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SERAFIM DE SERAFIM - VIII - pg. 23 (cont.)

Manivela cortou a divagação:

— Deus guie nossos caminhos, Doutor.

Nessa parte do discurso o Deus que Chico invocava era o Deus condutor, sabedor dos caminhos; não necessariamente dos resultados. E se Deus se negasse à função de guia? E se a aceitasse, mas guiasse mal? A cabeça fervilhava. Tudo naquele restrito universo em que o acaso o inserira levava a últimas instâncias as questões existenciais afloradas à superfície desde que se vira extremadamente posto à prova. Apesar da descrença, por cortesia, Silvério agradeceu e retribuiu o voto. Observado pelo dublê de mecânico e pastor, despediu-se e se dirigiu ao carro. O bilheteiro, que tudo ouvira em ingênuo silêncio, não saiu sem beijar a mão de quem, a considerar o procedimento, também tinha como dirigente espiritual. Silvério deixou-se alcançar, retardando o passo. O bilheteiro arrastava uma perna, equilibrando-se com dificuldade. 

Novamente foi precedido, agora à entrada do Hotel Central. No dia anterior, Dedé se comportara como se estivesse diante do arauto das mil e uma desgraças. Agora fazia questão de carregar-lhe a bagagem e, a seu jeito, abrir caminhos.

Francisco veio-lhes ao encontro. — Demorou pouco no exterior, Doutor! — Caçoou, enquanto pegava a bolsa das mãos de Dedé.

— Esqueci de devolver a chave. — Silvério fez menção de entregá-la ao hoteleiro.

— Por uma chave “usted” não precisaria ter voltado. Mas como, pelo visto, parece que vai ficar, não precisa devolver. “Le” dou o mesmo quarto. Não foi ocupado.

— É. Acho que vou ficar uns dias. — Era como se só ele não soubesse que voltaria. Era como se só ele não soubesse que pretendia permanecer, ao menos por alguns dias. 

Francisco acompanhou-o pessoalmente ao quarto, arrumado com esmero igual ao do dia anterior. Silvério perguntou se ele saberia informar onde encontrar Taurino. Francisco se mostrava receptivo, falante. Disse que por volta das cinco, Taurino, quando não estava na fazenda, costumava ir matear na farmácia de Jovito Santiago. Portanto, logo estaria lá, se já não estivesse. No relógio de pêndulo os ponteiros estavam prestes a marcar cinco horas daquela tarde em que o vento dera trégua. Diante da solicitude do hoteleiro, encorajou-se a perguntar por Mariana, obtendo como resposta que ela e a mãe, como costumavam fazer duas vezes por semana naquele horário, tinham ido à igreja rezar e tomar os sacramentos. Duas carolas, uma delas santa de outro credo, pensou Silvério. De ter sido santificada em vida, certamente não fora escolha sua. E de ser católica? Provavelmente também não, respondeu-se. Taurino já tinha dito que a mãe da garota — e novamente não se lembrava do nome dela — era beata de primeira linha. Pensou no desgosto da mulher, tendo a filha adorada por seguidores de crença marginal. 

— Daqui a pouco voltam. Em meia hora acho que pagam as contas com Deus e com Cornélio. — Francisco comentou, dando a entender, pelo sarcasmo, que não era tão católico como as mulheres da família.

Silvério pensou na filha do hoteleiro. O que a vida o aproximava de filhos únicos, era espantoso. Teria algum ímã que os atraía? Perguntava-se. Taurino, Mariana, lá no passado a menina que lhe botara guampa e cujo nome esquecera, todos eram filhos sem irmãos, depositários de cuidados e expectativas sufocantes. E agora? Ali estava a respirar o ar de uma cidade ímpar, fora do mapa, em que uma filha única fora a última a nascer em vinte anos, em que um antigo colega encontrado por acaso era filho único, e onde nem filho único tinha chance de vir à luz. 

Antes de procurar Taurino, Silvério tomou banho no sanitário que servia a doze quartos, como já contara. Observara também que o hoteleiro morava com a família em instalações independentes, frontais ao pátio interno, onde havia varais cheios de lençóis, um galinheiro e um pombal.

Arrumadas as roupas no armário, obtidas informações detalhadas da localização da farmácia, Silvério saiu a pé para encontrá-la. Dedé já não estava na portaria. Alguns transeuntes arriscavam cumprimentos, quase inaudíveis. Tocavam a aba do chapéu, inclinando levemente a cabeça. O comportamento do povo mudara naquele segundo dia.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h15
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SERAFIM DE SERAFIM - VIII - pg. 22 (cont.)

