| |
SERAFIM DE SERAFIM - XVII - PAG. 47 (CONTINUAÇÃO)
— Posso ter esquecido muita coisa. Só comecei a escrever há pouco. A memória é perigosa até para os historiadores, como Taurino um dia me disse. E a minha é péssima. Quando o senhor chegou eu estava pensando em algo que, de algum modo, envolve o registro do passado. Pode ficar tranqüilo que não vou falar sobre os escritos bíblicos. Por acaso o senhor já considerou em suas meditações que um escritor, no ato de criação, pode mais do que Deus?
Cornélio ficou no aguardo do que viria, sacudindo a cabeça em sinal de desaprovação.
— Veja só... E não creio que esteja cometendo sacrilégio... É algo que um teólogo consciente como o senhor precisaria sopesar. Admitindo-se que Deus conheça o futuro, o passado não aceita nem a borracha divina. Já o escritor, se estiver insatisfeito com o enredo, mexe nos fatos do passado para ajustar aos do presente reconsiderado.
Cornélio sorriu.
— O senhor sempre pensando demais... Acontece que os fatos do escritor são mera ficção, só existem na cabeça dele. Os fatos do Criador são reais; existem para todas as criaturas. Por outro lado, quem lhe garante que Deus nunca tenha usado a borracha divina experimentando a Obra? E o escritor, depois que o livro sai do prelo, pode passar borracha nele? Minha Bíblia ninguém apaga mais. Por isso, veja bem o que vai escrever sobre mim, hein? Um dia isso, só Deus sabe, pode virar livro... Mas indo ao que interessa, não vá esquecer a nossa solenidade. Vamos devolver a igreja aos fiéis. Conto com sua presença no três de abril. Já convidei seus amigos... Ah! E essas suas idéias merecem mesmo é uma boa confissão e penitências.
Entregou o convite impresso e se despediu sorrindo.
Ao abrir a agenda para marcar o compromisso depois que o Padre se retirou, Silvério percebeu intrigado que o três de abril escolhido para a solenidade coincidia com o dia da Praga, consagrado ao apedrejamento anônimo ao busto de Juvêncio Quadros e às homenagens da Tempo de Redenção a seus ícones; Carlinhos pelo aniversário de sua morte e Mariana pelo data de seu nascimento.
Os cientistas se despediram procurando demonstrar o quanto tinham apreciado a estada, omitindo da relação dos prazeres enumerados as horas a fio em que gastaram as solas dos sapatos nos bailes e as incontáveis trepadas com nativas e turistas. Viajaram certos de não terem sido afetados pela esterilidade natural que tinham vindo pesquisar, pois até a ingestão de bebidas alcoólicas restringiram às que tinham trazido, deleitando convivas com whiskys escoceses, vinhos franceses e cervejas alemãs. Babaram diante das caipirinhas e do chimarrão, mas se mantiveram fiéis aos propósitos. Poderiam ainda naquela noite, na Capital, matar o desejo de degustar as delícias brasileiras recusadas, pois como Silvério pôde entender, não seguiriam viagem para a Alemanha naquele mesmo dia.
Por algum tempo, não só ele, a cidade inteira sentiria saudade dos estrangeiros que, muito provavelmente, nunca mais veriam. Partiram, acossados por dezenas de borboletas. Alguém comentou que elas se insinuavam, como se quisessem segui-los. Silvério pensou que elas pareciam estar ali como os demais serafinenses, fazendo as honras da despedida. (CONTINUA AMANHÃ).
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h39
[ ]
[ envie esta mensagem ]
SERAFIM DE SERAFIM - XVII - PAG. 46
XVII — OS CIENTISTAS
Um caminhão de pequeno porte estacionou na frente do Grande Hotel. Silvério estranhou a permissão, já que havia área reservada para carga e descarga de mercadorias. O saguão foi invadido por um grupo alegre e ruidoso de alemães. Conhecia a sonoridade da língua. Começavam a chegar estrangeiros, foi o que pensou. Teria que contratar poliglotas. Precisaria anunciar na Capital até encontrar gente disposta a trabalhar na cidade sem se importar com a infertilidade.
