganosa. Campainha tocando interiormente; aviso ao tolo. Na qualidade de confessor o Padre saberia inclusive as razões de a esposa se negar à entrega, a não ser que ela, em procedimento incoerente com a condição de católica praticante, costumasse mentir no confessionário tanto quanto ele. Recordou que inventara em confissão promiscuidades sexuais só para atiçar o Padre. Teve vontade de rir, o que aliviou em parte a indignação. Ela voltou à carga, enlaçando-o num abraço de difícil esquiva sem grosseria. Não correspondeu; mas não repeliu. Tinha saudade de tocá-la, sentir os contornos de seu corpo. Cornélio socorreu-o, pedindo um particular. Ela se retirou para o quarto. Silvério logo viu que o Padre não tinha nenhum assunto para tratar que exigisse sigilo. Nada do que falou impediria a presença de Mariana. Usara da artimanha para livrá-lo do constrangedor assédio. Só podia ser. Teve a quase certeza de que Cornélio detinha segredos que só revelaria sob tortura. Saboreou a fantasia, logo abandonada. Veio à tona a questão que mais o ocupava no momento, além da rejeição da esposa.

— Tanto que essa gente se escondia de vergonha, sonhava com a recuperação da fertilidade, até enlouquecia, Padre. Hoje, se eu abrisse uma brecha, perigava me beijarem os pés porque defendi a esterilidade serafinense!

— Filho, Deus lhe deu uma missão que está cumprindo a contento. Faça a sua parte. Não se questione ou se culpe por executá-la. Eu tenho dito sempre que a nossa ciência é pouca pra entender a vontade divina. Cabe aos súditos de Nosso Senhor vencer os desafios que Ele nos apresenta para melhor encontrar os caminhos que levam a Ele. Precisamos enfrentar e vencer as provações, superar os inimigos da verdadeira Fé e as tentações.

— Não acho que estejamos vencendo nada. Estamos cedendo às tentações. Será que o caminho escolhido pela Clara não é mais curto? Ela não se deixou iludir pelo ganho fácil de dinheiro, se valer da doença que o povo da zona central, não o da Vila, transformou em tabu. Mal comparando, agimos como o circo e a mulher barbada que exploram a curiosidade e a pequenez alheia fazendo dinheiro do desequilíbrio hormonal.

(CONTINUA AMANHÃ).



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h27
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SERAFIM DE SERAFIM

SERAFIM DE SERAFIM, EM QUINZE DIAS O FIM, ENFIM.

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h26
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SERAFIM DE SERAFIM - XIX - PAG. 51 (CONTINUAÇÃO)

Quando surgiram em seu escritório quase juntos Cornélio e o Prefeito, Silvério estava tranqüilamente recostado em sua cadeira de espaldar alto, tomando whisky, fumando um charuto e lendo a matéria sobre a aprovação das eleições diretas no Brasil, o direito de voto aos analfabetos e a legalização dos partidos políticos. Já havia ligado para o jornal que publicara a notícia desastrosa para os interesses serafinenses e para emissoras de rádio, bem como já falara diretamente com o repórter de TV, responsável pela primeira matéria sobre a anticonceptividade, que também cobrira a inauguração do complexo turístico. Dissera nas entrevistas que nenhuma das pessoas que alegavam o pretenso prejuízo havia se hospedado em hotéis ou residências particulares e que, portanto, não havia evidência de que sequer tivessem vindo à cidade; que era improvável que num universo de centenas de turistas somente elas tivessem queixas quanto ao efeito desejado; que, em qualquer hipótese, nunca o Município o prometera, tratando-se de fenômeno de causa desconhecida; que a considerar parcialmente verazes as afirmativas daquelas pessoas, seria de considerar se teriam se exposto suficientemente aos ignorados elementos com propriedades anticonceptivas, acrescendo a informação de que alguns turistas permaneciam na cidade mais tempo para garantir maior probabilidade do benefício pretendido.