— Vai botar a cara na TV, amigo? — Silvério investiu, sem perda de tempo.

— Acho que sim, Doutor. Chegou a hora. Os pobres terão vez. As crianças vingarão. — Mediu-o com o olhar, antes voltado para o alto. Perguntou. — Por que o Doutor acha que o carro da TV engasgou?

— O carro que estragou foi o meu, seu Chico. Está trocando as bolas...

— O deles também. Só que depois pegou.  

— Que pegou, pegou. Passaram por nós a galope.

— Eles iam fazer uma reportagem em Bagé. O carro encrencou no mesmo lugar do seu. Aí eles viram a placa... bem como aconteceu com o senhor.

— O meu, eu tentei ligar várias vezes. — Silvério voltou à questão da pane.

— O seu carro também não tinha nada, Doutor.

— Nem o meu, nem o deles, é o que quer dizer? — Perguntou Silvério percebendo a insinuação, juntando os fatos. — O pessoal da TV parou porque tinha que parar? Veio porque tinha que vir? É isso? Destino traçado? Tudo acertado em plano superior? — À falta de resposta, prosseguiu. — Gente de imprensa... natural a curiosidade. Tem faro afinado, percebe a oportunidade de boa matéria. Tudo bem... Dou um crédito ao sobrenatural, seu Chico. A imprensa veio porque tinha missão a cumprir... encargos do destino... tem relevância no contexto... Aliás, sempre teve, desde que se sabe dela. Fatos divulgados podem mudar o rumo da História. Mas e eu? Vim por quê? O que é que eu tenho a ver com o peixe? 

— Nem sempre os desígnios do Senhor são compreendidos! Nossa ciência é pouca, Doutor. Até o Padre costuma dizer isso...

O Padre talvez também dissesse isso, concordou Silvério, desagradado. A maior contradição dos credos, achava, por se sustentarem na dualidade culpa e castigo, era o fato de terem como alicerce a onisciência de ente superior. Como culpar o pecador? Se Deus já sabia da traição de Judas, que oportunidade teria o coitado de proceder de modo diverso? Deus, à hipótese de ser o dono do futuro, seria co-autor da morte do filho feito homem, de tudo o que há de bom, é certo, mas também de tudo o que há de ruim no mundo. Por outro lado, afastada a hipótese de conhecimento do futuro por Deus, se era tão sabedor do destino quanto os homens, tchau às profecias, mapas astrais e adivinhações. Só existiria um devir ignorado. Para compatibilizar a existência de Deus com a de um presente contínuo, Deus seria apenas moleque arteiro, ainda que o mais poderoso do universo, manipulando-nos feito marionetes. Desalentador era saber que morreria com todas as dúvidas e que os credos continuariam com todas as certezas da fé, sem questionar as mais singelas contradições.

 — O senhor sabe que o povo da cidade não vai gostar da merda no ventilador, me desculpe a palavra...

— Só me interessa a vontade de Deus, os meus crentes, a redenção, a remissão dos pecados, a vinda do Salvador. O resto é coisa do demo, da força que enfraqueceu a família, secou os grãos da vida, que mantém o meu povo submisso aos grilhões do mal e da miséria.

— Lhe entendo, seu Chico. — Silvério pousou a mão no ombro musculoso do mecânico. Previa resposta parecida. — Desculpa ter tomado seu tempo. Não incomodo mais. Eu e o Dedé vamos deixá-lo trabalhar. Antes lhe informo que mudei de idéia... Pretendo ficar aqui por uns dias. Tinha esquecido de devolver a chave ao Francisco... Já que voltei...

— Tinha esquecido, é?

Silvério não encontrou o que dizer contra a insinuação. Nunca se conformaria com a idéia de que se movesse conforme as linhas de um destino planejado, avesso como era à ditadura dos signos e dos dísticos deterministas. Naquele lugarejo, uns eram escravos do segredo convertido em tabu; outros, de suas crenças, contra as quais, tinha que admitir, não existiam fatos comprovados e suficientemente sólidos para derrubá-las. Do que dispunha como argumento para dissuadir os crentes? Lidava com um fato fantástico. Como explicá-lo de modo a afastar o misticismo? Verdade que fenômenos existiam aos quilos no mundo, também inexplicáveis. Mas essa constatação mais atrapalhava do que ajudava, pois reforçava o apelo ao sobrenatural.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h12
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TRÍPLICE COROA

ATÉ QUE ENFIM O GALO CANTOU LEGAL.