Conhecedor de um pouco de inglês, interferiu no atendimento, conseguindo tênue linha de comunicação. Soube que os estrangeiros pertenciam a uma universidade da Alemanha, estavam na cidade para estudos científicos a respeito da chamada Praga, e que, no caminhão, traziam água e alimentos de todo o tipo, pois acreditavam que interferência natural no processo da fertilidade, se é que havia, só poderia decorrer da ingestão de elementos locais, dos quais excluíam o ar por razões que só eles sabiam. Mandou dar-lhes as melhores acomodações, deixando que todos os produtos fossem armazenados ou levados aos apartamentos, como quisessem. Autorizou Francisco a conceder substancial desconto nas diárias. Os estrangeiros presentearam-no com prospectos dos quais ele só conseguiu entender as figuras.
A novidade correu Serafim. Clara festejou-os, dizendo que representavam anjos do Senhor, inspecionando previamente o local de Sua chegada triunfal.
— E se descobrirem que assim como não há nada no ar, como pensam, não há na água, na comida e no chão? Estaremos fritos. Adeus negócios e investimentos. — Comentou o Prefeito, apreensivo.
— Não temos como negar-lhes a pesquisa. — Contrapôs o Presidente da Câmara de Vereadores.
— Poderíamos dar-lhes um cagaço. — Disse o Delegado, fazendo graça.
Silvério tentou acalmar os investidores na reunião convocada às pressas pelo Prefeito:
— Se nada descobrirem no plano da ciência, restará o plano mágico. E esse, como se sabe, manda mais na alma dos homens do que todas as ciências reunidas. E, ademais, a esterilidade é fato irrefutável!
— O que manda é a vontade de Deus! Nossa ciência é pouca. — Corrigiu Cornélio, enfático, encerrando o encontro.
Os serafinenses se acostumaram rapidamente à visão dos homens loiros com bolsas a tiracolo a coletarem água em todos os quadrantes da cidade e da campanha. Também juntavam pó e pedregulho em tubos que iam etiquetando. Mediam a temperatura e a salinidade dos córregos. Convertiam-se em atração turística ao vestirem folgados calções para nadar no arroio, torsos vermelhos e descascados das inadequadas exposições ao sol.
Em quinze dias concluíram a missão, que não se restringira às agruras do trabalho. Muito beberam misturados aos turistas. Diversas vezes ficaram bêbados, conduzidos quase de arrasto ao hotel por nativos ou forasteiros. Por mais sofisticado que fossem os salões do Grande Hotel, mesmo os turistas ricos nele hospedados preferiam se integrar às festas dos menos abastados no galpão do camping, onde havia baile de gaita e violão e rolavam soltos os romances transitórios.
Cornélio surpreendeu Silvério no escritório a registrar memórias no dia em que foi eufórico entregar convite para o ato oficial de reabertura da igreja ao público. Desde que a poeira de cal e cimento invadira a nave passara a rezar missa somente no acampamento; do que não desgostava, pois os turistas eram generosos e freqüentemente o convidavam à mesa. — O senhor registra tudo o que acontece nesse caderno? — Perguntou Cornélio. (CONTINUA AMANHÃ. FALTAM 20 PÁGINAS).
Escrito por Jerônimo Jardim às 04h44
[ ]
[ envie esta mensagem ]
DE VIVA VOZ
Dia 30 de agosto de 2007, quinta-feira, às 18 horas - pontualmente como a lendária Dona Eva Sofer exige -, estarei com o show DE VIVA VOZ, no formato voz/violão, no foyer do Teatro São Pedro.
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h21
[ ]
[ envie esta mensagem ]
ÁGUA EM OUTROS PLANETAS
Aqui mesmo, em nosso planetinha, a vida se manifesta de formas diferentes. Peixes retiram oxigênio da água e, de modo mais radical, bactérias vivem no fogo. Embora todo o universo seja magnético - senão as sondas não transmitiriam dados -, nele existam elementos que aqui estão presentes, necessariamente a vida não carece de similaridades absolutas para existir. Então, a procura por água em outras plagas do cosmo pelos cientistas só pode dizer respeito a uma intenção, consciente ou não: o encontro de algum lugar para exilarmo-nos quando a nave que nos abriga hoje nos negar condições de vida. Como desconhecemos em profundidade nossa origem (dogmas de Fé dispensam certezas científicas), isso já não terá acontecido?
