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DE VIVA VOZ - LIVRARIA CULTURA
É HOJE, ÀS 19h30'. ATÉ LÁ.
Escrito por Jerônimo Jardim às 09h34
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SERAFIM DE SERAFIM - XII - pag. 34
XII — OS PRIMEIROS NEGÓCIOS
Francisco hospedara seis casais. Para os demais demandantes oferecia justificativas insatisfatórias. Não havia como se conformarem com a falta de acomodações.
Silvério pegou a chave e se livrou do burburinho. Ao invés de ir para o quarto, dirigiu-se ao pátio do hotel, onde encontrou Mariana alimentando dezenas de pombos, que vinham comer em sua mão. Achou-a muito mais bonita do que a imagem guardada na lembrança. Aproveitou que ela não o tinha visto para admirá-la. Só então percebeu que também era observado. Disse um “boa-tarde” à mulher magra que o vigiava da porta da cozinha. Só podia ser ela, Josefa — finalmente lembrou o nome dela —, a mãe de Mariana. Mariana notou a presença de Silvério ao ouvir o cumprimento. Olhou-o e sorriu. Ele devolveu o sorriso. Aproximou-se da mulher que o fitava com seus desconfiados olhos negros.
— A senhora é a Dona Josefa? — Ela assentiu discretamente. — O seu tempero é maravilhoso. — Elogiou sem obter nem um “muito obrigado”.
Afastou-se com mesura que a ele próprio pareceu exagerada. Deu um abanico para a moça. Recolheu-se ao quarto. Jogou-se na cama. Em que geração estariam os olhos azuis de Mariana? Interrogou-se, lembrando-se de Josefa e Francisco.
Ouvia os protestos dos turistas inconformados.
Alguém referira a existência de um sítio chamado Arroio do Padre — exultou por lembrar o nome —, não sabia se Taurino ou um dos outros amigos, onde existiriam águas com propriedades medicinais. Alegrou-se por também recordar que fora Jovito. Brotou-lhe repentina idéia. A quem pertenceria o tal sítio?
Obedecendo a impulso repentino, correu à portaria.
Interrompeu o atendimento atrapalhado que Francisco dava aos turistas em portunhol.
— Isso pode lhe ajudar a se livrar do problema, se o que tenho em mente der certo. O senhor sabe quem é o dono do Arroio do Padre?
— “La Iglesia”. — Respondeu o hoteleiro sem titubear.
Silvério agradeceu a informação e saiu decidido a falar com Cornélio. Quase corria na rua. Tinha que agir, tomar muitas providências antes que chegasse a noite. A intuição lhe dizia que poderia solucionar provisoriamente o impasse. Entrou pela lateral do templo, presumindo que daria direto na sacristia. Bateu à porta. Estava com sorte. Cornélio abriu-a. Paramentava-se para a missa das cinco, atrasada por causa da ida ao cemitério.
— Padre, venho a negócios.
Cornélio se mostrou interessado. Convidou-o a entrar, mas não a tomar assento. Silvério começou a explicar a idéia que lhe ocorrera ao ouvir o tumulto que os turistas provocavam no hotel:
— A cidade está com um problema...
— Problema é o que não nos falta. — Disse Cornélio, sorrindo.
— Não estou falando do que o senhor pensa. Falo do que está ocorrendo por causa da notícia na TV. A cidade está cheia de gente, como o senhor viu. Está um tumulto lá no hotel. Sabe por que vieram? Pra se esterilizar. Não é engraçado? Os daqui sofrem por causa do mal e outros vêm pra se beneficiar dele.
— Gente louca! — Disse Cornélio. — A Igreja é contra. Só aceita a tabela, pra controle da natalidade.
— O pessoal daqui, sei lá como, toma anticoncepcional já faz vinte anos, Padre!
— Mas por vontade de Deus. E nem se sabe se toma alguma coisa pra isso...
(continua amanhã)
Escrito por Jerônimo Jardim às 04h38
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ANIMÁLIA
Depois desse híbrido de cavalo com zebra, essa história petiça de gaúcho se desapertando nas barrancas pode dar na própria. Ainda que o parentesco por gênero seja bem mais distante do que o parentesco entre aqueles que andam de quatro, é bom a gauchada abrir o olho e se segurar nas bombachas.