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h09
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LETRAS DO SHOW "DE VIVA VOZ"

As demais letras não publicarei. Espero poder cantá-las pra vocês no teatro da Livraria Cultura do Bourbon Country.

Escrito por Jerônimo Jardim às 17h21
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SERAFIM DE SERAFIM - VIII - pg. 21 (cont.)

VIII A VOLTA

Eram quase quatro da tarde quando, já rodando pela rua principal de Serafim, Silvério viu-se obrigado a pisar forte no freio para não atropelar o bilheteiro que, de braços abertos, gestos inquietos, barrava-lhe a passagem apontando o beco estreito que ia dar na Vila Podre. O coração foi parar na garganta.  Evitara o atropelamento, pensou, aliviado, o carro atravessado no meio da rua. Felizmente em Serafim o trânsito de automóveis era pequeno. Ninguém vinha atrás. Respirou fundo.    

Dedé se aproximou pelo lado do banco do carona. Surpreso, tentando entender o que ele pretendia, Silvério abriu-lhe a porta, ainda sob efeito do susto. Sem cerimônia, ele se abancou. Balbuciava expressões ininteligíveis. Continuava a apontar na direção da Vila Podre.

— Queres que eu te leve na Vila, é isso? — Silvério perguntou, recuperando a calma.

Diante dos gestos e das interjeições, que Silvério interpretou como de assentimento, rumou para a Vila Podre, da qual só conhecia a esquina de entrada da rua de acesso. Tinha mesmo vontade de conhecê-la, depois de saber que seus moradores não se distinguiam apenas pela pobreza, mas pelo modo de encarar a perda da fertilidade. O tabu da gente da zona central, segundo extraíra da história contada por Taurino, era capítulo de evangelho na Vila Podre. 

Parte do mau odor recendia do carona. Faltava-lhe um bom banho. Mas o pior fedor vinha de fora, das valetas que evacuavam dejetos a céu aberto conferindo propriedade ao nome do lugar. Teve pena do povo em trânsito, que não parecia afetado pelo desconforto. Optou pelo cheiro de Dedé. Levantou o vidro.

Rodava devagar entre os casebres de torrão que margeavam a ruela quando percebeu, adiante, gente reunida à frente de um galpão que ostentava sobre a porta tosca cruz de madeira. No meio da turba, distinguiu a caminhonete da TV que cruzara na estrada vicinal com a caminhonete de Taurino.

Estacionou à distância.

Não teve dúvida de que, levado pelo bilheteiro, chegara a Tempo de Redenção, onde Chico Manivela realizava seus cultos em devoção à menina do hotel e ao menino mártir. E lá estava o Pastor Chico Manivela concedendo concorrida entrevista à equipe de reportagem da TV.

Dedé não parava de gesticular.

— Calma, amigo. — Tentou sossegá-lo.

Apalpou os bolsos da camisa. Só encontrou a chave do hotel. Deu-se conta da inutilidade do gesto. Procurava cigarros, como se ainda fumasse. Levaria anos para esquecer o vício. Recriminou-se pela fraqueza. Pensou que um dia isso seria simples lembrança — como todas, boas e ruins, que nunca deveriam ser esquecidas como os nomes que não conseguia decorar —, mas também a certeza do abandono definitivo.            

Dedé resgatou-o da divagação com um puxão no braço. Indicava um Opala branco estacionado no lado oposto àquele de onde haviam chegado. Achou que o motorista também preferira observar a cena sem envolvimento. Não conseguia distinguir-lhe as feições, mas notou que usava barba, estava de óculos escuros e chapéu.

Aplausos marcaram o término da entrevista. O homem que lidava com a câmera pôs o equipamento na caminhonete. O entrevistado ocupou assento no banco dianteiro ao lado do motorista. Silvério presumiu que o pessoal da TV tinha-o encontrado na oficina e conduzido ao templo. 

Gente jovem, como não vira na zona central da cidade, acompanhou a caminhonete em parte do trajeto, enquanto novas cenas iam sendo tomadas. Silvério ligou o fuca e tomou a frente da kombi, passando a cuidá-la pelo retrovisor. Viu Chico Manivela despedir-se e esperou a caminhonete se perder de vista na estrada poeirenta. Estacionou à frente da oficina, onde Chico não mais se encontrava. Dedé desceu do carro com ele. Precedeu-o à entrada na oficina. Beijou respeitosamente a mão do mecânico, que se prestou à reverência.  

