Meu Perfil
BRASIL, Sul, PORTO ALEGRE, Homem, Portuguese, French, Música, Livros



Histórico
 08/11/2009 a 14/11/2009
 01/11/2009 a 07/11/2009
 25/10/2009 a 31/10/2009
 18/10/2009 a 24/10/2009
 11/10/2009 a 17/10/2009
 04/10/2009 a 10/10/2009
 27/09/2009 a 03/10/2009
 20/09/2009 a 26/09/2009
 13/09/2009 a 19/09/2009
 05/04/2009 a 11/04/2009
 29/03/2009 a 04/04/2009
 22/03/2009 a 28/03/2009
 15/03/2009 a 21/03/2009
 08/03/2009 a 14/03/2009
 01/03/2009 a 07/03/2009
 22/02/2009 a 28/02/2009
 15/02/2009 a 21/02/2009
 08/02/2009 a 14/02/2009
 01/02/2009 a 07/02/2009
 25/01/2009 a 31/01/2009
 18/01/2009 a 24/01/2009
 04/01/2009 a 10/01/2009
 28/12/2008 a 03/01/2009
 21/12/2008 a 27/12/2008
 14/12/2008 a 20/12/2008
 07/12/2008 a 13/12/2008
 30/11/2008 a 06/12/2008
 23/11/2008 a 29/11/2008
 16/11/2008 a 22/11/2008
 02/11/2008 a 08/11/2008
 26/10/2008 a 01/11/2008
 19/10/2008 a 25/10/2008
 12/10/2008 a 18/10/2008
 05/10/2008 a 11/10/2008
 28/09/2008 a 04/10/2008
 21/09/2008 a 27/09/2008
 14/09/2008 a 20/09/2008
 07/09/2008 a 13/09/2008
 31/08/2008 a 06/09/2008
 24/08/2008 a 30/08/2008
 17/08/2008 a 23/08/2008
 10/08/2008 a 16/08/2008
 03/08/2008 a 09/08/2008
 27/07/2008 a 02/08/2008
 20/07/2008 a 26/07/2008
 06/07/2008 a 12/07/2008
 29/06/2008 a 05/07/2008
 22/06/2008 a 28/06/2008
 15/06/2008 a 21/06/2008
 08/06/2008 a 14/06/2008
 01/06/2008 a 07/06/2008
 25/05/2008 a 31/05/2008
 18/05/2008 a 24/05/2008
 11/05/2008 a 17/05/2008
 04/05/2008 a 10/05/2008
 27/04/2008 a 03/05/2008
 20/04/2008 a 26/04/2008
 13/04/2008 a 19/04/2008
 06/04/2008 a 12/04/2008
 30/03/2008 a 05/04/2008
 23/03/2008 a 29/03/2008
 16/03/2008 a 22/03/2008
 09/03/2008 a 15/03/2008
 02/03/2008 a 08/03/2008
 24/02/2008 a 01/03/2008
 17/02/2008 a 23/02/2008
 10/02/2008 a 16/02/2008
 03/02/2008 a 09/02/2008
 27/01/2008 a 02/02/2008
 06/01/2008 a 12/01/2008
 30/12/2007 a 05/01/2008
 16/12/2007 a 22/12/2007
 28/10/2007 a 03/11/2007
 21/10/2007 a 27/10/2007
 14/10/2007 a 20/10/2007
 07/10/2007 a 13/10/2007
 30/09/2007 a 06/10/2007
 23/09/2007 a 29/09/2007
 16/09/2007 a 22/09/2007
 09/09/2007 a 15/09/2007
 26/08/2007 a 01/09/2007
 19/08/2007 a 25/08/2007
 12/08/2007 a 18/08/2007
 05/08/2007 a 11/08/2007
 29/07/2007 a 04/08/2007
 22/07/2007 a 28/07/2007
 15/07/2007 a 21/07/2007
 08/07/2007 a 14/07/2007
 01/07/2007 a 07/07/2007
 24/06/2007 a 30/06/2007
 17/06/2007 a 23/06/2007
 10/06/2007 a 16/06/2007
 03/06/2007 a 09/06/2007
 27/05/2007 a 02/06/2007
 20/05/2007 a 26/05/2007
 13/05/2007 a 19/05/2007
 06/05/2007 a 12/05/2007
 29/04/2007 a 05/05/2007
 22/04/2007 a 28/04/2007
 15/04/2007 a 21/04/2007
 08/04/2007 a 14/04/2007
 01/04/2007 a 07/04/2007
 25/03/2007 a 31/03/2007
 18/03/2007 a 24/03/2007
 11/03/2007 a 17/03/2007
 04/03/2007 a 10/03/2007
 25/02/2007 a 03/03/2007
 18/02/2007 a 24/02/2007
 11/02/2007 a 17/02/2007
 04/02/2007 a 10/02/2007
 28/01/2007 a 03/02/2007
 14/01/2007 a 20/01/2007
 31/12/2006 a 06/01/2007
 24/12/2006 a 30/12/2006
 17/12/2006 a 23/12/2006
 10/12/2006 a 16/12/2006
 03/12/2006 a 09/12/2006
 26/11/2006 a 02/12/2006
 19/11/2006 a 25/11/2006
 12/11/2006 a 18/11/2006
 05/11/2006 a 11/11/2006
 22/10/2006 a 28/10/2006
 15/10/2006 a 21/10/2006
 08/10/2006 a 14/10/2006
 01/10/2006 a 07/10/2006
 24/09/2006 a 30/09/2006
 17/09/2006 a 23/09/2006
 10/09/2006 a 16/09/2006


