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REVISÃO DO REVISADO

A publicação da novela página à página me oferece diariamente a oportunidade de revisar mais detidamente os originais. Sempre existe uma frase para melhor elaboração. Sinto isso mais claramente agora, como leitor. Alguns autores nunca mais lêem seus livros depois de publicados. Mas existem os que alteram até conteúdos para nova edição. Particularmente, eu acho que, depois de publicada a obra, só cabe corrigir "pequenos defeitos". Quanto aos "grandes defeitos"? Azar. São a própria obra. Agradeço o acompanhamento da publicação aos meus poucos mas qualificados leitores.

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h29
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SERAFIM DE SERAFIM - XV - pag. 40 (continuação)

XV — O VINTE DE SETEMBRO

 

 

Só Clara e seus fiéis, estes persuadidos com alguma dificuldade, pois também experimentavam benefícios, não se deixavam contagiar por inteiro pela euforia serafinense decorrente da notável e rápida ascensão do padrão de vida. Ela dizia nos cultos ter meditado muito a respeito para concluir que o recente progresso se originava das condenadas declarações do Pastor e que os frutos mediatamente colhidos não passavam de tentação similar à de Adão, somente colocada por Deus ao alcance dos homens para medir o grau de fidelidade às razões maiores da existência. Pregava que fora dada aos pobres somente a oportunidade de coletar as migalhas caídas da mesa dos ricos, o que não se confundia com a bem-aventurança prometida, por tratar-se de ilusória, paliativa e perigosa benesse, que logo se revelaria obstáculo à frutificação dos ventres, objetivo do qual não poderiam se desviar, sob pena de ofensa ao Salvador. Aconselhava, todavia, que não fossem recusadas as vantagens, porque também perdoada tal fraqueza bíblica ao primeiro homem posto no mundo e porque necessárias à saúde carnal, desde que não se olvidassem dos princípios animadores da seita. Assim, conciliava os interesses mediatos dos fiéis, o que evitava o risco de perdê-los, com os objetivos da Tempo de Redenção, sem perder coerência.

Os argumentos da Pregadora ganharam força no dia em que os moradores da Vila souberam que os organizadores do desfile de Vinte de Setembro, que não ocorria desde o primeiro ano da Praga — nem o Sete de Setembro era festejado —, revitalizado pelo Prefeito para alegrar os turistas, conquanto a cavalo todos os demais participantes, tinham-lhes reservado a exclusiva deferência da participação a pé, na ala denominada Lanceiros Negros. Recusaram a participação, sob a orientação de Clara, comunicando que festejariam a data farroupilha com passeio a cavalo na própria Vila, que teria sua culminância em palanque armado à frente da Tempo de Redenção, onde ela estaria com seu séquito de oráculos e convidados especiais.

O Prefeito ficou possesso com a manobra, como indiscretamente comentaram seus assessores, mas preferiu não externar publicamente a indignação. Em situação crítica que faça periclitar o poder, melhor, para mantê-lo, conceder pequenas reivindicações à turba do que enfrentá-la com possibilidade de derrota, teria dito. O certo é que, alegando mal-entendido, os organizadores permitiram a participação montada do pessoal da Vila.

— Ainda bem, porque os Lanceiros Negros também lutaram a cavalo. Só foram enviados à luta a pé quando os comandantes farrapos quiseram-lhes trucidados. Vamos participar do desfile para não omitir a representação dos negros e pobres da rememoração desse, por muitos aspectos, lamentável episódio da História. Bom que os ricos saibam disso, ainda que pelos traidores que freqüentam nosso apostolado. — Clara declarou no culto, para justificar a adesão ao desfile oficial, do qual muitos dos fiéis desejavam participar.

O Prefeito tomou conhecimento da fala da Pregadora por meio dos asseclas aos quais ela se referira, que há anos ele mantinha sob contrato para espionar as ocorrências da Vila. 

— Assim como o Governo está engolindo os movimentos populares pelas diretas, o Prefeito está permitindo a indigesta participação da Vila: se babando de raiva! — Comentou Taurino.