— Olá, Doutor. Isso não é volta, é como se nem tivesse saído. — Chico gracejou, dirigindo-se a Silvério.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 10h06
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PURPURINA

 PURPURINA (JERÔNIMO JARDIM)              

SE VOCÊ PENSA QUE VAI ME SEDUZIR

SE VOCÊ PENSA QUE VAI ME ARREPIAR

PODE SER, MAS EU SOU FEITO PURPURINA

SE UMA LUZ NÃO ILUMINA

NÃO HÁ JEITO DE BRILHAR.

     

SE VOCÊ SÓ CHEGA POR CHEGAR     

NENHUMA LANTERNA NO OLHAR

NOSSO SHOW NÃO PODE ACONTECER

SEM O PALCO SE ACENDER

EU NÃO VOU REPRESENTAR.

 

SE VOCÊ PENSA QUE VAI ME SEDUZIR

SE VOCÊ PENSA QUE VAI ME ARREPIAR

PODE SER, MAS EU SOU FEITO BAILARINA

SE A RIBALTA SE ILUMINA                                                                      

FICO ROXA PRA DANÇAR.            

 



Escrito por Jerônimo Jardim às 17h34
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SERAFIM DE SERAFIM - VII - pg. 19/20 (cont.)

Depois de alguma insistência, pagou a pequena quantia cobrada por Chico Manivela. Agradeceu a Taurino as atenções. Apertou a mão do mecânico e trocou afetuoso abraço com o ex-colega. O Touro Velho de Bagé era Taurino de Serafim, grande comedor inofensivo, pensou no meio do abraço.

— Sinto muito pelo ruim que levas daqui, velho Zeca. É verdade que não me sinto culpado como o resto do povo. — Taurino obteve ao comentário um grunhido de desaprovação de Chico Manivela. — Mas isso não impede de sentir...

Silvério interrompeu o dúbio discurso. Disse que nem mesmo sabia se teria sido contagiado. Mas experimentou sensação de desconforto ao abordar o assunto, algo indefinível.

— Fique tranqüilo, Doutor. Jesus nos livrará em breve dessa desdita. Está chegando a hora dos desvalidos. Jesus devolverá a todos os carentes o direito ao pão e à fertilidade. — Chico deu vazão ao texto profético que já deveria ter decorado sílaba a sílaba, certamente responsável pela manutenção de seus fiéis em equilíbrio, supôs Silvério olhando para Taurino, que piscou-lhe  olho cúmplice.

Para se ver livre do sermão que ao simples intróito não se prometia breve, Silvério apressou a partida, acomodando-se ao volante.

— O senhor vai voltar, Doutor!

— A sua certeza é a minha, seu Chico. Claro que vou. Tenho amigos aqui.

Disse Silvério, não por mera amabilidade, mas porque realmente pretendia voltar em futuro próximo; e também com a intenção de esvaziar o conteúdo profético da afirmativa, deixando claro que viria por sua própria vontade, quando bem entendesse, não por predições de um mecânico metido a pastor. Queria contemplar a beleza de Mariana quando estivesse certo de que se livrara dos problemas de ereção; rever o amigo Taurino e conhecer os amigos tão elogiados por ele; visitar o futuro daquela cidade anticonceptiva que poderia estar irreversivelmente assinalada em seu currículo, caso se confirmasse em si a perda da capacidade de proliferar. Só que, antes, precisava achar seu lugar no futuro, cumprir a empreitada que casualmente o jogara em Serafim. Não podia esquecer que era um homem em rota inversa à dos retirantes de Desgarrados, a canção que, juntamente com O Guri, da última edição da Califórnia da Canção de Uruguaiana, era das mais solicitadas nos bares nativistas porto-alegrenses.

Acelerou. Trocou marchas. Pelo espelho retrovisor viu os dois homens embarcarem na caminhonete e entrarem na estrada de Serafim.