Cornélio e o Prefeito aquietaram os investidores.

As matérias que desacreditavam os depoimentos adversos e confirmavam a existência do fenômeno tomou conta dos noticiários. O movimento foi afetado por alguns dias. Depois, não só retornou ao normal como subiu a índices recordes.

— Quando o Salvador chegar e os ventres frutificarem, o que será de teus investimentos e investidores? — Clara perguntou a Silvério num dia em que ele saiu à rua a pé, disposto a passear e visitar amigos.

— Não sei. — Respondeu vagamente para não dizer que não acreditava na vinda do Salvador. 

Da casa de Clara foi direto à roda de mate da farmácia, que desde o casamento não freqüentava.

Na Vinte de Setembro transeuntes o cumprimentavam com expressões gratas, elogiando as entrevistas. Dedé encontrou-o no caminho. Pendurou-se em seu braço. Chegou à farmácia com o ego em alta. Dedé seguiu em frente, oferecendo os bilhetes que não conseguira esgotar no acampamento, reduto de vendas predileto.

— Que bom que deste uma cacetada nos vigaristas. Se a coisa fosse verdadeira a gente estava frito. — Disse Jovito.

Silvério tomou mate pensativo, sorrindo de uma ou outra piada, participando da prosa pouco atento. Clara tinha razão. Até os amigos tinham investido grandes somas na Novo Tempo. Os serafinenses queriam a natividade longe deles. Lembrou-se de que Cornélio dissera normal uma família sem filhos por vontade de Deus. Mas que família normal era a sua, se nem conseguira deflorar a esposa?                   

Voltou para o hotel cabisbaixo, respondendo mecanicamente aos novos cumprimentos. (CONTINUA AMANHÃ).

Escrito por Jerônimo Jardim às 04h40
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CAIXA LARANJA

Sofrimento. Perda de vidas. Pena das famílias. Alívio por não estar no vôo. Encontraram a "caixa preta", que nem mais preta é. Quando preta era, ao menos exibia seu luto. Cor de laranja se tornou. Outra laranja PARA ESCANCARAR O JOGO. É preciso abrir com real eficácia as "caixas laranjas" do Brasil. Morrem centenas por dia sem embarcar em vôo algum. Mas não só abrir. É preciso punir exemplarmente aqueles que são os verdadeiros bandidos, responsáveis diretos e indiretos pelas chacinas em vôo e sem decolagem para bom destino, nas esquinas, morros e arrabaldes do País. 

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h55
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SERAFIM DE SERAFIM - XIX - PAG. 50 (CONTINUAÇÃO)

XIX — A SURPRESA

 

 

Silvério se sentiu aliviado no retorno a Serafim, onde, de novidade, só havia a ausência das borboletas, o que ninguém soube explicar, tampouco deu importância.

Fora difícil suportar o fardo do silêncio e da rejeição explícita, uma esposa que se socorria no sono a qualquer sinal de abordagem, uma lua de mel convertida em longa sessão de tortura, a mulher vinte e quatro horas sua e indisponível. Ele não tinha nada a ver com o que estava acontecendo, ela dissera. Como não tinha nada a ver, se era rejeitado? Paciência! A aversão à intimidade poderia desaparecer de repente, como a dor no pau?

Passou a trabalhar no escritório também à noite. Cogitou de procurar os amigos, beber com eles no acampamento. Desistiu da idéia. Ficariam curiosos. Por que, casado e apaixonado, se ausentava do lar? Acabariam perguntando. Não saberia o que responder. Ou então diria a verdade e se tornaria vulnerável à pressão por uma atitude. Optou por dar um tempo, como ela solicitara. 

Não conseguindo administrar convenientemente a ansiedade, retomou o vício do cigarro que jurara a si mesmo nunca mais retomar. Fumava mais do que antes do abandono, que supusera definitivo. Também vinha bebendo além da conta. Às vezes abria o caderno deixado estrategicamente à mão sobre a mesa da sala na esperança de encontrar um recado promissor. Pura frustração. Recolhia-se ao silêncio, tão mudo em casa como a mulher.             