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
SERAFIM DE SERAFIM - XVI - PAG. 45 (CONTINUAÇÃO)
Os mesmos homens da matéria detonadora do turismo, compareceram à cidade para cobrir a inauguração. Silvério os recebeu com pompa e circunstância. Gravaram em vídeo as bênçãos de Cornélio e de Clara, cuja participação Silvério a muito custo conseguiu. Teve de convencê-la de que omitir-se desvalorizaria o suor despendido por seus fiéis. Usou de argumentos políticos para convencer o Padre, amparando-se no apoio do Prefeito. Cuidou de manter os pastores desafetos à distância.
Trechos do discurso do Prefeito e de Silvério foram ao ar no dia seguinte, conforme tinha garantido o repórter da TV. Silvério foi aplaudido no saguão do hotel, onde se reuniu aos turistas para ver a matéria, na parte em que dissera:
— A luta que se travou é passado. O desafio é a próxima. Por mais sonhos que realizemos, muitos restarão a realizar. Um passo é véspera do seguinte. Um passo é só parte do caminho.
Emocionou-se, satisfeito com o modo de como conseguira sintetizar as idéias recolhidas das horas de meditação.
Uma pomba branca revoou pelo saguão e foi pousar no ombro de Mariana, onde permaneceu até que Silvério a espantasse com delicadeza. Circulou em torno deles diversas vezes à noite. Seguiu-os ao Hotel Central. Apresentava-se nos momentos livres dos olhos de Josefa. Mariana grafou no caderno que a inoportuna não pertencia a seu pombal. Num arremesso certeiro Silvério atingiu a ave com um pé de alpargata da noiva, provocando riso abafado em quem os observava do quarto de Josefa, o que levou os noivos à conclusão de que talvez nunca tivessem gozado de privacidade.
Mariana arquivou o original do discurso de inauguração no álbum de recordações que vinha recheando com fotografias tiradas por ela com a máquina que ganhara dos pais no Natal e, quando nelas queria figurar, por quem se dispusesse.
Também registrara cenas do restabelecido Carnaval de Serafim, em que Silvério e Taurino, sem desfilar, foram homenageados pelo bloco Unidos da Vila Podre; Taurino, como Protetor dos Pobres e, Silvério, como Anjo do Salvador.
Fosse qual fosse sua sina, no momento Silvério se sentia apaixonado, amado, realizado, feliz em Serafim, onde virara anjo e era noivo de uma santa. (CONTINUA AMANHÃ. FALTAM 21 PÁGINAS PARA O FINAL).
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h51
[ ]
[ envie esta mensagem ]
SERAFIM DE SERAFIM - XVI - PAG. 44 (CONTINUAÇÃO)
Silvério, na empolgação do champanha e já que Cornélio cometera a imprudência de se antecipar aos namorados e à família, entendeu que aquele era um bom momento para conquistar também a mãe da guria, já que ela contava com a assistência do embriagado guia espiritual. Mas nem ele próprio esperava as palavras que disse e que não mais poderia recolher.
— Já que o Padre adivinhou a minha intenção, quero aproveitar esse momento para pedir a mão da Mariana, embora, porque não a consultei, me arrisque à rejeição pública.
Mariana ficou boquiaberta. Riu e chorou. Sinalizou que concordava. Josefa abraçou-a. Silvério recebeu cumprimentos acompanhados de tapas doloridos, principalmente os de Taurino. Brindaram muitas vezes. O Padre saiu do Novo Tempo amparado por Taurino, que novamente carregava um líder espiritual, dessa vez não desacordado por pouco.
O ano iniciou com movimento quase triplicado, afluência que o Novo Tempo não podia absorver. Silvério, previdente, motivara os moradores da zona central, que haviam reformado suas casas e teriam acomodações, a receberem os turistas excedentes. Os particulares acresceram ganhos a suas rendas, que poderiam se tornar definitivos se o hotel em construção não conseguisse absorver o número crescente de visitantes, o que poderia ocorrer.
Silvério determinou a contratação do dobro de trabalhadores, o que permitiu antecipar o prazo previsto para a conclusão das obras. Mantido o ritmo, estariam prontas ao final dos próximos dois meses, mesmo considerando as chuvas de verão. Queria que a inauguração precedesse a conclusão das reformas de Cornélio para não correr o risco de eventualmente ver direcionado para a igreja o entusiasmo que queria voltado ao complexo turístico.