Absorto ao som do motor do carro, dedicou os primeiros pensamentos a Mariana; depois tentou recordar as poucas palavras trocadas com o hoteleiro; lembrou do curto diálogo com o Padre; da mãe de Mariana; do bilheteiro; visualizou a cena de morte do menino mártir, extraída da narrativa de Taurino; pensou na professora que se fora da cidade e desaparecera; lembrou do busto de bronze do prolator da Praga; meditou sobre o complexo de castração, gerador de psicóticos; tentou reproduzir mentalmente a fachada do Hospital dos Aflitos e do prédio do colégio desativado; enfileirou entre as referências a figura de Chico Manivela; pensou no amigo Taurino, ajustado de viés na torta realidade; atribuiu faces indefinidas aos amigos do amigo; também ao Delegado e aos políticos suspeitos do crime que, a ser considerado procedente o mito, teria dado causa ao discurso detonador do surgimento do mal de Serafim, da Praga; por fim, lembrou do fato mais recente: a chegada do pessoal da televisão. Por que iam? Que informações obteriam? A Vila Podre, como pudera extrair da narrativa de Taurino e dos comentários de Chico, se comportava de modo diferenciado. Recorreu aos dados de que dispunha. Comparando o comportamento dos moradores da zona central e da Vila, a exemplo o mecânico, tudo indicava que se na chegada tivesse contatado com pessoas do arrabalde, teria rompido de imediato o muro de silêncio. É o que ocorreria se o homens da TV não enfrentassem primeiro as bocas auto-censuradas. E ainda que viessem a cogitar da hipótese de contaminação pessoal, se o faro profissional os conduzira, era bem provável que o dever se impusesse à pressão interna que eventualmente os inclinasse à omissão. Como o povo, tão cioso do grande segredo, assimilaria seu desvendar na mídia? Pensou nos psicóticos do Hospital dos Aflitos, no mecanismo da obsessão convertida em doença. Pobres seres humanos iludidos em sua racionalidade, tão manipulados pelo instinto de preservação como os demais seres vivos, só deles se distinguindo por praticar o ato primeiro da reprodução por mero prazer! Mas o tal prazer, não seria apenas a isca que os provocaria a serem fisgados pelo objetivo maior, se não num ato em outro? Objetivo de quem? Novamente as perguntas que freqüentemente o assaltavam desde a doença, sentimento de que, num ponto do caminho, quem sabe nos próximos metros da viagem, numa reta ou numa curva, poderia encontrar sua finitude. Diabo da ciência, que tanto prezava, sem solução para os problemas do espírito e para tantos males, enquanto cada vez mais mortíferas e apocalípticas as armas! Quem choraria a perda de um órfão sem prole e com parentes sem proximidade de afeto, a se confirmar em si a sina dos serafinenses?

— Porra! Esqueci de devolver a chave do hotel! — Exclamou em voz alta ao tocar em volume incômodo no bolso da calça.

Pisou no freio, buscou refúgio no acostamento, colocou a chave no bolso da camisa, onde ficou ainda mais incômoda, mas onde a deixou ficar. Após rápida manobra, pôs-se em marcha de regresso à cidade-borboleta, sem se importar com os quilômetros percorridos.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h34
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INAUGURAÇÃO DE TEATRO

CIA. ZAFFARI e OPUS PROMOÇÕES inauguram hoje às 19h30', no Bourbon Country, o mais moderno teatro da América Latina, com capacidade para 1.700 pessoas. 

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h35
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MODA DE SANGUE

Esta canção foi gravada por Elis Regina em 1979. Cantarei no show "DE VIVA VOZ", na Livraria Cultura do Bourbon Country, dia 29.6.2007, sexta-feira, às 19h30', com a participação especial de LÚCIA HELENA.

MODA DE SANGUE

(JERÔNIMO JARDIM E IVALDO ROQUE)

 

QUANDO TE PRENDO NA CADEIA DOS ABRAÇOS

E TE TORTURO E TE SUFOCO ENTRE MEUS BRAÇOS

E TE FUZILO COM OS OLHOS DO DESEJO

TE MORDENDO NO GOSTO DO MEU BEIJO.

                         

QUANDO TE ARRANHO, TE LANHO DE DELÍCIA

VERTENDO SANGUE DO TEU CORPO DE MALÍCIA

QUANDO TE CHINGO COM PALAVRAS OBSCENAS

COMO JURASSE AS JURAS MAIS SERENAS.

               

QUANDO ME VINGO DOS MALES QUE ME FAZES

COM FRASES DE MALDADE E VENENO.

SINTO, MEU AMOR, QUE O AMOR É ISSO

DESSAS COISAS MUITO FORA DE JUÍZO.

                                                                  

Cifra transcrita por Michel Dorfman (fascículo 14, CEEE/SOM DO SUL, Henrique Mann).

 



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h17
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SERAFIM DE SERAFIM - VI - pg. 18 (cont.)

VII A PARTIDA

 

 

O fuca continuava, como fora deixado, na esquina da estrada principal com a vicinal para Serafim, perto da placa que desafiara a curiosidade de Silvério.