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis


 
 


INTIMIDADE

AQUI VAI OUTRA LETRA QUE ESTARÁ NO SHOW "DE VIVA VOZ", NA LIVRARIA CULTURA DO BOURBON COUNTRY.

INTIMIDADE

(Jerônimo Jardim)

 

POR QUE TE EMBRENHAS

NA TUA FANTASIA,

POR QUE ME ALHEIAS

DO TEU DIA A DIA?

 

EU QUERO SER UM POUCO

DO TEU MUNDO LOUCO

UMA SÓ FRASE

DA TUA POESIA

 

UMA SÓ IMAGEM

DA TUA ALEGORIA

 

NÃO SER MADRASTA

NEM TAMPOUCO FADA

SÓ SER UM POUCO MAIS

ALÉM DE NADA.

 

NA TUA CORTE

QUERO SER VASSALA

SER O TEU SONHO

NA REALIDADE

E QUANDO SONHAS

EU QUERO FAZER SALA

QUERO MORAR

NA TUA INTIMIDADE.

 



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h28
[ ] [ envie esta mensagem ]



SERAFIM DE SERAFIM - V - pg. 15 (continuação)

VI O MECÂNICO

 

 

— Pra falar a verdade, se o carro não houvesse estragado eu nem teria notado a placa. Além do quê, está gasta e meio escondida. O povo que passa na estrada só não vem porque nada tem a fazer aqui. 

— É. Ela está precisando de um retoque...

Superstição. Mito. Tabu. Silvério queria mesmo é bala na agulha para poder conquistar a bugra de olhos azuis. Queria sua tesão de volta. À falta dela, o resto relegava a plano secundário, até mesmo a suposta esterilidade. De mais a mais, a história da Praga não resistia à menor indagação científica. Fenômenos sempre tinham existido, desafiando estudo e compreensão. Seria mais um entre outros. Era o máximo que podia conceder quanto ao mal de Serafim, como preferiu denominar o fato.  

— Tu não podes esperar que eu acredite que o fenômeno decorre do que disse esse Juvêncio da estátua num momento de raiva, Touro Velho. Pra mim, as coisas que não têm explicação hoje, um dia, ainda que demore, acabam sendo explicadas. Quantas já o foram. As leis da natureza preexistem à sua compreensão. Eu, particularmente, tenho esperança de que até Deus seja um dia cientificamente compreendido, se é que existe esse tal comandante geral do universo, se é que a aparente desordem de suas criações não seja uma espécie de ordem anárquica. Assim, nesse mesmo diapasão, até mesmo aqui, mais dia menos dia, pode ser que tudo se esclareça. 

— Eu também, embora respeite o Chico e sua seita, não acredito na Praga. Mas também acho que nem tudo precisa ser explicado. Pra que existe a Fé? Pra uns tem a Igreja; pra outros tem o Manivela. Eu é que não vou ficar louco tentando entender o que não está ao meu alcance. Prefiro manter os pés no chão, ainda que atolados. — Taurino quebrou a aba do chapéu, sem persuadir Silvério da coincidência entre discurso e convencimento. 