Silvério, por força da relação de negócios com o Padre, ao que agregou o prazer da companhia de Mariana, já que lhe fora permitido por Francisco acompanhá-la, passou a ir à igreja duas vezes por semana. Estivesse onde estivesse, não esquecia o compromisso de encontrar mãe e filha para a ida à missa. Continha o mal-estar que lhe provocavam as confissões, absolvições e degustação de hóstias.

Taurino passou a freqüentar os cultos de Clara, embora sem admitir adesão à crença, levando consigo os amigos. Silvério ia porque carecia de passe livre na Vila e não desejava a Pregadora posicionada contra o empreendimento, pois poderia perder a mão-de-obra local. Era difícil o agenciamento de trabalhadores, de outros municípios, dispostos a se exporem à esterilização. Mas os credos só lhe interessavam por causa dos negócios. Continuavam sem oferecer resposta às suas dúvidas agnósticas, assim como Mariana às necessidades da carne, casta como a mais casta das mulheres. (continua amanhã).

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h14
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SERAFIM DE SERAFIM - XIV - pag. 39 (continuação)

Cornélio saiu a campo entusiasmado, de casa em casa. Conseguiu marcar encontro na Câmara de Vereadores, com apoio do Prefeito e do Presidente da Casa, que não contavam com a estima de Taurino, mas tinham influência junto à comunidade.

Silvério reconheceu no Prefeito o homem de barba que vira no Opala branco a espiar a entrevista de Chico Manivela na tarde antecedente à noite da tragédia que motivou a abertura de inquérito, arquivado por falta de provas.

Os homens mais abastados da cidade foram convencidos a investir suas poupanças na construção de centro turístico incorporado pela Igreja e administrado pelo proponente, o forasteiro que se estabelecera para injetar divisas na parca economia local e que, só por isso, já merecia as chaves da cidade, como discursou o Prefeito, arrancando aplausos.

Resolvidos os trâmites legais e disponibilizado pelos investidores o valor de suas cotas, Silvério deu início às obras no sítio, aos fundos do acampamento. 

Cornélio, com alegria infantil, também iniciou a reforma de que tanto carecia a igreja, começando-a por seus cômodos particulares. Mais emprego para a mão-de-obra da Vila Podre; fiéis de uma crença reconstruindo a sede da outra.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h48
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GALINHEIRO A PERIGO

Adiantará tirar o GALO se o galinheiro está contaminado?   

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h17
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SERAFIM DE SERAFIM - XIV - pag. 38 (continuação)

XIV — O NOVO TEMPO

 

 

Taurino cancelou a excursão do fim de semana, o que deixou Silvério aliviado, pois não pretendia se afastar das obras. Decidia sobre tudo, mantendo o Padre convenientemente à distância, apenas informado das iniciativas. Por outro lado, a sede de sexo e a vontade de testar-se fora relegada diante do volume de tarefas que o ocupavam quase por inteiro. Até em Mariana não pensava amiúde e com o desejo da primeira ereção sem dor desde a doença. Tinha uma obra a realizar, que se oferecera de bandeja ou que apanhara ao ficar ao alcance e que se prometia maior e mais rentável do que as mais otimistas previsões. Todo o dia era um se desdobrar quase mágico para o acolhimento dos turistas, de contabilizar as acomodações. Resolvera cobrar ingressos antes de acabadas as obras, com permissão de Cornélio. Haveria um dia tempo para o lazer e para o esperado teste. Dizia um dístico que o melhor da festa era a expectativa. 

Investiu em material de construção e em salários quase todo o dinheiro que economizara para a viagem, aumentando o número de operários. Soube que Clara também virava dia e noite na reconstrução do templo.