Chico Manivela sentou ao volante e virou a chave. O motor funcionou. Voltou-se para Silvério como que buscando explicação para o desnecessário socorro mecânico. Ligou e desligou o carro várias vezes. Abriu o capô traseiro para examinar a máquina. Nada a reparar. Disse que o carro estava em boas condições para seguir viagem. Silvério acreditava nisso desde antes da partida. Submetera-o à completa revisão. Até pneus novos comprara para evitar contratempos.

— Mas que falhou, falhou! —Afirmou encabulado, quando Manivela deu por finda a inspeção.

— Há doentes que se curam só com a chegada do médico. — Taurino saiu-lhe em defesa. — Deve ter sido como dor de velho, que vem e vai sem aviso. — Acresceu.

Riram. Ficaram por instantes sem encontrar o que dizer. Silvério percebeu que a ele competia movimentar a cena. 

— Bom, meus caros. Gracias por tudo, mas é hora de ir. Faça suas contas pra que eu possa lhe pagar, seu Chico.

— Tens certeza de que não queres ficar até sábado quando a gente vai a Rivera? Podes ir no teu carro. Na cruzada deixas em Bagé. E na volta ficas lá. Gostaria muito que tu conhecesses os meus amigos. Modéstia à parte, não existe trio mais afinado no mundo: um cuida dos comes e bebes... acho que ninguém melhor pra pensar em mistura de ingredientes do que um farmacêutico; outro trata da viola... dedos de cirurgião... há quem diga que de açougueiro; e o terceiro, adivinha quem, especializou-se em mapear o mulherio. Rivera é demais. A gente vai ao Cassino. Depois vai receber aula de castelhano. “Te quiero, gaucho! Te quiero, boludo!” — Taurino encenava o discurso, enriquecendo-o com gestos caricatos. Percebendo que não causava o efeito desejado, mudou de tática. — Isso não é desfeita que se faça. Logo tu, um garanhão de estirpe, que nem a Santinha estava a fim de poupar. — Taurino não se reprimia diante do Pastor, que parecia não se sentir afetado. Mas se mostrou curioso quando referida a Santinha. 

— O amigo se interessou pela Santinha?

— Nada, seu Chico! Bobagem do Touro Velho. — Silvério respondeu, dando a entender que não queria abordar o tema.

— Se interessou sim, que eu vi. Arrastou uma tremenda asa pra guria. — Taurino teimou.

— Ainda que seja verdade, estou indo embora. — Silvério desconversou.

Nenhum argumento o demoveria da intenção de partir. Disse a Taurino que precisava distanciamento para raciocinar sobre o que tinha acontecido em Serafim. O argumento pareceu convencê-lo. Como explicar que queria testar urgentemente o desempenho de seu craque no retorno à pista sem ninguém por perto para tirar o tempo? Conseguiria transar sem dor? A volta da dor não só era possível como provável. Sequer acreditava que não a sentira na inesperada ereção à saída do hotel. Não queria se expor ao risco de um vexame. Todas as mulheres que conhecia diziam que os homens davam demasiada atenção ao pau. Mas o que fariam com um cara desprovido do indispensável instrumento? Um sujeito sem ereção era a mesma coisa que um sujeito sem pau, pior do que um cara com micropau. Até admitia que as mulheres fizessem questão de pau eficiente, não de pau grande, que nem gostariam de encarar. Mas daí a se sentirem atendidas a contento por um deficiente fálico, ia uma grande diferença. Ansiava a reutilização de seu tamanho médio que, em passado próximo, sempre dera conta do recado. A promessa de gozo se avizinhava. Procuraria mulher naquela mesma noite na Rainha da Fronteira. Nem exigiria demais. Só uma cintura fina e uma bunda firme, tal o atraso em que se encontrava. Mas isso já seria exigir muito, pensou. Gostava das falsas magras.  Eram as que lhe davam tesão.  Está bem, está bem, concedeu-se.  Não exigiria tanto, apenas uma profissional que bem o compreendesse caso o parelheiro empacasse no partidor, hipótese que temia, assim como quando apostava no Cristal contra o favorito do páreo, não por conhecimento, mas por mero palpite.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 04h42
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FOTO SHOW EM SANTO ANTÔNIO DA PATRULHA



Escrito por Jerônimo Jardim às 18h24
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AINDA É TEMPO

"AINDA É TEMPO DA GENTE NÃO SE PERDER DE QUEM A GENTE GOSTA" (ELIS REGINA, EM CARTA QUE ME ESCREVEU EM 1981).