— Touro Velho, eu acho sinceramente que se há um Deus que no exercício de seus misteres criou o universo e a vida, compôs uma sinfonia cheia de compassos quebrados e desafinações. Essa coisa toda que me contaste, e que eu acho que um dia vai se explicar, insisto, no fundo não é diferente das incongruências que nos aparecem à frente todos os dias. Vê só a confusão mental a que nos leva a chamada Criação. Deus, a se admitir sua existência e a ele a criação de tudo, teria nos contraposto à compreensão de finitude daquilo que nos está próximo, como distâncias, horas, a vida em si... o infinito. No chão tudo começa e termina. Nos céus, nada parece ter começo ou fim; ao menos quanto ao espaço. O que vem depois do espaço? Outro espaço? Basta olhar pra cima e temos bilhões de anos-luz nos separando das estrelas, incontável número de galáxias rumando sem destino num lugar que não começa nem acaba, de um desde quando até um não sei nada. Tudo está em eterno movimento, num espaço eterno, sem um antes e sem um depois. O mundo é uma contradição em si próprio, meu velho. E nós? O que somos? Um amontoado de contradições! Eu, por exemplo, não sou crente, porque ignoro; e não sou ateu, porque ignoro. E ignorante, mesmo assim, sigo buscando o sentido das coisas, levando fé na ciência que tanto já explicou o que era antes incompreensível. Vivo todas as contradições esperando desvendá-las. Só assim consigo me entender e entender o mundo louco em que nos metemos no dia em que estouramos a bolsa e pusemos a cara na luz.   

— Ih, filosofar não leva a lugar nenhum, tchê! Aliás, pode levar ao manicômio, como levou os caras daqui que se sentiram capados e acabaram broxas. O melhor é cada um acreditar no que lhe serve. Deixa o Padre rezar suas missas, o Manivela cultuar seu santo morto e sua santa viva; e eu na minha. Tudo o que pregam, se não me serve, não me atrapalha. Deixa também o Jovito pesquisar. E tu acreditares que as coisas vão se explicar, embora explicação por si só não seja remédio.

— Primeiro se descobre à causa, depois a cura... Mas Taurino, tem ainda uma coisa. Pra seita do mecânico, o santo morto é o menino que morreu... E a santa viva, é a Mariana? — Silvério apenas queria confirmação do que o relato claramente indicara.

— Elementar, meu caro Watson. Pra seita do Chico, ela é a mártir viva, já que foi a última pessoa a nascer no dia da Praga.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h18
[ ] [ envie esta mensagem ]



UMA LETRA DO SHOW

Em 29.6.2007, às 19 horas, estarei, voz/violão, com Fernando do Ó na percussão, no palco da Livraria Cultura do Bourbon Country. Vai aqui uma das letras do show.

ARDENTE

(Jerônimo Jardim)

 

ARDENTE COMO A LUZ DO SOL SE ABRAÇA NA MANHÃ

CARENTE COMO O ANALISADO DEITA NO DIVÃ

SEM MEDO COMO A LUZ DA LUA

INVADE OS RITOS DE SATÃ

ENTREGUE QUAL PODE UM MORTAL

SE DAR À FORÇA DE UM IMÃ.

 

INGÊNUO COMO É O AFETO ENTRE IRMÃO E IRMÃ

SEM CULPA COMO É O PECADO QUE VEM DA MAÇÃ

SEDENTO COMO A PELE NUA

COM FÔLEGO DE HOMEM RÃ

ENTREGUE FEITO A ALMA NATIVA

AO RITMO DE UM TATÃ.

 

ASSIM TECI O MEU AMOR

EM CORES VIVAS, FIOS FEITOS DE LÃ

E FALEI POR MEUS LÂNGUIDOS BEIJOS

E CALEI A PALAVRA VÃ.

 



Escrito por Jerônimo Jardim às 17h30
[ ] [ envie esta mensagem ]



SERAFIM DE SERAFIM - IV - pg. 14 (continuação)

No mesmo dia, estranhamente, o Coronel Juvêncio morreu. Vingança, tiro, veneno? Não. Ou, ao menos, não se ficou sabendo. Faleceu cheio de saúde. Nunca adoecia. Alex Morais, o único médico da cidade, na ocasião recentemente formado e chegado de Porto Alegre, atestou morte natural.  Falência múltipla dos órgãos. Cogitaram de exumação. Teria faltado experiência ao médico? Depois desistiram.

