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SERAFIM DE SERAFIM - X - pg. 29 (cont.)
X — O ATENTADO
Se a guerra para a qual vinham preparados tinha a ver com a defesa do templo, era tarde demais; ardia em chamas. Gente corria atônita, jogando água no incêndio na vã tentativa de debelá-lo. Não havia corpo de bombeiros em Serafim; se houvesse já teria chegado, Silvério inferiu.
Taurino não esperou a completa imobilidade da caminhonete, que estacionou muito próxima do fogo. Jogou-se porta a fora. Jovito teve que se espichar para pisar no freio. Afoitamente, Taurino entrou correndo no prédio em chamas. Silvério, Jovito e Alex, tomados de surpresa, limitaram-se a aguardar o resultado do desatino. Silvério percebeu não mais sentir os efeitos da embriaguez. O drama se desenrolava à luz do fogaréu, sob o breu da noite estrelada.
Depois de minutos que pareceram horas, Taurino surgiu das chamas com Chico Manivela aos ombros, desmaiado. Taurino não parecia ter sofrido queimaduras. Apenas tinha as roupas chamuscadas. Chico estava com um talho na cabeça. Sangrava. Deitaram-no no terreno frontal ao templo, no meio do burburinho. Sentindo o peso do ferido, aumentado pela inconsciência, Silvério se admirou da facilidade com que Taurino o transportara. Alex auscultou-o. Uma mulata relativamente jovem, que a Silvério pareceu bonita, chegou com trapos e água numa bacia. Alex limpou o ferimento. Improvisou uma bandagem. Pediu a um funcionário do Município, que reconhecera entre os curiosos, para providenciar a única ambulância da cidade. Disse que precisava levar Chico a Bagé para tentar salvá-lo. Taurino emprestou a caminhonete.
Jovito juntou-se aos que tentavam apagar o fogo. Silvério permaneceu perto do ferido. Pelo que podia observar, nada mais poderia ser feito pelo templo. Se alguma coisa sobrasse da destruição, só recuperariam no rescaldo, o que parecia improvável. Parte do galpão desabara pouco depois da saída de Taurino. A parede dos fundos, construída em alvenaria, resistia. Nela, à luz do fogo, Silvério pode divisar a pintura que ocupava sua área. Quatro cavaleiros de preto, montando cavalos brancos, espadas desembainhadas; acima deles, a tradicional representação de Deus, velho severo de barbas longas, jogando um raio sobre suas cabeças; abaixo, o menino Jesus na manjedoura, os pais e os reis magos, imagem bíblica consagrada nos presépios.
Taurino regressara intacto do inferno instaurado onde antes reinava a voz do céu por seu pastor. Agora amparava a mulata que trouxera água e panos. Silvério pôs-se à disposição de Alex, que pediu mais água. Pegou a bacia. Não precisou chegar ao poço. Um homem cedeu parte da que transportava em sua laboriosa em improfícua correria.
A mulher chorosa, que Silvério ouvira Taurino chamar de Clara, grudou o rosto no rosto do ferido. Alex tomava-lhe o pulso em pequenos intervalos.
— Ferimento na cabeça por objeto tipo facão. — Informou, não deixando dúvida de que Chico fora vítima de atentado.
— Lógico que o incêndio foi criminoso. — Disse Taurino, ofegante, não recuperado por completo do esforço.
— Eu vi. Eu estava lá dentro. Foram os quatro cavaleiros do mal. Entraram no templo em seus cavalos brancos. Atacaram o Pastor com suas espadas de prata. — Um homem negro se apresentou como testemunha, apontando a direção seguida pelos criminosos em fuga.
Clara secou as lágrimas. Levantou-se, braços abertos. Pediu a atenção do povo. — Deixem a água. Deixem o fogo. Venham ouvir a voz do Pastor. Ele acabou de falar comigo. Eu devo continuar sua missão. Me disse o que digo a vocês. Clara, constrói outro templo. Deus vai ajudar. O muro da fé não cairá. — Interrompeu o discurso para indicar o mural que resistia. Prosseguiu. — Estão vendo? Parte da profecia está cumprida. Mas seu Pastor disse mais: depois das trevas, do fogo e da água, o menino renascerá, os ventres se encherão de vida e o mundo florescerá em luz. Os cavaleiros do mal sucumbirão, haverá teto para os que não o têm e pão na mesa dos famintos. Fala agora por mim a voz de seu Pastor. (continua amanhã)
Escrito por Jerônimo Jardim às 04h44
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SERAFIM DE SERAFIM - IX - pg. 28 (cont.)