Acertou com Francisco a gerência do futuro hotel, por retirada mensal e percentagem de participação. Ele próprio também contratara com a empresa a percepção de percentual de administração sobre o ganho bruto a título de honorários mensais, mais os dividendos oriundos da participação societária. Investira no empreendimento todo o dinheiro obtido no outro. Como seria mantido em pleno funcionamento o Hotel Central para a acomodação dos turistas de menor poder aquisitivo, Francisco teria que se desdobrar.
No Dia de Reis, na presença do Padre, amigos e família, Silvério e Mariana oficializaram compromisso com troca de alianças, costume de uso restrito há muito tempo, com mais razão em Serafim.
— Abençôo esse compromisso, sem filhos por vontade de Nosso Senhor. — Disse Cornélio, persignando-se, imitado pelos pais da noiva, pelos amigos do noivo e pelo próprio noivo, dia após dia levado às rezas pelas circunstâncias.
A oficialização do noivado liberou os noivos da estreita vigilância de Josefa. Só de tempos em tempos, que Silvério aprendeu a cronometrar, vinha conferir o inocente preenchimento de cadernos, nos quais Silvério também anotava juras de amor. Tão logo ela se afastava, recomeçavam as aulas práticas de beijos, carícias, mútua exploração táctil. O boneco de olhos azuis a tudo testemunhava. Mariana só o largava durante o trabalho, enternecendo quem quer que a visse ninando-o nos intervalos.
No primeiro terço do mês de janeiro, enciumado com o assédio de turistas mais abusados, Silvério convenceu Francisco a contratar uma copeira. Transferiu a noiva para funções burocráticas. Na desculpa de ensiná-la a datilografar e usar máquinas calculadoras, passava mais tempo no escritório dela do que no seu, não se importando com os olhares indiscretos dos escriturários. Os turistas aprovaram a nova copeira, que acedia aos toques obscenos.
No dia quinze de janeiro, vitoriosa a chapa de oposição em Brasília no Colégio Eleitoral, sob o olhar contrariado do Prefeito e seus companheiros políticos, houve espontânea passeata de automóveis, que começou no acampamento e recebeu no trajeto a adesão de nativos que tinham faturado o bastante para aumentar a pequena frota automotiva da cidade.
No dia quinze de março, marcado propositadamente por Silvério para inauguração do Grande Hotel da Novo Tempo Incorporadora, porque a queria coincidente com a posse do primeiro Presidente da República de oposição em vinte anos, tiveram que festejar somente o evento local, já que o eleito, Tancredo Neves, não assumiu, ceifado por estranha doença. (CONTINUA AMANHÃ)
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h39
[ ]
[ envie esta mensagem ]
SERAFIM DE SERAFIM - XVI - pag. 43
XVI — O NAMORO
Dançar com Mariana na festa do Vinte de Setembro converteu a paixão de Silvério, amornada pelas ocupações agora melhor programadas, em desejo arrasador, que ele, depois da experiência com a turista, sabia-se capaz de realizar. O fato de ter adotado a cidade como domicílio, tornando-se cidadão serafinense, no dizer do Prefeito, facilitou a permissão para o namoro. Já havia conquistado a amizade e a confiança do hoteleiro, principalmente ao dar-lhe a concessão para explorar o restaurante do acampamento. Todas as noites, depois do dia de trabalho, e aos domingos e dias feriados, em horário religiosamente delimitado por Josefa, Silvério e Mariana sentavam-se para namorar no pátio interno do Hotel Central em cadeiras estrategicamente postas, onde podiam ser vigiados sem a interrupção das lidas. Ao segundo dia de silentes olhares, Mariana comparecera ao encontro com caderno e lápis. Antes do Natal ela havia enchido cerca de vinte cadernos de cem folhas, que guardava sob a cama, escondidos da eventual indiscrição da mãe. Foi por esse meio de comunicação que, instada por Silvério, Mariana manifestou o desejo de ganhar um boneco de olhos azuis, anunciado na TV. Abraçou-o e ninou-o com ternura na meia-noite do dia de Natal, realizando a fantasia da impossível maternidade. Silvério ganhou dela uma gravata, pois às vezes usava terno para ir ao escritório, principalmente quando tinha que receber os figurões locais da política. Juntamente com o boneco, Silvério presenteou uma coleção de lápis e uma dúzia de cadernos, embora prevendo, que a se manter a verve, mal chegariam ao final do próximo mês. Na primeira página do caderno inaugurado ela escreveu: “Da primeira à última folha, saibas que te amo.” Silvério teve ímpeto de beijá-la. Controlou-se. O namoro estava demasiado verde para tal intimidade. Sequer dera-lhe ainda um beijo furtivo, face à rígida vigilância de Josefa.