Em menos de uma semana concluíram as obras, quase juntos. Os cultos recomeçaram na Tempo de Redenção. No acampamento alugavam barracas e cobertas. Foram devolvidas as emprestadas ao quartel de Bagé com carta de agradecimento firmada por Cornélio. Silvério soube, vendo a cópia arquivada, que Francisco solicitara o empréstimo em nome da Igreja, com a concordância do Padre, o que ignorava, mas não se incomodou.

Francisco se desdobrava no atendimento aos dois estabelecimentos, o hotel e o restaurante do acampamento, onde Mariana tinha preferido trabalhar, segundo interpretação envaidecida de Silvério, por sua causa. Cornélio rezava missas matinais no acampamento um pouco antes dos banhos. Adicionava o poder da fé às presumidas forças naturais que proporcionariam à desejada infertilidade. Ao menos assim era interpretado pelos turistas o serviço religioso, como soube Silvério. Cornélio arrecadava óbolos, acrescendo-os aos recursos advindos diretamente do negócio. Não mais imprecava contra a intenção anticonceptiva dos turistas, parecendo convencido de que a busca da esterilidade natural nada tinha a ver com os métodos condenados pelo Papa.

Já na primeira quinzena de setembro os serafinenses experimentavam resultados do capital injetado pelos visitantes na economia local. O clima de prosperidade animava a cidade e todo o Município, do nascer ao pôr do sol. Artesãos que tinham abandonado o ofício há muito tempo surgiram nas ruas com seus badulaques. Pintores quase esquecidos de seus dons voltaram às praças. As padarias precisaram de mais farinha e passaram a fabricar o quádruplo de biscoitos e pães. Os açougues estocavam mais carne para abastecer o acampamento. Foram reativados dois matadouros. Os fazendeiros passaram a vender o gado com melhores ganhos, dispensados de embarcar o rebanho inteiro para outras plagas. Particulares começaram a reformar suas casas. Dezenas de pessoas da Vila Podre circulavam no acampamento vendendo bolos e pastéis. Costureiras criavam modelos em trapos tingidos. A Igreja coletava polpudos óbolos nas missas. A aparição de Chico na TV, sua morte em circunstâncias questionáveis e a fama dos cânticos entoados nos cultos e disseminados no acampamento, levavam os mesmos turistas que iam às missas ao templo restaurado da Vila Podre, onde Clara arrecadava contribuições espontâneas e deitava pregação contrária à intenção dos turistas, que pareciam nada ouvir quanto a esse ponto. Poucos serafinenses se mantinham ocultos na vergonha da esterilidade. Silvério ficou impressionado com o depoimento de Alex de que muitos internos do Hospital dos Aflitos, ao saberem que gente chegava a Serafim para ficar estéril, mostravam-se inclinados a aderir aos tempos de bonança.    

Silvério recuperou em poucos dias parte do dinheiro investido. Mas achou pouco o que até então tinha sido feito diante do que o futuro prometia para quem tinha olhos para prevê-lo, como ele, embora não soubesse de onde viera tão de repente o tino para negócios. Talvez tivesse faltado oportunidade para descobri-lo. Convenceu Cornélio a convocar reunião de notáveis, para a qual deveriam ser chamados cidadãos que dispusessem de recursos, com o propósito de a Igreja oferecer-lhes participação societária na Novo Tempo Empreendimentos.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h09
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SERAFIM DE SERAFIM - XIII - pag. 37 (continuação)

Antes de se dirigir ao acampamento, encomendou pela razão social do Hotel — havia acertado a forma de extração da fatura com Francisco —, o fornecimento a curto prazo de barracas e utensílios que seriam necessários para substituir os emprestados pelo Exército. No horário combinado o mestre-de-obras se apresentou no acampamento. Silvério o esperava, conversando com turistas. Alguns se despediam, gratos pelas gentilezas. Outros informavam que só à tarde retornariam às cidades de origem. Os de menor pressa, os aventureiros, os que não se importavam com desconforto, e os precavidos — que, segundo eles, queriam tomar mais banhos de arroio, enlamearem-se mais em suas margens barrentas, beber mais da água da cidade, respirar mais de seu ar —, transmitiam a intenção de permanecer outra noite para garantir a eficácia da estada. Os visitantes que tinham conseguido se hospedar no Hotel Central chegavam ao sítio pedindo permissão para banho, que Silvério, assumido no comando dos negócios, concedia de bom grado. Vizinhos, em grupos, nas esquinas que cercavam o acampamento, apreciavam o movimento ímpar à distância.