Clotilde se mudou para Porto Alegre, responsabilizada em parte pelos acontecimentos. No início dos anos setenta desapareceu em circunstâncias misteriosas. Nunca restou esclarecido o sumiço, atribuído no diz-que-me-diz-que ao órgão de repressão governamental.

Quanto à apuração dos fatos, se Carlinhos e André — que se salvou com seqüelas irreversíveis — fossem filhos de alguma das beatas de Cornélio ou de fazendeiros da milícia, talvez a história tivesse sido diferente. As investigações logo se encerraram. Correu boato de que o próprio Delegado de Polícia participara do atentado; pertencia à milícia revolucionária e, naquele dia e horário, não fora visto no acampamento. Quanto aos outros três cavaleiros, só existem boatos de que seriam figuras hoje destacadas da política local: o atual prefeito, o Presidente da Câmara de Vereadores e o Vereador líder do partido da Situação. Boatos não põem ninguém a ferros. A nova ordem política beneficiou os autores da tragédia e a anistia consolidou a impunidade.  

Vozes infantis ainda ecoaram por algum tempo na cidade. Na Vila Podre, até as crianças se tornarem adultas; na zona central, até os filhos da classe média e das famílias mais aquinhoadas irem completar os estudos fora. No princípio, ocorreu, também, de funcionários públicos chegarem aqui com filhos. Aos poucos só passaram a vir Juízes, Promotores, Delegados e Servidores Públicos sem filhos, a maior parte solteiros, sem família, o que virou regra sem que ninguém diga ou pergunte por quê.

O certo é que a totalidade dos nativos e visitantes de Serafim são estéreis, em virtude da Praga, como foi qualificada a proibição do Prefeito, ou do que quer que seja, e que se trancaram em tácito pacto de silêncio.

Os pobres encontram lenitivo na seita do Manivela, chamada Tempo de Redenção, perseguida nos anos de repressão política — além da volta do Salvador, pregava a igualdade entre ricos e pobres —, tolerada na Abertura. Os ricos e remediados têm pior sorte, já que nada os conforta.

A última criança nasceu no dia da Praga. Jamais pronunciou uma palavra. Todas as mulheres grávidas perderam seus filhos. Houve quem cogitasse de que a ausência de gravidez seria uma espécie de greve de úteros, hipótese logo descartada pelo próprio sacerdote em seus sermões. Segundo ele, as mães de sua paróquia, tementes a Deus e adeptas de idéias opostas às que conduziram uma criança à trágica perda da vida e outra ao aleijão e à debilidade mental, jamais cometeriam tal ofensa ao sacramento do matrimônio. Por outro lado, não tardou que se soubesse que os visitantes também eram atingidos, o que sepultou definitivamente a suposição.

A placa foi colocada com a intenção de prevenir os forasteiros para não virem inadvertidamente contrair a esterilidade.

Três de abril assinala o dia de apedrejar o busto do autor da Praga e, ainda, para os crentes da seita da Vila Podre, de reverenciar a memória do menino assassinado e homenagear a menina muda que chamam de Santinha.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 04h46
[ ] [ envie esta mensagem ]



ANOS-LUZ

Este céu tão distante que contemplo para filosofar em vão e que, em sua calada e secreta grandeza observa meus pequenos dramas do cotidiano, é passado longínquo, tão longínquo, que pode nem existir mais. Salvo o avião em trânsito e a nuvem passageira, vivo a realidade desta noite sob celeste ilusão. 



Escrito por Jerônimo Jardim às 19h16
[ ] [ envie esta mensagem ]



VÃ FILOSOFIA

Os que têm Fé, têm respostas frágeis para todas as perguntas. Os que não a têm, têm perguntas sólidas para todas as respostas. Com respostas frágeis e perguntas sólidas, continuamos todos, gênios e medíocres, frágeis sabidos e sólidos ignorantes. 

Escrito por Jerônimo Jardim às 19h09
[ ] [ envie esta mensagem ]



SERAFIM DE SERAFIM - V - pg. 13

 

(continuação)

V — O MITO

A memória é traiçoeira. Datas são perigosas. Quando as coisas são recentes, há fontes de pesquisa, revistas, jornais. Depois, pode-se errar por séculos. A História vacila diante das datas. Mas também vacila diante dos fatos. Conta-se o que está registrado ou o que ficou da tradição oral; ou as duas coisas. Sempre há a possibilidade de registros infiéis e de histórias mal contadas. Conta-se a verdade que se tem. A que não se tem, se inventa.   