A entrada do ano de mil novecentos e oitenta e cinco foi saudada pelos serafinenses com espetacular queima de fogos de artifício patrocinada pelo Novo Tempo, onde Silvério, no restaurante do galpão já afamado pelas festas, reuniu os amigos e a família da namorada para brindar a passagem com champanha francês.
Antes da festa fora ao culto na Tempo de Redenção, a que também haviam comparecido os amigos e muitos dos turistas que tinham ficado na cidade para os brindes de fim de ano. Clara renovara suas preocupações com a supervalorização da esterilidade, a conversão do mal em benesse. Desejara a todos a companhia espiritual de Jesus no novo ano. Afirmara que sua presença material não tardaria. Silvério achava mais angustiosa a espera dos fiéis da Vila, porque os católicos da cidade pareciam indiferentes à demora.
Começara a contagem regressiva para o brinde quando o grupo foi acrescido da companhia de Cornélio. Acelerara o andamento da missa, suprimindo rezas e cânticos, visando a aproveitar as delícias da mesa que se prometia, naquele final de ano, a mais farta em qualidade e quantidade, considerada a presença do Presidente do Novo Tempo e do concessionário do restaurante, que já figuravam entre os homens mais bem postos da cidade. Aproveitando a distração dos pais, principalmente de Josefa, que tinha o Padre na terra e Deus no Céu, Silvério beijou Mariana na boca na hora do foguetório. Ela não soube corresponder, despertando nele o desejo de se tornar seu mestre no ofício. Depois de repetir do peito de peru, empanturrar-se de farofa e beber da quarta taça de champanha, Cornélio abriu as comportas da fala, espargindo nos convivas e nas travessas a saliva que lhe escapava a cada solavanco da dentadura. Manifestou entusiasmo com a reforma do templo, anunciando a intenção de concluir as obras até o fim de março.
— Espero abençoar esse casamento na nova Igreja de Nossa Senhora das Dores. — Disse, de forma inconveniente, pois a intenção dos namorados não fora revelada nem de um para o outro.
Taurino, Jovito e Alex apoiaram o Padre diante dos constrangidos pais e namorados.
— Será o primeiro casamento na igreja reformada. — Cornélio voltou à carga. — O primeiro que o senhor vai fazer depois de vinte anos. Será que não perdeu a prática? — Taurino provocou gargalhadas, das quais nem Josefa se furtou. (continua amanhã).
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h22
[ ]
[ envie esta mensagem ]
TRISTE, IRRITANTE, DESCONCERTANTE
É triste ver mendigos jovens, cheios de filhos, à porta do supermercado. Mas é irritante e desconcertante ser abordado por eles. Irritante porque vêm a gente cheio de sacolas, fazendo força, e sequer se oferecem para ajudar em troca da propina postulada. Desconcertante, porque a gente tem que balbuciar coisas sem voz, tipo "não tenho", já que não caberia qualquer reprimenda, sujeitando-se a ouvir desculpas convincentes como "não acho emprego" ou, simplesmente, impropérios revoltados e... justos, face ao absurdo abismo sócio-econômico, proferidos contra o semelhante mais bem posto na vida, sujeito passivo possível de ser atingido pelo revide. Porém, pior ainda, é o temor de que de tais pedintes abandonem a posição de humildes achacadores para se transformarem em predadores raivosos. Enquanto isso, nas esferas de poder, continuam a falar em reforço do contingente policial, aumento do número de presídios. E basta ser pobre, morar na periferia, para sofrer revista e levar bala, com endereço certo ou perdida. Não é visto o óbvio. Invistam nas novas gerações. Dêem escola em tempo integral com educação, cultura, esportes, lazer e comida. Certamente será mais barato e eficaz. E mais piedoso do que as moedinhas descartadas na vulnerabilidade do assédio, por caridade e/ou por medo, e/ou por vergonha, com irritação.