— Eu não falei? E tu ainda ficaste com a bunda de fora. — Taurino comentou ao final da reportagem, dirigindo-se a Alex.
— Eu? Quem manda são os prefeitos. Sou só um funcionário. — Alex isentou-se.
Saíram à rua aos tropeços, sem desligar o aparelho ou fechar portas e janelas, no rastro de Taurino. Entraram na caminhonete, amontoados. Silvério simplesmente ia, aos trancos. Não precisava perguntar o destino. Tudo o indicava. Avançaram em alta velocidade pela rua que levava à Vila Podre. Taurino retirou um revólver calibre trinta e oito do porta-luvas. Silvério não conseguia acreditar que voltara à cidade para se meter em confusão que, pelo modo como se comportavam os companheiros e os fatos se encaminhavam, não podia prever se escaparia incólume.
Sentia vontade de vomitar, sem saber se somente por causa do álcool. Nem lhe tinha sido ensejado sentar para trás no partidor. A cabeça rodava. Perguntava-se sobre o que os companheiros pretendiam fazer. Taurino sinalizara antes que Chico teria que assumir a audácia sozinho. Mudara de opinião ou agia por conta do álcool; ou as duas coisas. Naquelas circunstâncias, não havia como perguntar. Pareciam possuídos por desígnios que Silvério duvidava soubessem ao certo quais eram. Taurino disse a Jovito que havia outro revólver sob o banco e muitos cartuchos. Jovito achou a outra arma. Rolou o tambor. Carregou-a. Botou uma caixa de cartuchos no bolso e deu outra a Taurino. Silvério sentia o mundo girar aos solavancos e a mente se encher de perguntas sem respostas. A gente daquela cidade seria tão doida quanto sua saga?
(continua amanhã)
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h22
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SERAFIM DE SERAFIM -IX - pg. 27 (cont.)
Silvério percebeu que a atração que sentia pela menina do hotel tinha sido comentada na roda de mate antes dele chegar. Taurino não cometera nenhuma inconfidência. Testemunhara o fato e não lhe fora pedido segredo. Silvério silenciou, em atitude defensiva.
— Pra nós ela é como irmã caçula. Conhecemos desde que fazia cocô nas fraldas. Mas não te condeno. Eu acho que ela é bonita mesmo. — Opinou Jovito, com fala mais pastosa que a dos demais, o que provocou o comentário jocoso de que o conhecedor de química era o mais suscetível à mistura de bebidas.
— Dois ignorantes, esses aí! Álcool misturado com álcool, tanto faz. O que interessa é o teor e a quantidade ingerida. A diferença entre as bebidas só influi no enjôo. — Explicou Jovito com ar professoral.
Silvério também se sentia tonto. Mas mais do que tonto, nauseado pela mistura de cachaça e vinho, o que confirmava a tese de Jovito.
— Voltando à vaca fria, Silvério. Vantagem tu terias com a Santinha. Pode haver homem de maior sorte do que aquele que tem uma mulher que não fala? Mais sorte, só nós, sem nenhuma! — Comentou Jovito.
Riso geral. Estavam bêbados. Tomavam liberdades e se expunham sem censuras.
Muitas banalidades disseram até o jantar, em que ficaram comprovadas as qualidades de cozinheiro do farmacêutico. Silvério não poupou elogios. Mas, enjoado como estava, não conseguiu derrotar a porção que lhe foi servida.
Alex pediu a Jovito que desse um tempo na sobremesa. Pegou o violão, que disse a Silvério deixar sempre na casa do amigo, onde mais se reuniam para cantar. Queria mostrar a última canção vencedora do festival de Uruguaiana, que Silvério gostava. Falava de um menino que queria que comentassem, ao passar trajado à moda gaúcha, ter saído igual ao pai. Ao último acorde Taurino limpou um canto do olho dizendo que lhe caíra um cisco que não conseguira remover. Ninguém discutiu a veracidade da afirmativa ou se animou a comentar a emoção solidária. Alex desculpou-se pela falta de alguns acordes. Disse que ficaria melhor quando os soubesse e, melhor ainda, se pudesse contar com a gaita do Borghettinho. Silvério conteve o malicioso pensamento de que também faltaria a voz do Passarinho.
Comiam a sobremesa, um doce feito com casca de melancia, também obra do dono da casa, que Silvério mal provou por causa do enjôo, quando ouviram alguém gritar por Jovito. O chamado parecia vir dos fundos da casa. Jovito foi verificar, quase resvalando num tapete. Voltou, se equilibrando como podia.