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h32
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ABOLERADO BLUES (SHOW)

Letra musicada por Geraldo Flach, gravada por Lúcia Helena, sucesso em rádio no final da década de 1980. Não confundir com a ótima canção de mesmo nome de Nei Lisboa.

   

ABOLERADO BLUES

(Geraldo Flach e Jerônimo Jardim)

 

EU TINHA SÓ DEZ ANOS

E JÁ SONHAVA A GLÓRIA DAS SOPRANOS

ESSA HISTÓRIA

QUE AO ABRIREM OS PANOS

SAI DAS TECLAS DO PIANO.

 

EU TINHA DESSES PLANOS

NO CORAÇÃO VIOLINOS E CIGANOS

CANTAR BOLEROS IMORAIS, INSANOS

UM BLUES ENFUMAÇADO, NEGRO, AMERICANO.

 

NA VIDA TUDO O QUE EU QUERIA

ERA CANTAR NO RÁDIO COMO ÂNGELA MARIA

PODER QUEBRAR AS TAÇAS NUM AGUDO

APAIXONAR ASSIM SEM MUITO ESTUDO.

 

MORAM DUENDES DE EMOÇÕES BARATAS

EM POÇAS D’ÁGUA, ESQUINAS E BAGANAS

ME REVIGORA, ACENDE, ME MALTRATA

ABOLERADO BLUES À PAULISTANA.

 



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h28
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SERAFIM DE SERAFIM - V - pg. 17 (cont.)

 

— Tchê, quase te atiraste na jugular da xucra, bem na cara do pai dela. — Brincou Taurino, logo que entraram na caminhonete.

A lembrança da guria, o desenho do corpo modelado pelo vestido barato, acendeu a gana de protegê-la, conquistar-lhe entregas sem limite. Silvério sentiu a virilidade forçar as paredes do brim, a bandeira do desejo tentando hastear-se. Mordeu os lábios. Beliscou-se. Não sonhava. Era imprópria a ocasião mas, tinha certeza, experimentara ereção sem dor. Não conteve a obscenidade que lhe ocorreu para expressar a dimensão do contentamento:

— Do cacete! — Deu um soco no ar.

— Aconteceu alguma coisa? — Perguntou-lhe Taurino, surpreso. 

— Não. Só estou um pouco confuso. Foi muito pra uma noite e uma manhã. — Silvério negou acesso à razão do júbilo e ao tabu particular, sem se preocupar com a falta de nexo entre manifestação e argumento.

Acompanhados pelo mecânico, rodavam a mais de cem quilômetros por hora na estrada de chão. Silvério pouco se importava. Quanto mais rápido rodassem, mais cedo poderia constatar se realmente recuperara a capacidade de gozar a delícia de ser macho.

Em poucos minutos passavam diante do celeiro abandonado que vira na caminhada para Serafim. Se estivesse povoado por ninfas? A máquina erótica não conseguia desconcentrar do ofício. Se os companheiros soubessem! Como somente sua tinha sido a dor, somente sua seria a alegria de não mais senti-la.

Estrada boa. Com chuva, não seria. Fim de mundo, pensava, voltando a se fixar no ambiente. Viu à frente uma kombi vindo em sentido contrário. Três homens acenaram-lhes ao passar. Puderam identificar na lateral da caminhonete a inscrição identificadora de uma estação de TV da Capital.

— Amigos, mais três pra lista dos capados! — Taurino não reprimiu o comentário.

Silvério pouco se importou com a observação. Por ironia, o mesmo lugar que lhe impunha a infertilidade, da qual ainda podia duvidar, devolvia-lhe, talvez, a capacidade para o ato primeiro da reprodução.   

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h20
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PORTAL

Outra letra do show "DE VIVA VOZ". Esta canção, defendida pela MUNI, venceu a parte local do Festival Carrefour e ficou entre as dez no Maracanazinho no início da década de 1990.

 

PORTAL

(Jerônimo Jardim)

 

OLHA A SAUDADE

DA GRITARIA, MENINADA

QUE CORRIA NESSA CASA

DE TANTA GENTE

QUE MUDOU DESSA CIDADE

E SE AUSENTOU DE NÓS.

 

OLHA A MILONGA

NA GAITA VELHA, RESSONGONA

REVIVENDO UMA LEMBRANÇA

E A CONTRA-DANÇA

SE AFOGOU NALGUMA SANGA

E NOS DEIXOU A SÓS.

 

AH, JÁ MORRE O PARREIRAL

O FIGO JÁ NÃO DÁ

VALENTE É SÓ O PÉ

DE ARAÇÁ.