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h36
[ ]
[ envie esta mensagem ]
SERAFIM DE SERAFIM - XV - pag. 42 (continuação)
Na roda de mate da farmácia os mateadores tentaram compreender a mudança de comportamento dos nativos. Taurino disse desnecessário que se encontrasse explicação para tudo, coerente com o entendimento defendido quanto à desnecessidade de aprofundamentos em fenômenos só compreensíveis à luz da fé. Alex, que percebera alteração favorável no quadro clínico de muitos dos doentes mentais sob seus cuidados, levantou a hipótese de que os recém-chegados, por virem propositadamente procurar a esterilidade, estariam a um só tempo despertando o retraído instinto do sexo, minimizando o complexo de castração e, ainda, para arrematar, abrindo o cofre do tabu. Taurino sorriu com desprezo, dizendo que o argumento se valia de explicações em demasia para coisa tão simples como tesão. Que tinham perdido, ponderou Silvério.
Foi armado um palanque à frente da Prefeitura Municipal para o desfile de Vinte de Setembro. Silvério recebeu convite para ocupá-lo ao lado das maiores autoridades do Município. Também foi convidado por Clara para a solenidade na Vila. Confirmou presença nos dois eventos, na certeza de que, bem administrado o tempo, poderia, de carro, chegar ao segundo palanque antes da passagem dos Lanceiros Negros.
Os cavaleiros entraram sem atraso na Vinte de Setembro para o esperado desfile comemorativo da data que lhe dava o nome, tendo à frente as bandeiras do Brasil, do Rio Grande do Sul e do Município. Silvério se arrepiou ao vir-lhe à mente a lembrança do mural que resistira ao incêndio frente à visão dos homens de preto, montados em cavalos tordilhos, que conduziam os pavilhões. Um era o Delegado de Polícia, outro o Presidente da Câmara de Vereadores e, o terceiro, o Vereador Líder da bancada da Situação. Faltava no desfile o quarto cavaleiro. Estava no palanque? Silvério não conseguia tirar os olhos deles, aplaudidos pelo Prefeito ao reverenciarem-no. Se eram culpados, nunca se saberia: falta de provas, prescrição, anistia. Clara ainda tinha como certo o envolvimento deles na morte do marido. Novamente ausência de provas. Associando idéias, Silvério lembrou do general chicoteando automóveis no dia da primeira votação da Emenda pelas eleições diretas.
Dedé, na Vila, precedeu os Lanceiros Negros. Balbuciava vivas para o público. Silvério achou que bradava “legalidade”, palavra de ordem do passado. Encerrou seu desfile à frente da Tempo de Redenção, aplaudido e ridicularizado. Clara permitiu que ele subisse ao palanque.
O Novo Tempo promoveu baile ao rigor da cartilha do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Silvério sentou à mesa reservada pelo hoteleiro. Josefa não pronunciou uma única palavra, como nas idas à missa das cinco, parecendo tão muda quanto a filha. Num momento em que as mulheres foram ao toalete, Silvério perguntou a Francisco se tinha que interpretar o silêncio de Josefa como mostra de desapreço. Francisco garantiu que não:
— É só o jeito dela. Se parou “asi” desde que “nosotros” percebemos que “la niña” era muda, só não sei se pelo hábito de “hablar” com ela por gestos... Nunca me disse. Só me “habla” sim e não quanto ao resto. E quanto a “eso”, nada.
Silvério se deu por satisfeito com a resposta. Foi a primeira vez que dançou com Mariana. Foi a primeira vez que ela dançou na vida. Achou que ela não teve dificuldade em seguir-lhe os passos, rodando no tablado, com permissão do pai e sob o olhar zeloso da mãe. (continua amanhã).
Escrito por Jerônimo Jardim às 04h55
[ ]
[ envie esta mensagem ]
BLOGUE, SITE E FOTOS
Gracias George Arrienti pela crônica sobre minha apresentação na Livraria Cultura publicada em seu blogue de elaborados textos www.george.arrienti.zip.net
Para os que me perguntaram e para quem eventualmente tenha interesse em saber sobre minha história musical desde a infância, atualizado até 2.006, basta entrar no meu site www.jeronimojardim.com, clicar em depoimentos e depois em Pentagrama e Vida de Artista.
Gracias amigas Cristina e Lusiane e minha prima Eliana pelas ótimas fotos da apresentação na Cultura.
Até a próxima.