Depois da renúncia do Presidente Jânio, segundo seu discurso, decorrente da pressão de “forças ocultas” que estariam obstando o pleno e regular desempenho do mandato, a execução das reformas que pretendia implantar — tirante a proibição das rinhas de galo e do uso de biquíni —, durou pouco o exercício da presidência pelo Vice, empossado após movimento liderado pelo Governador do Rio Grande, com poderes limitados por um parlamentarismo de conveniência, logo derrubado por plebiscito que restabeleceu o presidencialismo. Realizado comício em que anunciadas pelo Presidente as reformas que pretendia implementar, hostes conservadoras, padres em destaque, saíram em passeata invocando Deus contra o que denominavam “ameaça comunista”, já que, ao par das pretendidas mudanças estruturais, estavam sendo reatadas relações comerciais com a China e com a União Soviética.

Talvez fossem as “forças ocultas”, antes referidas por Jânio, que mostravam a cara. Talvez não. Mas líderes civis conspiraram junto aos quartéis para a derrubada do Presidente Jango. Os quartéis de Minas Gerais foram os primeiros a movimentar tanques contra o poder constituído. Em outros estados, comandantes e oficiais militares tramavam contra os comandos fiéis a Jango. Estava armado o golpe, concretizado em trinta e um de março de mil novecentos e sessenta e quatro. O Governador gaúcho liderou a defesa da legalidade, formando rede de rádio no Rio Grande do Sul para motivar o povo. Tentativa inútil. Jango frustrou Brizola, que já tinha conseguido adesão do Comando Militar da Região. Ou o Presidente — como justificou ao Governador do Rio Grande — pretendeu realmente evitar vão derramamento de sangue ou pouco teve influência em sua decisão o destino da Brasil, pesando mais o interesse pessoal de continuar criando bois em paz em suas fazendas. Mas sua cabeça estava a prêmio. Precisou comprar fazenda no Uruguai, também sob iminência de convulsão política, e nele se exilar.

Em Bagé os anticomunistas organizaram milícia civil. Há quem diga que conseguiram armas militares com oficiais que conspiravam nos quartéis contra o comando geral sediado em Porto Alegre. Aquartelaram-se na sede da Associação Rural, preparando-se para lutar noutra guerra interna.

O mesmo fizeram em Serafim os simpatizantes da chamada Revolução, armados como podiam, pois temiam o comunismo mais do que a qualquer outra coisa; aquartelamento simbólico, já que não havia inimigo na cidade em condição de enfrentá-los. Muitos ansiavam, com mínimas chances, por atos de bravura como os de seus antepassados nas revoluções.

Três de abril de mil novecentos e sessenta e quatro. A professora Clotilde da Cruz, diretora do Colégio Municipal, saiu em passeata com seus alunos pelo restabelecimento da democracia, batendo de frente com a marcha pela Revolução integrada pelas beatas do Padre Cornélio, por ele lideradas.

Sem se importarem com a fragilidade do inimigo exposto, nem com o fato de muitos alunos serem filhos das beatas do Padre ou dos companheiros aquartelados, quatro cavaleiros da milícia recém formada, sob o ímpeto da cachaça que circulava a rodo no acampamento, mascarados, atropelaram a passeata a galope, jogando os cavalos contra as professoras e as crianças. Do tumulto, dois corpos no chão; um, morto, outro ferido: meninos da Vila Podre. A Professora foi arrastada pelas ruas. Os cavaleiros não a mataram porque foram impedidos pelo Coronel Juvêncio Quadros, comandante da milícia. Todavia, ao dar ordem de dispersão aos manifestantes, que somente seria necessária para os amigos de Carlinhos Costa e de André Castilhos, que choravam por eles, indiferente ao medo e aos gritos das crianças, Juvêncio sentenciou:

— Que isso sirva de lição. Criança não se mete em política. Política é coisa de gente grande. Pra casa, pirralhada, ou o rebenque pega. Nunca mais quero saber de crianças fazendo reboliço por aí!