Silvério elaborou desenho tosco — o mestre achou compreensível — do projeto que visava a atender os primeiros dias de demanda e que sabia poder suportar financeiramente até a entrada de dinheiro, que não podia tardar, mas que só ocorreria depois de montada mínima infra-estrutura de acolhimento aos turistas, não aquela improvisada para os primeiros. De posse do desenho, o mestre orientou os operários e deu início às obras, priorizando a construção de banheiros e um galpão para funcionamento do restaurante que Francisco exploraria como concessionário.

A estrada de acesso a Serafim transformou-se num vagão de poeira naquele segundo dia da revelação, marcando o rastro dos forasteiros. Vendo a manchete do jornal abandonado por um deles, que dizia: “Serafim, cidade anticonceptiva natural”, Silvério atinou mandar confeccionar placa para substituir a anterior com esses dizeres entre aspas, mais o nome do jornal e o do autor da matéria, acrescida da frase, essa em tamanho minúsculo: “sua visita pode levar à esterilidade”. A nova placa advertia da esterilidade para os que não a pretendiam, ao mesmo tempo em que a alardeava para aqueles que a objetivavam, mas sem garantia de eficácia, precaução que entendeu necessária. Encarregou Cornélio de obter licença para trocar a placa, o que foi conseguido sem dificuldade, mediante pagamento de taxa ao Município. Cornélio não discutiu a exigência municipal. Silvério não o criticou por isso. Não havia tempo a perder com mesquinharias perto do que o futuro prometia. Naquele mesmo dia foi feita a troca.

Agora a cidade queria forasteiros. E um forasteiro parecia ter encontrado nela seu destino.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 04h49
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VERGONHA SOBRE VERGONHA

Quando a gente pensa que não vai ter mais do que se envergonhar dos políticos que colocamos no Congresso Nacional, me vêm com essa do arquivamento da CPI RENAN CALHEIROS. Eles nos desprezam, simplesmente. Somos nada, pra eles. Nada mais que votos nas urnas, desprovidos de crítica e memória. 

Escrito por Jerônimo Jardim às 09h07
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SERAFIM DE SERAFIM - XIII - pag. 36 (continuação)

XIII — AS PRIMEIRA OBRAS

 

 

Terminada a missa, Silvério acompanhou os turistas à porta da igreja. Não precisou indicar-lhes o rumo. Localizava-se na mesma Avenida Vinte de Setembro de onde podiam avistar os carros estacionados à frente do hotel. Salivavam na expectativa da janta. Silvério lembrou-os de que deveriam aguardar as providências que estava tomando.

Cornélio concordou com o restante do plano, que exigia intensa atividade nas próximas horas. Silvério, além de conseguir o favor do Exército, se andasse rápido e conseguisse mão-de-obra na Vila Podre, pretendia instalar naquela mesma noite iluminação e latrinas para que os turistas se aliviassem das necessidades fisiológicas no acampamento. Precisaria torcer para que não mudasse o tempo, pois não conhecia as condições do terreno do sítio.

— É lamacento quando chove. Mas Deus não há de permitir que chova. — Disse Cornélio, perguntado a respeito, olhando nuvens esparsas no céu, algumas muito baixas e no matiz indicativo de possível precipitação.  