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
SERAFIM DE SERAFIM - XV - pag. 41 (continuação)
— Nos tornamos crentes, quem diria! — Comentou um dia com os amigos quando saíam da Tempo de Redenção.
Taurino, em resposta, disse que ia aos cultos por ser amigo da Vila. Alex declarou que era católico não-praticante e que sua freqüência se devia ao fato de Clara dizer coisas que achava interessantes e às vezes engraçadas a respeito da Praga e dos novos tempos. Jovito, por sua vez, explicou que era católico porque nunca pensara a respeito da fé praticada por outras religiões que sequer tinham representação na cidade, e que ia aos cultos para acompanhar os amigos. Silvério preferiu não comentar suas razões. Postos os pontos em seus devidos lugares, acendia vela à Mariana, não por ser a Santinha da Vila Podre, certamente. Ao Prefeito porque apoiara a Novo Tempo Incorporadora. Ao Padre porque representava a Igreja, dona do terreno em que erigia o complexo turístico. À Clara porque a Vila Podre fornecia mão-de-obra. Ao povo do centro porque detinha o capital. Era um interesseiro. E quem não o era? Todos sabiam que estava apenas cavando um lugar no destino. Então também o acolhiam por interesse. Isentou-se de culpas. Cabia aos invejosos condená-lo, se quisessem, nos falatórios de esquina; não ele, seu maior protetor no mundo.
— Como compatibilizar o lucro advindo dos turistas que vêm à cidade para vedar a torneira da procriação com o desejado florescimento dos ventres à chegada do Filho de Deus? — Clara um dia questionou seus fiéis no culto.
— Ainda bem que Serafim não está no mapa do Céu. — Disse o Prefeito, ao saber das palavras da Pregadora.
— Deus, em sua infinita sabedoria, estabeleceu essa cota de sacrifício para os fiéis desta paróquia. — Cornélio tergiversou no sermão.
Não havia o que se falasse nos cultos que não repercutisse nas missas e vice-versa. Cornélio ainda acreditava que os crentes da Tempo de Redenção regressariam à fé católica. No entanto, sob a regência da nova líder, a seita parecia se fortalecer, disputando palmo a palmo a afluência de turistas que, como Silvério, para atingirem seus desígnios, pactuavam em qualquer plano, terreno ou sobrenatural.
Nos poucos dias de existência o galpão do acampamento já contava com a freqüência de pessoas que antes timidamente saíam de seus lares. Renasciam para o convívio social damas, antes flores murchas aos quarenta e poucos anos, para flertar com garanhões, solteiros e casados, que buscavam a esterilização. Homens, anteriormente desprovidos de desejos, iam ao acampamento exercitar o jogo da conquista buscando mulheres que se demonstrassem disponíveis e sem aspiração de maiores compromissos.
Diante desse quadro, Silvério teve a idéia de armar um tablado de danças. Contratou músicos. Em seguida precisou formar equipe de segurança para controlar os conflitos nascidos da indignação de turistas com o assédio de nativos de ambos os sexos a seus cônjuges.
Foi na distração de um marido fisgado por olhos nativos, que Silvério se deixou seduzir por uma esposa ofendida. Roubou-a da mesa num lance de audácia e, em poucos minutos, atrás do galpão, sobre a relva, em penetração tão ávida quanto assustada, comprovou-se a ansiada recuperação da virilidade, sem saber como ou graças a quê, livre da dor.
— Não sei como corri tantos anos atrás de potrancas de vinte anos se as quarentonas são muito melhores. — Disse Taurino que, a exemplo de Silvério, Jovito e Alex, também já haviam furtado relações sexuais, como se vangloriavam na roda de chimarrão. Clara advertiu particularmente Silvério do perigo da conversão do Novo Tempo em contemporâneo modelo de Sodoma e Gomorra, demonstrando-se sabedora das aventuras amorosas. Publicamente, poupando-o na prédica, acusou de permissivo o vendilhão do templo, adjetivo que atribuiu ao Padre, levando-o a externar enorme ira nos sermões, aumentada pela frustração quanto à pretendida conquista das almas que, mal supusera, restariam em orfandade espiritual depois da morte do Pastor. Silvério percebeu que Clara, mais do que os motivos revelados, visava a escorraçar o velho lobo católico das cercanias de seu rebanho. (continua amanhã).
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h30
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ ver mensagens anteriores ]
|