Escrito por Jerônimo Jardim às 13h51
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É AMANHÃ, NA LIVRARIA CULTURA DO BOURBON COUNTRY, ÀS 19h30' - INGRESSO: 1 QUILO DE ALIMENTO. ATÉ LÁ.

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h58
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SERAFIM DE SERAFIM - XI - pag. 33
O féretro seguiu rumo ao cemitério acompanhado a pé pelo povo liderado pela nova guia espiritual. Silvério dirigia o fuca e Taurino a caminhonete, com Jovito e Alex em sua companhia. Cornélio seguia o caminhãozinho que conduzia o ataúde. Equilibrava-se com desenvoltura sobre a moto obsoleta. Quando ingressaram na estrada foram surpreendidos por trânsito de automóveis em sentido contrário. Doze carros chegavam quase em fila a Serafim. As placas permitiam identificar diversas localidades de origem. O povo, tapado de pó, observava a maciça chegada de forasteiros, sem descuidar dos cânticos e das rezas nem se afastar da marcha fúnebre.
Na hora de baixar o caixão à sepultura, Clara tomou a palavra:
— Hoje é um dia marcante da nossa história. Enterramos o nosso querido guia, vítima dos cavaleiros do mal. Inimigos também teve Jesus. Foi crucificado. Mas seu lugar estava garantido ao lado do Pai. Nosso Guia está na paz do Senhor. Seguirá olhando por nós. E o Filho de Deus, como ele sempre pregou, breve virá para nos salvar. Os pecadores serão castigados. As espadas deles não são nada contra a espada do Senhor. Ela os alcançará. Os bons se salvarão na fé que nos anima. Amanhã começa a reconstrução do nosso templo. O Doutor Taurino nos chega como instrumento do Senhor para dar teto à nossa crença. Viva a Tempo de Redenção. Viva nosso Pastor. Viva Jesus.
Clara deu mais três vivas, repetidos em coro pelos presentes. Após, concedeu a palavra ao vigário, que insistentemente a solicitava. Silvério pôde constatar poucas diferenças entre os discursos, especialmente onde Cornélio omitira a representação divina do Pastor.
Até a última pá de terra ecoaram cânticos no cemitério. Não compareceram políticos ao funeral. A solenidade transcorreu em paz. Mas, a seu término, Cornélio não poupou Taurino:
— O senhor constrói o templo para uma seita e não dá um tijolo para a Igreja!
Taurino não retrucou. Talvez porque estivesse cansado, sem disposição para rebater a queixa; ou porque não lhe interessasse assuntar com o Padre sobre as razões de sua prodigalidade, pensou Silvério.
Alex e Jovito, terminada a cerimônia, embarcaram na caminhonete de Taurino depois de se assegurarem de que Clara não precisava de outros favores. Silvério aproveitou que estava no cemitério para visitar o túmulo de Carlinhos. Encontrou-o sem dificuldade, coberto de flores, pedidos de graças, bilhetes de gratidão pelas alcançadas, revoado por tantas borboletas que seria de jurar que ali tinham sua morada. Não se demorou. Estava ansioso por saber a razão do movimento ímpar. Ao se aproximar do centro, um carro buzinou insistentemente atrás, tentando chamar-lhe a atenção. Havia um casal no carro com placa de Porto Alegre. O motorista gesticulava. Silvério parou.
— O senhor pode informar onde se encontra um hotel?
Silvério deu a informação. Se todas aquelas pessoas que chegavam queriam hospedagem, a metade desocupada dos doze quartos do Hotel Central seria insuficiente para acomodá-los, pensou.
— Se o senhor não me leva a mal, a que vêm? — Aproveitou o ensejo para satisfazer a curiosidade. Lembrava-se do que Taurino dissera à chegada dos repórteres: mais gente para a castração.
— Pra esterilização natural, amigo! — Foi a resposta sorridente, não dissimulada. — Vimos na TV que a cidade é anticonceptiva. Temos cinco guris arteiros em casa. Queremos fechar a fábrica!
Curiosidade satisfeita. Vinham porque queriam. Simples como prever o tumulto que se estabeleceria na portaria do hotel.
(continua amanhã)
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h48
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4.000 VISITAS
GRACIAS A TODOS.