Em princípio de maio, para não dizer que nada havia mudado, crescia a disposição de contar a Francisco o que estava ocorrendo, explicar-lhe a situação, depois pedir a anulação do casamento não consumado.

A manchete do jornal posto sobre a mesa, tornou pequenos todos os problemas. Estremeceu ao lê-la: “Mulheres grávidas desmentem a anticonceptividade de Serafim”.

O telefone começou a tocar, repórteres, investidores, Cornélio, Clara, todos querendo ouvi-lo. Dissimulava a voz, dizendo que não chegara. Precisava controlar as emoções, ordenar os pensamentos. Transferiu todas as ligações para a secretária com ordem de que sua chegada ao escritório somente fosse informada quando autorizasse.

Concentrou-se na questão. Pegou de novo o jornal. Releu a matéria sorvendo-a letra a letra. Tentou inutilmente reconhecer as duas mulheres e os três homens retratados na foto que ilustrava o texto. Era ruim para lembrar nomes e datas; não para guardar fisionomias. Os turistas masculinos que figuravam na foto também se queixavam de terem engravidado as esposas. Os nomes dos queixosos constavam da matéria. Diziam da intenção de contratar advogado para acionar o Município. Constatação: o fato seria real, segundo a matéria jornalística. Perguntas: O que ocorrera? Como os serafinenses assimilariam a notícia? Até que ponto o turismo seria afetado? O que diria, dependendo dos interesses em questão, a cada um que ligasse? Como defenderia o Município se ingressassem com ações no Foro? O casamento em crise sumiu momentaneamente da lista de preocupações. Acendeu um cigarro. Concentrou-se. Repentinamente saltou da cadeira, estalando os dedos, com vontade de pular pela sala como quando acertava num azarão no Cristal. As perturbações emocionais e o envolvimento direto tinham-lhe entorpecido o tino. Pegou o telefone. Mandou a secretária checar se os nomes das pessoas queixosas figuravam entre as que tinham preenchido ficha no Grande Hotel ou no acampamento. Pediu também que consultassem os particulares inscritos no programa alternativo quanto à possibilidade de terem recebido como hóspedes aquelas pessoas. Solicitou que Francisco conferisse os registros do Hotel Central.

(CONTINUA AMANHÃ)



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h40
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TRÉGUA OU NOVO DIRECIONAMENTO PARA A PAUTA DE NOTÍCIAS?

O Rio parece em paz. Nada de guerra entre quadrilhas. Nada de ataque a postos policiais. Nada de balas perdidas. Nada de bam-bam-bam-bam. Traficantes e policiais firmaram trégua para acompanhar o PAN? Pan-pan-pan-pan! 

Escrito por Jerônimo Jardim às 16h55
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FESTA DO PAN

Não vi negros nas platéias do PAN. Só na arena. Lutando. Para as platéias fazerem a festa.    

Escrito por Jerônimo Jardim às 16h50
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SERAFIM DE SERAFIM - XVIII - PAG. 49 (CONTINUAÇÃO)

— A Tempo de Redenção abençoará a união em ato que realizarei antes da cerimônia daquele Vendilhão, mesmo sem a tua presença e da Santinha. — Disse Clara, que desde a participação do casamento conformara-se com a cerimônia na igreja, reconhecendo a impossibilidade de realizá-la por causa dos pais da noiva.

Silvério recusou a sugestão dos amigos de festejarem sua despedida de solteiro em Rivera. Limitaram-se a beber das cachaças de Jovito e depois dançar até o nascer do dia no galpão do acampamento.