(continua amanhã) 



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h22
[ ] [ envie esta mensagem ]



REAJUSTE EM CAUSA PRÓPRIA

Os parlamentares aprovaram o reajuste de seus "magros" ganhos (na folha) em mais de 28%. Será que o percentual repõe a inflação do período? Bem... Pode ser que agora os desavergonhados flagrados deixem de assaltar os cofres da Nação. Pode ser... 

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h16
[ ] [ envie esta mensagem ]



NÃO PERCAM

Hoje, 30.5.2007, às 21 horas, no Teatro São Pedro, LÚCIA HELENA, GERALDO FLACH e BANDA, sob a direção de GILBERTO PERIN, apresentam o show ELIS - TANTA LUZ.

Escrito por Jerônimo Jardim às 06h11
[ ] [ envie esta mensagem ]



APARÊNCIAS

Estranhamo-nos quando nos vemos em fotos ou vídeos. Estamos habituados à imagem invertida dos espelhos. Até na aparência física não somos quem pensamos ser. 



Escrito por Jerônimo Jardim às 06h08
[ ] [ envie esta mensagem ]



CONTRADIÇÃO

Que democracia é essa, a da esquerda de Chavez, que nega liberdade de informação?

Escrito por Jerônimo Jardim às 06h06
[ ] [ envie esta mensagem ]



DISCO DO CHICO

O novo disco de Chico Buarque, é preciso ouvir bastante pra gostar. Contém propostas harmônicas novas, mais arrojadas. À exceção de um samba, as demais canções quase não têm pontos em comum com a singela complexidade da obra dele até então. Os gênios merecem atenção redobrada. Estranhei, às primeiras audições. Agora já gosto. Ele está - é o que me parece - à procura de novos caminhos. Evita a repetição das  próprias fórmulas.  

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h24
[ ] [ envie esta mensagem ]



SERAFIM DE SERAFIM - IV - pg. 12

(continuação)

— Eu não estou nem aí. Quanto ao resto do povo que não é adepto do Manivela, se debateu no princípio. Agora se cala. Mas não está conformado. Só que não quer olhar pra ferida. Quem mexe nela, tonteia.  Gira dentro da cabeça e acaba internado na casa dos doidos que o meu amigo médico atende... O meu amigo farmacêutico também leva a história na flauta, como eu e o outro, o médico... Mas pesquisa, examina terra, água, tudo...

— E daí?

— Nada!

— Está bem. Vocês três são exceção. Quanto ao resto, tirando o pessoal que espera Jesus, um não fala, outro não fala, e temos um tabu!

— O povo se envergonha de abrir a boca... Assim, tipo homem que sofre de broxura e não fala... Também não contam nada os Delegados, Juízes, Promotores, Funcionários Públicos que estão ou que já passaram por aqui. É cada um por si. Ninguém os preveniu; não previnem os sucessores. A média de idade dos moradores deve estar por volta dos quarenta. Isso que baixa por causa da gurizada de vinte e poucos que mora na Vila, que não tem meios pra ir embora e acredita em mudanças. Eu sou solteiro. Meus amigos são solteiros. Aqui na zona central da cidade ninguém pensa em casamento. Casar pra quê, me diz? Constituir família? De que família me “hablas”, como diz o Castelhano? Só os crentes do Manivela mesmo! E tem os babacas que perderam o apetite e os que acabaram pirados, como agora sabes... Eu e meus amigos aproveitamos que somos trepada segura e mandamos bago. Os da Vila rezam esperando Jesus vir pra desfazer a Praga...   

— Praga? Então temos também uma Praga? O que é isso? A própria, digamos, doença? — Silvério aproveitou a reticência, nesse momento da conversa atingido pelo argumento a respeito dos homens que só vão ao médico confiar seu problema em último caso, como ele quanto à dor impeditiva de ereção.

— Já está quase na hora de ir no Chico. — Taurino preveniu, consultando o relógio. — Mas em minutos te resumo tudo. — Acrescentou. — Vamos sentar um pouco naquele banco. Só espero que não te deixes abater como aqueles caras. — Apontou novamente para o Hospital dos Aflitos, nome do abrigo de doentes mentais, o que Silvério soubera ao passar pelo portão e ler a placa frontal.

— Touro Velho, se estou nessa, quero saber da coisa toda. 

Acomodaram-se à sombra de um cinamomo, ao lado do busto de bronze de um tal de Juvêncio Quadros, de quem Silvério nunca ouvira falar e do qual não conseguia tirar os olhos.