Escrito por Jerônimo Jardim às 16h16
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SERAFIM DE SERAFIM - XI - pag. 32
— Ele tinha uma doença detectável, que não escondia. Não essa... de hoje. De qualquer modo, pelo que a gente ouve a respeito do Marques, dos que o admiravam, se as pessoas daqui fossem como ele, não sofreriam dessa obsessiva guarda de segredo que foi dar no que deu. — Comentou Alex.
— E daí estourou o escândalo, a certeza do povo de que Taurino, no mínimo, não era filho do homem que o assumiu enfrentando todos os preconceitos dessa nossa sociedade interiorana e idiota. — Jovito acrescentou.
— E o Chico, como é que ele ficou nessa história? — Silvério perguntou.
— Virou crente dos mais fervorosos da Igreja. Mas quando veio a Praga, passou a fazer discursos proféticos na Vila, desgostando Cornélio. Era admoestado publicamente do púlpito. Manteve a religiosidade, mas inventou a seita para praticar a religião a seu modo, unindo a fome à vontade de comer, já que também tinha diferenças com o pessoal da cidade por causa dos preconceitos, do boato, das piadas que ouvia aqui e ali sobre seu gosto por carne branca, de galinha. Depois veio a questão social, mas isso é outra história, bem mais recente, dos anos setenta, que despertou muito ódio. — Jovito respondeu.
— O Marques nunca tirou satisfações com o Chico? — Silvério queria saber mais.
— Dizem os que gostavam do Marques que ele era um homem refinado, que residira na Paris dos melhores tempos, que não podia ser medido pelos mesmos parâmetros dos demais. Por outro lado, a esposa teria dito a ele quem era o pai da criança? É bem possível, considerando-se o tipo de pessoas que eram, a cumplicidade que pode ter mantido a relação viva até a morte dele. Seja lá como for, havia como o Marques desconfiar, porque a Giselda, esse era o nome dela, nunca saía só da estância; e o Chico era dos poucos homens que a freqüentava, para consertar qualquer coisa que precisasse de conserto. Nalgumas vezes que ele ia à estância o Marques estava na cidade. O fato é que o Marques, nos poucos meses que viveu depois do nascimento do Taurino, continuou cliente do Chico, o que alimentou o falatório, dando-lhe a pecha de corno manso. Suportava calado a malícia do povo. Coisas do passado. Mas está aí, influenciando...
— Como a História. — Disse Silvério, agradecendo a seguir a confiança e o zelo dos novos amigos.
Regressaram à sala. Taurino ainda cochilava, alheio ao burburinho e aos cochichos.
Ia pela metade da manhã quando Clara foi chamada à frente de casa para receber inesperada visita. Cornélio a aguardava montado em sua moto. Clara convidou-o a entrar. Fez o sinal da cruz e pôs-se a rezar. Os crentes acompanharam-no, inclusive a viúva. Permaneceu no velório.
Na hora do almoço foram servidos sanduíches e refrigerantes, inclusive aos que estavam além da cerca do pátio frontal. O número de pessoas aumentou pouco a pouco. Perto da saída do féretro, marcada para as quatro da tarde, já havia em torno de trezentas pessoas nas redondezas, o que podia ser a quase totalidade dos moradores da Vila, conforme estimativa de Alex. Nenhum político compareceu, o que levou Silvério a deduzir que se incluíam, como a maioria dos habitantes da zona central, entre os magoados pela revelação. Silvério soube por Jovito que, segundo Taurino, o Delegado falara com Clara para que ela indicasse testemunhas e que ela dissera, por não confiar nele, não saber de ninguém que tivesse visto algo. Segundo Jovito, ela temia que, em vez de colher depoimento, ele desse sumiço no candidato a depoente; daí a omissão, não sem sentenciar que os culpados seriam penalizados pela justiça que não vacila nem erra, que a implacável espada de Deus já estaria desembainhada, pronta para castigar os impiedosos. (continua amanhã)
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h34
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DE VOLTA AO VIRTUAL
Depois de algumas brigas, estou voltando à internet. Espero que os serviços sejam melhores via telefone. Amanhã voltarei a publicar páginas da novela SERAFIM DE SERAFIM. Gracias pela paciência e pela atenção. Não esqueçam da minha apresentação sexta-feira próxima, 29.6.2007, na Livraria Cultura do Bourbon Country, às 19h30'. Ingresso: um quilo de alimento.
Escrito por Jerônimo Jardim às 21h06
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