Silvério, à entrada do hotel, recebeu de Francisco a notícia de que em uma hora estaria chegando uma caminhonete do Exército na boca da estrada vicinal com dez barracas com capacidade para abrigar de cinco a seis pessoas cada uma. O comandante as emprestara, negando-se contudo a entregá-las no acampamento, temendo a contração da esterilidade pelos soldados. Francisco informou que já conseguira quem fosse buscá-las. Silvério ficou satisfeito com a quantidade e capacidade das barracas que viriam. Previa demanda maior para os dias seguintes. Considerando o rodízio dos turistas, achou que o empréstimo daria para os primeiros dias. Nesse ínterim providenciaria a compra de outras. Juntamente com as barracas, segundo Francisco, o comandante estaria enviando catres, colchões e cobertas.

Tranqüilizou-se quanto ao atendimento aos forasteiros. Conversavam animadamente enquanto Josefa preparava a janta com o auxílio da filha.

Pondo em execução outra das etapas do plano, dirigiu-se à Vila Podre, o sol já imergindo no horizonte. Temia que o luto tornasse difícil a obtenção de mão-de-obra. No entanto, Clara se mostrou disposta a ajudá-lo, dizendo que trabalho não podia ser enjeitado em nenhuma circunstância e que, embora à primeira análise não passasse de mero paliativo, prenunciava a escalada aos profetizados dias de fartura e fins maiores da seita.

Não demorou muito para que, no caminhãozinho do falecido Pastor, cedido por ela, estivessem embarcados vinte operários munidos de ferramentas e prontos para a empreitada noturna, os mesmos que iniciariam em mutirão, no dia seguinte, a reconstrução do templo.

Com vizinhos do sítio Silvério conseguiu extensão de luz para iluminar as obras mediante prometida compensação financeira. Antes das onze da noite os turistas, elogiando o jantar, se instalaram nas barracas do Arroio do Padre. Silvério agradeceu e remunerou os trabalhadores. Sabendo que estavam comprometidos com a reconstrução do templo de Clara, solicitou ao operário que assumira a condição de mestre-de-obras que conseguisse outros tantos pedreiros para os melhoramentos que pretendia implementar. O obreiro aceitou a empreitada, que comandaria juntamente com as do templo, comprometendo-se à apresentação dos operários às nove da manhã no local das obras. 

Silvério demorou a conciliar o sono, ansioso pelo raiar de seu quarto dia em Serafim, que se prometia de muito trabalho. Não se lembrava de se sentir tão útil na vida, nem nos primeiros e inseguros tempos da advocacia como empregado de famoso advogado trabalhista que miraculosamente se salvara das perseguições políticas e pagava mixarias aos colaboradores. Nunca se imaginara à frente de qualquer tipo de empreendimento, por modesto que fosse.

Pôde desfrutar de manhã, na hora do café, de manifestações de apreço dos turistas hospedados no hotel — que nem tinham precisado de suas providências —, do atendimento da Santinha, e da boa vontade do hoteleiro, que se mostrava grato pelo que fizera. Achou ótimo, diante das pretensões que começava a alimentar quanto à guria. Nos últimos anos aquela deveria ter sido a noite de mais trabalho, mas também de maior faturamento do Hotel Central. O acaso tinha parte nisso, mas não na criação das soluções, na organização do jantar para trinta talheres, na geração de expectativas. Disso atribuía-se os méritos, certamente os mesmos que Francisco lhe estaria atribuindo.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h11
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DE VIVA VOZ

Gracias pela presença. Valeu. 

 



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h29
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SERAFIM DE SERAFIM - XII - pag. 35

— Bem, agora não é o que interessa discutir. A questão é de solidariedade humana. Os turistas não têm onde parar. O hotel está lotado. Não têm como se lavar, fazer xixi, cocô...

— Onde a Igreja entra nisso?

— Me disseram que a Igreja é dona do Arroio do Padre. Não existe comprovação de que a cidade seja anticonceptiva, mas o Jovito acha que o arroio tem uma fonte medicinal nas nascentes.

— O arroio nasce ali mesmo. Se é fonte medicinal, não sei. — Disse Cornélio.

— Pois é. Mas indo ao que é urgente. Se o senhor abrir a porteira pro pessoal acampar lá, se bem que os coitados nem barraca têm, não vieram preparados, vamos ter que achar um jeito pra isso, não quer dizer que aprove ou que esteja oferecendo a eles a esterilidade, o senhor não acha?