— Bueno, então vamos lá, Zeca... Mas uma coisa não está batendo muito bem pra mim... Eu não esperava que tu tivesses um faniquito... tipo ataque de histeria. Mas estou te achando apático diante da merda toda. Meço por mim... Mesmo sem querer, sempre que falo nessa coisa me cutuca um troço lá no fundo.

— Por enquanto só quero ouvir. — Silvério tentou justificar a aparente apatia, o olhar detido no busto de bronze, agora certo de que o fato não era tão sem importância para Taurino como ele procurava fazer crer. — Quem era o cara? — Perguntou.

— Quando eu te contar o resto da história saberás quem é, e porque esse busto hoje só está aí pra apedrejar. Mas vamos lá... Como eu te disse, em minutos te conto a coisa toda e logo estaremos na oficina, que fica pertinho. — Taurino prometeu, percebendo o interesse de Silvério no monumento, mas também sua preocupação com a ida ao mecânico.

(continua amanhã)

 



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h10
[ ] [ envie esta mensagem ]



SERAFIM DE SERAFIM - IV - 11

(continuação)

Silvério bebeu a cerveja em grandes goles, imitando o amigo. Saíram sob o olhar do hoteleiro, que aparecera de abridor na mão e uma garrafa destampada no instante em que se dirigiam à porta.

— Tarde demais, Castelhano. Toma essa na minha conta. A gente vai na oficina do Manivela, mas volta pra bóia. Diz pra Dona Josefa caprichar. Quero o melhor pra esse amigo e ex-colega que está vindo da Capital. — Disse Taurino, pondo o braço em torno do pescoço de Silvério. 

Caminharam meia quadra em silêncio, Silvério com inveja das largas abas do chapéu que protegiam convenientemente a cabeça de Taurino do sol do fim da manhã.

— Lá fica um colégio do Município. — Taurino indicou antigo prédio, cujas paredes úmidas, tomadas por heras e musgo, conferiam-lhe ar de abandono.

— Hoje não tem aula? — Silvério perguntou.

— Não só hoje... Há quase cinco anos. 

— Ué! Aqui as crianças não... — Silvério interrompeu a frase e a caminhada. Olhou em torno. Ouviu tocar uma sineta interior. Encarou Taurino, intrigado, à espera de explicação.

— Essa é a questão, entendeste?  Estás te perguntando pelas crianças da cidade, não é verdade? — À falta de resposta, prosseguiu. — Pois bem, não temos. — Silvério permaneceu em atento silêncio. — Achas estranho? Eu também. Mas não temos. Aqui as mulheres não engravidam. Achas absurdo? Eu também. Em síntese, é isso. Mulher dessa cidade não serve pra tirar cria e homem daqui não emprenha nem a maior parideira do mundo. Não tem benzedura, mandinga, passe de mágica, médico, farmácia ou remédio. Somos trepada de segurança máxima. A última vez que veio um forasteiro, dez anos mais ou menos, ficou como nós e todos que vivem, viveram ou vieram um dia aqui. Queria mais filhos. Consultou um monte de especialistas. Acabou aceitando a sina. Não contou nem pra esposa. Um dia ela apareceu de barriga. Ele se separou. Nunca ela vai saber como ele suspeitou que o filho não era dele...      

Silvério olhava incrédulo para Taurino, como se a história fosse apenas fruto da imaginação. Mas e a as crianças? Não vira nenhuma.

— Pelo que entendi, eu também estou acabado como reprodutor? — Perguntou em tom irônico.

— Impotente, só se optares por te deprimir, como o monte de broxas e frígidas que moram lá. — Taurino apontou para um casarão cercado por grades de ferro que ficava na esquina do quarteirão seguinte, pelo qual já iriam passar, pois tinham retomado a caminhada. — Eu não dou importância, tchê. — Prosseguiu. — Nem eu, nem meus amigos. Semana sim, semana não, nos mandamos pra Bagé, Livramento ou Rivera e descontamos o atraso.  

Silvério achou amargo o pretenso cinismo.  

— E as gurias daqui? — Perguntou.