Silvério sofreu no altar os minutos de atraso da noiva. Não conhecia os padrinhos dela. Supôs que teriam sido convidados por Francisco. Mãe e filha não tinham amigos próximos, pudera observar desde que as conhecera. Taurino, Jovito e Alex, seus padrinhos, divertiam-se com a apreensão do noivo. Dedé acomodara-se desde cedo na primeira fila, vestindo traje folgado emprestado por Taurino, que também se encarregara de dar-lhe um banho, com direito a corte de unhas e cabelo. Silvério reconheceu pessoas que vira no baile, na noite anterior. Cochichavam e sorriam. Tinha quase certeza de que comentavam sobre sua bebedeira.

Mariana e Francisco entraram no templo ao som da marcha nupcial, interpretada aos solavancos pela organista que tentara recuperar a prática em horas perturbadoras da sesta. Silvério se entristeceu ao encontrar o olhar da noiva. Francisco entregou-lhe mão gelada e quase avessa à que a recebia no altar. Silvério temeu que ela desistisse. Mas ela assentiu, depois de pausa enigmática. Cornélio repetiu frases de estímulo à adoção do sacramento, proferidas no dia da devolução da igreja aos fiéis.

Quando os noivos chegaram ao pórtico onde os padrinhos tinham planejado jogar-lhes arroz, encontraram ruidosa manifestação, controlada a cacetadas pelos brigadianos. “Santinha, Santinha”, bradavam os populares, enquanto outros entoavam cânticos em louvor à maternidade e à vinda do Salvador. Os mais afoitos tentavam tocar na noiva e eram surrados sem dó. Dedé corria de um lado para outro, ora tentando afastar os manifestantes, ora protegê-los, recebendo também alguns golpes da polícia.

— Pobre só existe pra dar emprego à polícia. — O Delegado segredou a Silvério, assumindo ao lado do sargento o comando da operação.

O motorista encarregado de transportar os noivos livrou-se com dificuldade do aglomero, quase atropelando pessoas que tentavam impedir-lhe o caminho. Conseguiu levá-los ao Grande Hotel onde Francisco se preparara para recepcionar meia cidade.

A noiva não se deixou contagiar pela alegria geral. Sumira dela a menina que Silvério vira aos pulos pelas dependências do Hotel. Ela recebeu com indiferença os cumprimentos. Cedo Silvério resolveu se retirar da festa, enfrentando a troça dos padrinhos.

O comentário que ouviu de um dos convidados sobre a morte de Tancredo Neves, não foi capaz de causar-lhe qualquer comoção. 

Silvério ensaiou aproximação e carícias, acossando a noiva até ela se encerrar no banheiro. Teve que prometer trégua para vê-la sair. Deitaram-se lado a lado sofreguidão e temor. Dormiram quando o cansaço se impôs. Não se consumou o casamento naquela noite precedente à viagem programada para o Rio de Janeiro, com passagem por Porto Alegre, onde ficaria o Opala comprado na véspera em Bagé, que Mariana sequer pareceu notar pela manhã.

Quando na viagem Silvério alcançou-lhe o caderno para que explicasse as razões da tristeza e do recato, ela escreveu simplesmente: “Perdão, amor. Não tens nada a ver com o que está acontecendo comigo, que nem sei explicar. Peço um pouco de paciência”.

— É por causa do assédio do pessoal da seita? – Ele insistiu.

— Não. — Ela anotou laconicamente, em letras maiúsculas.

— Quem sabe precisas de um psicólogo?

— Não. Só preciso de tempo. — Fechou o caderno. Desviou o olhar para a paisagem e se deixou ficar em seu silêncio vintenário.

(CONTINUA AMANHÃ. FALTAM 17 PÁGINAS PARA O FINAL).



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h11
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SERAFIM DE SERAFIM - XVIII - PAG. 48 (CONTINUAÇÃO)

XVIII — O CASAMENTO

 

 

Na sacristia, pouco antes dos atos de inauguração das novas instalações da igreja, que Silvério achou suntuosas para uma cidade que só recentemente passara a existir para o mundo, os noivos marcaram o casamento para vinte e um de abril. O Padre anotou a data na agenda paroquial.