 

AH, NO FUNDO DO QUINTAL

A GENTE LÁ NEM VAI

E QUANDO A GENTE OLHA DO PORTAL

A VIDA SEGUE A TRILHA NATURAL

AS ROUPAS JÁ SÃO OUTRAS NO VARAL

E NEM NESSA SAUDADE A GENTE É IGUAL.



Escrito por Jerônimo Jardim às 07h24
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SERAFIM DE SERAFIM - V - pg. 16 (cont.)

— Então é isso. Como não é surda, só pode ser uma espécie de mudez pra qual deve haver cura. — Observou Silvério.

— Sei lá. Só sei que é muda.   

— Tentaram solução médica?

— O Castelhano tem poucos recursos, mas andou com a guria, quando era pequena, pela Capital. Não conseguiu nada.   

— Quem sabe hoje não conseguiriam? A medicina evoluiu...

Taurino fez um muxoxo, acompanhado de suspiro revelador de que duvidava da possibilidade. 

— E o garoto que se salvou é o Dedé, Dedé de André, certo?

Taurino confirmou.  

— E ele? Não foi considerado mártir, nem santificado como a Mariana?

— O Dedé? Pobrezinho... Acho que não faria boa figura de santo... 

Dirigiram-se à oficina. Ao chegarem passava um pouco do meio-dia, mas Chico Manivela ainda trabalhava. Era um negro de corpo atlético, idade indefinida, talvez uns sessenta anos — supôs Silvério —, que interrompeu a lida no motor de um carro estacionado à frente do portão para recebê-los.

— Chico, esse cara foi meu colega em Porto Alegre.  Deu com os quartos aqui por acaso. O carro dele pifou na carreteira. Ah, ele já sabe da merda toda e da parte que lhe toca. — Voltou-se para Silvério para completar a apresentação. — O Chico serve à família desde muito antes de eu botar a cara no mundo. 

O mecânico limpou o suor da testa. Secou as mãos no pano menos engraxado que encontrou. Cumprimentou-os, descontraído e amável com o cliente, cerimonioso com o forasteiro. Contou a Taurino que consertara o trator, que era coisa tão pouca que nem se animava a cobrar.

— Não quero nem saber, Chico. Faz as contas. — Disse-lhe Taurino, evitando que o mecânico se alongasse em relatos.

Silvério narrou as circunstâncias do enguiço. Taurino se ofereceu para levá-los aonde se encontrava o fuca. Combinaram de, antes, almoçar no hotel. Chico Manivela recusou o convite, alegando que prometera almoçar com a esposa.

No trajeto para o hotel Taurino contou que a mulher do hoteleiro nutria inimizade explícita contra o mecânico. Carola como era não admitia a seita. O fato de a filha ser a santa que os crentes adoravam só aumentava a animosidade. Pesava ainda o incômodo que lhe causavam os crentes a gritar “Santinha”, na frente do hotel, a cada aniversário da guria.

— Ela leva a ferro e fogo o que o Padre diz: que é sacrilégio a adoração de pessoa viva, não canonizada pelo Vaticano e, pra piorar, por uma crença à margem da Igreja. — Taurino encerrou o assunto. 

Silvério decidiu que o melhor que tinha a fazer era emalar os trapos e pedir o fechamento da conta. Precisava considerar a possibilidade de o carro ser consertado no local.

Taurino foi buscar sua caminhonete. Não parecia a Silvério que o amigo se conformasse com a idéia de que o farrista dos tempos universitários fosse abdicar da incursão aos puteiros das cidades próximas, muito baile, cama e mesa para quem achava que a vida, apesar dos pesares, ainda valia a pena. Não suspeitava que o simples pensar no perfume, na nudez de uma mulher, que a iminência de uma ereção só servia para martirizá-lo.

Ao despedir-se, no hotel — de modo formal, já que não houvera tempo para estreitar qualquer tipo de relação —, Silvério sentiu a garganta apertada ao mergulhar nos olhos da guria. Primeiro impulso para superar a despedida: gracejar. Unir Santos e Santa seria uma verdadeira suruba nominal, pensou. Mesmo assim, teve que lutar contra a vontade de cancelar a viagem, declarar-se cativo daquele olhar que parecia suplicar sua permanência. Pelo tempo que deve ter demorado a admirá-la, indeciso no momento de virar-lhe as costas, viu confirmada a presunção de que seus pensamentos haviam extrapolado os limites da mente.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 07h05
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