— Era o vizinho. Disse que na TV estão anunciando matéria sobre a cidade, que o Chico apareceu falando na Praga, que o povo da Vila Podre vai ter direitos iguais aos da burguesia, que as barrigas vão parir... Ligou o aparelho de televisão. Depois de alguns comerciais, apareceu Chico Manivela falando o que o vizinho reproduzira, cenas da Vila Podre e, em detalhe, a placa que Silvério vira na estrada. O locutor dizia: “Não percam essa reportagem sobre uma cidade onde não nasce ninguém há vinte anos.” Era perto da meia-noite quando foi veiculada a matéria completa, Chico Manivela anunciando nova era para os pobres e a libertação dos ventres; um Secretário de Estado declarando que nada fora comunicado às autoridades. Estamos diante de uma cidade anticonceptiva, disse o apresentador.
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h20
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O BOM CABRITO
O Brigadeiro, presidente da Infraero, se não me engano, disse que não é pressionando a sociedade que os Controladores de Vôo vão conseguir reajustar os seus baixos salários. Comento seu comentário com dísticos populares, o que é bom fazer quando a gente não anda muito a fim de criar.
Tem um ditado que diz que "o bom cabrito não berra". Outro diz que "quem não berra não mama". Entre berrar pra mamar e não berrar pra ser bonzinho, qual a melhor opção dos caras que trabalham com tamanhas responsabilidades, aparelhagens defasadas, horários extrapolados e magra remuneração?
Não fossem os atrasos em pousos e decolagens, saberíamos dos riscos que corremos nos céus do Brasil?
Temos mesmo é muita sorte.
Berra, cabrito!
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h00
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SERAFIM DE SERAFIM - IX - pg. 26 (cont.)
— Se o editor vai achar interessante? Claro que vai! Acho que vão publicar a história hoje mesmo. É uma baita matéria! Se foram pra Bagé depois que saíram daqui vão dar um jeito de mandar o material, nem que por favor de alguém. É só se colocar no lugar deles. Vão telefonar, se virar, achar um jeito. E se publicarem, sem querer fazer trocadilho e já fazendo, é claro que vai ficar claro que quem vem pega a porra, inclusive eles. Ainda vão posar de heróis, gente que sacrifica a própria saúde por uma matéria... Não vieram aqui por causa da placa? Por que a gente não quer estranhos em Serafim? É a primeira coisa que se perguntaram antes de vir, vocês não acham lógico? — Ponderou Taurino.
— Eu não achei lógico. Pensei que era uma brincadeira. — Disse Silvério.
— Sabes agora que não é. Os homens da TV também. E pela voz do Pastor! — Advertiu Taurino.
Saíram do laboratório para um pátio interno e ganharam a rua por um portão lateral. Silvério pegou carona com Taurino. Os outros foram em seus próprios carros. A casa do farmacêutico distava menos de duas quadras da farmácia. Silvério se espantara de usarem carro para tão curto trajeto. Hábito de cidade do interior, fora a resposta risonha dada à observação. Ainda bem que não há muitos carros, senão o trânsito seria infernal, Silvério comentara, provocando nada mais que novas risadas.
— Foi aquele o auto que viste na Vila Podre? — Taurino perguntou, ao passarem na frente da Prefeitura.
— Se não é, é da mesma cor e da mesma marca. — Silvério respondeu.
— É. — Afirmou Taurino, sem titubear. — Só temos um Opala branco na cidade, o do Prefeito. Quando perguntei o tipo do cara que estava no carro, foi só pra saber se ele próprio estava lá, se não tinha mandado um olheiro. Queres um sujeito desprezível? Te dou esse. — Concluiu, fingindo vomitar como demonstração de desapreço.
Jovito morava sozinho numa casa de estilo colonial demasiado grande para um solteiro solitário. Herança dos pais, falecidos num acidente de carro, dissera a Silvério ao chegarem à soleira. A irmã, dona de parte da casa, morava em Porto Alegre, para onde se mudara desde que fora estudar odontologia. Fazia falta dentista na cidade; mas eram poucos os estudantes que voltavam depois de se formarem.
— Ainda bem que não és filho único. Esse negócio de coincidência já estava incomodando. — Disse Silvério.
— Mas o Alex é. — Jovito buscou confirmação.
— Han, han! — Alex assentiu.
— Isso é incrível. Outro filho único. E os teus pais? Onde moram? — Silvério perguntou.
— Em Porto Alegre. Eu não sou natural daqui, Silvério.