O anúncio do casamento no sermão provocou inusitada salva de palmas, tratando-se de uma missa. Cornélio revelou a razão da escolha daquela data de tão trágica memória para a solenidade de entrega do templo reformado ao público.

— É tempo de reconstrução. Deus nos permitiu reconstruir Sua casa. A família retoma seu sentido no amor. Muitos casais pelo mundo afora, abençoados por Deus e por Sua Igreja, não têm filhos. O amor, contudo, persiste. Tudo faz parte do plano por Ele elaborado em Sua inatingível sabedoria. Marquei essa data para entregar aos fiéis Sua casa reconstruída para que, a exemplo do que ocorrerá em vinte e um de abril, voltem os casais a encontrar razões para a união das almas em Deus que, como é fácil notar, já olhou por nós e, apiedado de nossos sofrimentos, deu-nos recompensas que acolhemos com alegria. A data escolhida pelos noivos para o casamento marca um martírio, mas também a descoberta de nossa Pátria. Jesus foi mártir. Quanto à descoberta, descubramos, todos, sentido para nossas existências. Cumpra-se a vontade do Criador. Voltemos aos Sacramentos, entre eles o casamento, para assegurar-nos a certeza da felicidade eterna.                 

Ao saber do discurso de Cornélio, Clara troçou:

— Esse é outro que só pensa no dinheiro. Antes queria criancinhas pra batizados e crismas. Agora quer fazer casórios. O amor, se não dá filhos, pode dar casamentos!

Silvério não achou o comentário de bom tom. Ela também cobrava taxas e, até então, só ela oficiava casamentos. A troça pareceu-lhe mesquinha. Por gostar de Clara, na hora, ao ouvi-la, sentiu uma ponta de decepção. Depois pensou melhor. Não havia como descartar os defeitos do conjunto. Era aceitar o que compunha sua personalidade, ou rejeitá-la. Clara era simplesmente humana. Difícil a autocrítica dos defeitos. Não sabia os seus, afora a que achava questionável pecha de machista e mulherengo.

Naquele dia pouca gente jogou pedras no busto de Juvêncio Quadros, mas foi superior a de anos anteriores a afluência de pessoas ao túmulo de Carlinhos e à frente do hotel. Nas primeiras horas da noite, incomodada com a quantidade de gente que se acotovelava na rua com velas à mão gritando “Santinha, Santinha”, Josefa chamou a polícia. Os soldados da brigada dispersaram o aglomero. A festa de aniversário em família, perturbada pelos crentes, durou pouco.

No dia seguinte Francisco se transferiu com a família para o Grande Hotel, com o apoio do futuro genro, alegando as chateações, dessa vez além da conta. Silvério, tendo em mente que em breve Mariana iria viver com ele no Grande Hotel, fingiu crer no motivo da mudança. Acreditava residir por detrás da desculpa o ânimo de desfrutar da nova posição social.      

Escolheu como primeiro lar de casado a mais ampla cobertura, mantendo os móveis originais, já que nada da mobília fora adquirida sem sua prévia aprovação. Deteve-se no exame da cama e do colchão, sonhando com as noites que dela exigiria firmeza e do colchão conforto para o desfrute dos prazeres cobiçados.

Mariana bordava lençóis e extravasava alegria no caderno, contando os dias para o casamento. Silvério surpreendeu-a várias vezes saltitando nos corredores, no parque do Hotel, e às margens do arroio, dependências a que restringia os passeios, prisioneira de sua beatitude.

Na semana precedente às núpcias, ensimesmou-se e abandonou o boneco. Silvério atribuiu o comportamento ao temor que algumas noivas às vezes sentiam diante do compromisso. Até ele, por mais resolvido que estava, havia horas em que se deprimia, por sentir próxima a perda da vida em que a ninguém devia satisfações. Só que seus momentos de depressão duravam pouco; os de Mariana preocupavam. Questionada, ela escreveu no caderno: dor de cabeça. Mais nada. (CONTINUA AMANHÃ).



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h22
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