SERAFIM DE SERAFIM - XI - pg. 31 (cont.)
XI — O ENTERRO
Quando vazou obliquamente no rosto por uma fresta da janela o primeiro sinal do terceiro dia em Serafim, Silvério despertou.
Não encontrou disposição para reatar o sono ao recordar o que ocorrera durante a noite. Tomou banho e, por mais vontade que tivesse de ver a Santinha, saiu sem café para a Vila.
Passou pelo templo incendiado. Ainda fumegava o monturo de carvão e cinzas em que tudo se transformara, à exceção da parede do mural que reinava no cenário da destruição.
No concorrido velório, além de Taurino, abatido e com a barba por fazer, já estavam Alex e Jovito. Também não tinham conseguido retomar o sono depois de acordarem à chegada do dia. Clara não se afastava do caixão. Após cumprimentar os amigos, Silvério se aproximou dela. Permaneceu a seu lado por alguns minutos, ouvindo-a lamuriar orações. Ao olhar novamente para Taurino, ele cochilava.
Silvério foi convidado por Alex e Jovito para conversa em particular, na rua. Serviram-se antes de café num canto da sala. A maioria das pessoas conversava em pequenos grupos no pátio frontal da casa, que se distinguia das demais porque não feita de tijolos de torrão cru, mas da mesma madeira em que fora construído o templo.
— O Taurino providenciou o serviço funerário e vai custear a reconstrução do templo. O povo da Vila vai começar as obras amanhã, em mutirão. — Informou Alex.
Silvério perguntou qual a ligação de Taurino com a seita. Nenhuma, disseram Alex e Jovito em afinado dueto.
— Silvério, a ligação dele é com o finado Chico, ao menos é o que se supõe. Eu e o Alex achamos que é melhor que tu conheças a história pra poupar constrangimentos, evitar que tu faças esse tipo de pergunta ao Taurino. Não nos sentimos culpados por revelar isso. Nós, como tu sabes, somos os amigos mais chegados, mas nunca tivemos coragem de tocar no assunto. Esperamos por iniciativa que nunca aconteceu, compreensível diante do amor e admiração que o Taurino tinha pela mãe e do respeito à memória daquele que lhe deu nome e herança, de quem nem teve tempo de guardar recordação. Duvidamos que não saiba da história. Quanto a ti, achamos melhor que tu a conheças por nós do que por terceiros, que podem contá-la distorcida e com maldade. Pois corre o boato de que o Taurino não é filho do falecido Marques...
— É filho do Chico. — Antecipou-se Silvério.
— Segundo o que comentam, sim. — Alex confirmou.
— Dizem que o Marques morreu de desgosto. Era apaixonado pela mulher. Não se separou, apesar da pressão social. Mas sua vida durou pouco. Ele e a mulher, desde a gravidez, passaram a evitar a cidade. Enfurnaram-se na fazenda. Mas ela era mulher de luta. Depois que o marido morreu enfrentou os maledicentes, tomou conta da estância sozinha e formou o filho. Há quem diga que a ligação dela com o Chico se manteve mesmo depois de descoberta pelo marido e após a morte dele. Mas também há comentários, só um pouco menos maldosos, de que o Taurino resultou de uma única escapada que deu zebra. Não puderam abafar, porque não era só o Marques que sabia que o filho não era seu, que não podia ter engravidado a mulher...
— Pronto, achei um com problema de infertilidade antes da Praga! — Silvério comentou, interrompendo Jovito.
(continua amanhã)
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h14
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SERAFIM DE SERAFIM - X - pg. 30 (cont.)
Alex noticiou o falecimento de Chico Manivela. Taurino se aproximou. Pôs-se de joelhos. Tocou os olhos do morto. As pálpebras não precisaram ser abaixadas. Desde antes já dormia.
— Cantem. Cantem. Nosso Pastor zelará por nós e conduzirá nossos passos, junto com nosso Pai do Céu, Jesus e a Virgem Maria. — Clara continuou de pé, motivando os crentes que agora tinha por seus seguidores por ordem do Pastor, que Silvério sabia, estivera perto dele quase todo o tempo da agonia, não se acordara nem pronunciara uma única palavra desde que Taurino o retirara do incêndio. Só se ela escutara a mente do falecido, pensou.
O homem encarregado de providenciar a ambulância retornou com a informação de que ninguém no ambulatório soubera dizer onde encontrá-la.
O corpo de Chico Manivela foi conduzido para casa em procissão.
Taurino disse a Silvério, Alex e Jovito, que os levaria para descansar e voltaria ao velório para se encarregar do funeral, já que Clara estava ocupada em velar o marido e os poucos familiares não pareciam em condições de providenciar nada.
Rumaram para o centro. Silvério não mais reprimiu a pergunta engasgada desde que Taurino desembestara templo a dentro.
— Tu sabias tanto quanto nós quando chegamos lá... Ou seja, nada. Por que entraste no galpão? Como sabias que o Chico estava lá? Intuição, algo assim?
— Intuição coisa nenhuma. Entrei porque achava que precisava entrar. Agora vejo que não, já que não serviu pra nada.
Disse isso e chorou.
(continua amanhã)
Escrito por Jerônimo Jardim às 15h57
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