Cornélio ponderou por instantes.

— Qual a vantagem da Igreja? — Interrogou.

— Além do ato de solidariedade cristã? A venda de ingressos e outras coisas mais. É aí que poderemos negociar. O senhor deixa abrir a porteira do sítio hoje, ao menos pra que os coitados estacionem, durmam nos carros, façam o que bem entenderem, se a gente não arrumar barracas, colchões e cobertas pra eles acamparem... Se bem que já tenho idéias pra tentar conseguir as coisas. Podemos tentar contato com o Exército nas cidades vizinhas pra que nos emprestem. Aí só as necessidades vão ter que fazer no mato... mas só por hoje. Amanhã a gente arma umas casinhas pra quebrar o galho e delimita uma área de acampamento. Em seguida a gente constrói banheiros, galpão com cozinha para servir almoços...

— O senhor parece bem disposto e imbuído da intenção de realizar a proeza que se propõe. Acontece que a Igreja não tem capital, como já pôde notar. A pobreza está até na mesa deste sacerdote...

À vista do prédio da Igreja e das míseras fontes de receita, Silvério poderia concordar. Mas na parte referente à mesa tinha dúvidas; se bem que Cornélio tinha a fama de chegar na casa dos fiéis à hora das refeições, o que permitia admitir a hipótese de indigência alimentar, apesar de sua aparência bem nutrida.

Silvério explicou o plano:

— É aí que eu entro, Padre. Ofereço capital inicial e trabalho. Pra início de conversa, eu tenho algumas economias. Só que não invisto nem trabalho de graça. A gente combina a minha percentagem. Depois procura outros investidores se continuar vindo gente, o que eu não só acho que vai acontecer como vai aumentar muito, a não ser que falte estrutura... O senhor já pensou? Hoje vamos lá falar com os turistas, oferecer solidariedade. Mas em poucos dias estaremos cobrando ingresso, vendendo estada, comes e bebes... Vai dar pra reformar a igreja!

Cornélio esfregou as mãos. 

— Será que foi por isso que Deus o trouxe aqui? — Emergiu dos pensamentos. — Deixe eu rezar a missa. Enquanto isso, vá acalmando os turistas. Aliás, melhor: diga a esses cristãos em intenção de pecado que venham a tempo do sermão. Ah! Venha junto com eles pra gente conversar melhor. As ovelhas desgarradas merecem maior atenção. — Sorriu maquiavélico. — O senhor não me viu com os fiéis da seita da Vila? Vamos trazer as ovelhas de volta pro rebanho. — Dirigiu-se para o altar. Voltou-se para acrescentar. — ... E não vão precisar fazer as necessidades no mato. Podem usar o banheiro da igreja.

Silvério saiu da entrevista animado. Acelerando o passo, chegou rapidamente ao hotel. Antes de se dirigir aos turistas, falou com Francisco. Contou-lhe em poucas palavras a conversa com o Padre e parte de seus planos, dizendo-lhe que lhe reservaria interessante participação nos negócios, a princípio como fornecedor de refeições. Diante da receptividade, não se constrangeu em delegar ao hoteleiro a tarefa de ligar para quartéis das cidades vizinhas e pedir por empréstimo, na emergência, barracas e utensílios de campanha. O exército andava sequioso de prestar serviços à sociedade civil. Após, deu as boas novas aos turistas que o seguiram a pé para a missa, depois de acertada a janta no hotel.

Cornélio lançou no sermão com intenção crítica o tema do controle da natalidade. Disse que o fenômeno não estava ao alcance da compreensão humana. Era carga a suportar decorrente da vontade divina. Prometeu, ao final, que iria amparar os visitantes naquela eventualidade. Os turistas não perceberam as sutilezas do discurso. Sentiram-se acolhidos pela Igreja naquela cidade anticonceptiva, por dom natural e pela graça de Deus. (continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h17
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