Silvério não lembrava se Taurino lhe confiara esse detalhe sobre Alex. Tinha lembrança de que contara sobre um problemático laudo quanto à morte do homem do busto de bronze, um tal de Juvêncio, não lembrava das quantas. Imprecou mentalmente contra a memória, o que fazia com freqüência, por achar sem base histórias desprovidas de nomes e datas. O que dizer do esquecimento de fatos?
— O Taurino tem terras aqui. Eu? Gosto do que faço. Não penso em sair. Sinceramente, não me sinto afetado pelo fato de não poder ter filhos. Acho que isso nunca esteve na mira, pra mim. — Disse Jovito.
— Também não me sinto mal aqui. Afora algum problema no passado, hoje me vejo útil, as pessoas me sentem útil. Sinceramente, não me vejo morando e trabalhando em outro lugar. Aqui estão os meus melhores amigos. Quanto a ter ou não ter filhos, não posso mudar o meu destino, portanto... — Silvério percebeu desalento conformado na frase reticente de Alex.
— Com destino ou sem destino, a gente manda bala nas putas! Que se dane o destino, digo eu! — Disse Taurino, reduzindo a importância das adversidades.
Jovito colecionava cachaças de vários lugares, o que viajantes se encarregavam de trazer por encomenda, abastecendo-o de novidades ou apenas recompondo o estoque em falta. Já tinha perto de mil garrafas, disse orgulhoso. Não era de duvidar, pensou Silvério, já que prateleiras cheias cobriam as paredes de uma sala. Dedicaram-se à intenção de provar todas. Uma viera do Ceará, outro do Rio Grande do Norte, outra de Santo Antônio da Patrulha. Quando já flutuavam na alegria do álcool, esquecidos das agruras terrenas, foram convidados a acompanhar o cozinheiro ao seu quartel-general. Mudaram para um bom tinto da serra gaúcha. Dissertaram sobre modos de degustação. Enquanto bebiam, liberavam-se. — Então estás de olho na Mariana, tchê? — Perguntou Alex, surpreendendo Silvério.
Escrito por Jerônimo Jardim às 05h40
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SERAFIM DE SERAFIM - IX - pg. 25 (cont.)
IX — A REVELAÇÃO
Jovito de vez em quando se afastava da prosa para atender um ou outro cliente que chegava. Alex fingia não tomar conhecimento das vendas para auto-medicação. Não dispunha de tempo para atender tantos doentes da alma. O que mais Jovito vendia eram calmantes e antidepressivos que não poderia vender sem receita médica.
Voltando à entrevista do mecânico, Alex relembrou a vez em que o galpão, onde se realizavam os cultos de Chico Manivela, fora invadido e quebrado. O coitado apanhara quase até morrer, salvando-se com três costelas fraturadas e a cara virada num mingau. Silvério comentou que o mecânico não parecia temer represálias ou pouco se importava com elas, já que, segundo dissera, chegara a hora da revelação.
— Ele já provou do remédio amargo. Já desafiou os fortes da política com essa história de igualdade entre pobres e ricos. É meu amigo, mas abusa da sorte. A coisa pode feder. O que posso fazer? — Taurino sinalizou que não entendia pertencer à sua alçada qualquer interferência, que só poderia lavar as mãos quanto a supostas violências que a entrevista poderia desencadear por atiçar ódios de passado próximo.
— Eu não consigo imaginar a TV falando em Serafim. Eles não tinham uma matéria pra fazer em Bagé? Devem ter ido pra lá. Quem sabe esquecem? Quem sabe o editor nem goste da matéria?
Vãos os argumentos de Alex na tentativa de tranqüilizar os espíritos. Todos sabiam que o jogo estava feito, que girava a roda do azar e da fortuna para quem acreditava nas tramas do destino, o que levou Silvério a perscrutar nos olhos de cada um sinal revelador de misticismo. Nada decifrou. Puseram ponto temporário no assunto. Combinaram jantar na casa do farmacêutico. Jovito antecipou a receita, com entusiasmo:
— Silvério, tu vais ver o que fica de especial um pernil de porco cozido ao mel. — Tocou no lóbulo da orelha e estalou os lábios.
Mas não eram apenas os dotes culinários que Jovito queria exibir. Convidou-os a visitar o laboratório, onde, o que Silvério já soubera por Taurino, pesquisava o que dizia ser, com o assentimento de Alex, espécie de epidemia localizada, sem precedentes na literatura médica, fenômeno desconhecido portanto: a esterilidade que os afetava.
— Não encontrei até hoje algo que diferencie nosso solo de outros. Até se poderia dizer que a água do Arroio do Padre contém propriedades medicinais. Nisso não procurei me aprofundar. Quanto ao que estudo, não há nada, nada mesmo, a que possamos atribuir nossa... nossa... digamos, nossa infertilidade.
— Longe de mim menosprezar teus conhecimentos, Jovito. Mas se o estudo fosse aberto, já que vocês consideram que se trata de uma doença, epidemia como falaste, se buscassem a participação de uma universidade na pesquisa, não aumentariam as possibilidades? As autoridades sanitárias do Estado não teriam que estar a par disso? E se há uma fonte medicinal aqui, isso pode até resultar em negócios, turismo, receita para o Município...
— Tu achas que daria em algo, autoridades viriam aqui se arriscar? Iriam ficar enrolando até ninguém mais falar do assunto. Político sabe que o povo não tem memória. O expediente teria o fim de tantos outros, a gaveta. E chamar povo aqui pra castração, Silvério? O que tu farias se te pegassem nessa arapuca sem te avisar? A coisa é assim... É como ferida no rabo... A gente tem vergonha de mostrar... Bom, agora com a entrevista do Chico, tudo pode acontecer... — Jovito obrigou-se a aludir à entrevista. A metáfora utilizada para explicar o tabu provocou riso. Silvério percebeu que o cinismo era o escudo que defendia aqueles homens das angústias, imunizava-os.
— Se o canal de TV achar que a matéria vale a pena, o que vocês acham que vai acontecer? Por outro lado, por que se preocupar antes? Pode ser que nem publiquem. E se publicarem, talvez não fique claro que quem vem aqui é contaminado. — Alex novamente levantou a possibilidade de a matéria não ser publicada.
(continua amanhã)
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h39
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SERAFIM DE SERAFIM - VIII - pg. 24 (cont.)
Silvério reconheceu a caminhonete de Taurino estacionada na frente da Farmácia Santiago. Taurino não pareceu surpreso ao vê-lo. Veio em sua direção, afastando-se dos dois homens que, acomodados em rústicos bancos de madeira formavam a roda de chimarrão referida pelo hoteleiro.
— Eu sabia que tu ias pensar melhor depois do que eu te disse sobre as gurias de Rivera. Vai te chegando, vivente. — Envolveu-o num abraço e conduziu-o aonde os companheiros proseavam.
— Esse é o colega de quem falei. — Taurino apresentou-o.
Os mateadores se levantaram. Um cumprimentou Silvério enquanto chupava ruidosamente a bomba, demonstrando que esvaziara a cuia e que, portanto, bastaria ao servidor enchê-la e passar o mate adiante. Esse era o farmacêutico. O segundo a cumprimentá-lo foi o médico, pau para toda a obra na cidade quanto ao ofício da medicina, do conserto de ossos a doenças mentais, pois além de atender no ambulatório da Prefeitura e em seu consultório, cuidava dos pacientes do Hospital dos Aflitos. Isso para não falar em outras funções da área médica, tendo aos cuidados, como funcionário do Município, uma cidade sem esgotos e uma praga.
— Pronto, Zeca, agora já conheces os parceiros. Tomas um chimarrão?
Silvério aceitou o convite de Taurino. A moda do chimarrão, que também se incrementara na Porto Alegre urbana por conta de nascente orgulho nativista difícil de definir, ainda não o cooptara. Não tinha paciência para preparar, cevar o mate, depois limpar e lavar a cuia. Mas apreciava o sabor da erva.
Abancaram-se para a prosa.
Quando Silvério atribuiu à chave a razão da volta, os mateadores riram. A bem da verdade, não sabia, nem procurara se explicar, a razão da volta. Não teve outro jeito. Riu com eles. A justificativa não era plausível, tinha que concordar. Os rostos, no entanto, ficaram tensos quando contou sobre o que vira na Vila Podre e o que soubera de Chico Manivela, inclusive que os homens da TV estavam indo a Bagé para uma reportagem quando o carro teve um problema, logo solucionado, mas que por terem visto a placa resolveram investigar, curiosidade natural tratando-se de farejadores de notícia. Omitiu a interpretação mística, a possibilidade de estar incluído nas armações do destino. A pedido de Taurino descreveu o cidadão do Opala branco que vira observando a entrevista do mecânico. Pelo modo como se entreolharam, teve a certeza de que a descrição só fora solicitada para confirmar o que suspeitavam. — A coisa pode ficar bem feia por aqui. Tomara que não se repitam as barbaridades dos anos setenta. — Taurino comentou, mostrando-se apreensivo. — Sei lá o que pode acontecer.
Escrito por Jerônimo Jardim às 08h47
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