— As da Vila Podre não dão pra gente. Têm a seita do Chico... o mecânico que vai consertar o teu carro. Lá na Vila elas casam, constituem família. Acham que um dia Jesus lhes devolverá a fertilidade. Aqui no centro, fora a Mariana, viste alguma guria por aí? Não viste, nem vais ver. Nas férias vem parte da gurizada que estuda fora: um bando de machorras e veados! — Taurino fez pequena pausa. Silvério entendeu que ele dava um tempo para que digerisse as informações. No silêncio, continuou. — Não te espantes. Não exagero. Não me perguntes porque. Essa não é a minha praia. As gurias que se escapam dessa não querem nada com a gente. Pra te dizer a verdade, nem nós queremos nada com elas.  

Fidedigna a fonte e diante de fatos constatáveis, tinha que aceitar a veracidade daquela história que ouvia como quem ouve uma fábula. Admitida, precisava considerar a hipótese de ter sido afetado. Mas para quem estava morto quanto ao primeiro estágio, que falta faria o segundo? Que falta faria a fertilidade pra quem não podia levantar o pau? Assim, até aquele momento do relato, Silvério se sentia muito mais curioso do que abalado.

— Muito bem! Temos um fato. Um fato, não. Temos uma excrescência. Vocês não têm crianças nascendo aqui. E não se perguntam a razão?

(continua amanhã)  

 



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h23
[ ] [ envie esta mensagem ]



EFEITOS COLATERAIS

Há uma semana tomo um remédio da linha veterinária na esperança de curar incômoda dor no ombro. Destina-se, segundo a bula, a cachorros com problemas em articulações. Ainda não é comercializado em farmácias para a espécie humana. Mas está dando certo. Já posso até voltar às quadras de tênis. Efeitos colaterais? Nada preocupante, por enquanto. Somente alguns uivos noturnos, por mim suportáveis (ancestral vocação canina despertada?), e estranha compulsão quando vejo poste. Espero que, no curso do tratamento, não venha a querer sacudir o rabo e sentir ímpetos de entrar nas cortes coletivas à Dama do Vagabundo.   

Escrito por Jerônimo Jardim às 15h48
[ ] [ envie esta mensagem ]



COCORIIIICOOO!

MAIS OUTRA AGACHADA! O QUE É ISSO, SEU GALO?

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h48
[ ] [ envie esta mensagem ]



SERAFIM DE SERAFIM - IV - 10

(continuação)

IV — O AMIGO 

— Zeca! Velho Zeca de guerra. Não acredito no que vejo!

Silvério demorou a reconhecer o homem moreno, autor da festiva recepção, que se levantara e vinha ao seu encontro de braços abertos. Só quando estava bem perto o reconheceu. Alegrou-se à presença do rosto amigo. — Taurino... Touro Velho! — A lembrança do nome e do apelido lhe deu mais uma razão de contentamento, pois já havia pensado no ex-colega mais de uma vez, sem lembrar nem de um nem de outro.

Trocaram efusivo abraço.

— Vem tomar uma cerveja comigo e me contar o que vieste fazer neste fim de mundo.

Silvério aceitou o convite. Sentou-se à cadeira que Taurino lhe indicou com um leve aceno. Olhou em torno. Nem Francisco estava presente. Taurino bebia sozinho. Até que enfim uma afetuosa acolhida, pensou Silvério, reportando-se às meditações no templo. Pelo que lembrava, Taurino Marques — conseguia recordar até o sobrenome, coisa mais rara ainda — era de Bagé, cidade que referia quando estimulado a contar bailes e façanhas da vida no interior. Depois das aulas na Faculdade de Direito costumavam ir juntos a festas e bares da animada noite portoalegrense dos anos setenta. Apenas ganhara alguns quilos. De resto, não mudara muito. Avaliava os rastros do tempo na aparência do amigo, que uns chamavam de Touro Velho, outros de Negrão.  

— Mas Touro Velho, tu não moras em Bagé? Eu pensava que a tua família tinha campos por lá.

— Na verdade, eu só estudei em Bagé. Se eu dissesse que era de Serafim, ia dar assunto à toa. Alguma vez ouviste falar nesta biboca?

— Nunca! Sem querer ofender, com todo o respeito, nem figura no mapa.

Taurino riu. Silvério contou do fuca estragado, que somente esperava o meio-dia para ir na oficina providenciar o conserto do carro e seguir viagem. Contou também do modo como estava sendo recebido; melhor, não recebido na cidade. 

— Castelhano, traz outra cerveja. — Taurino clamou pelo hoteleiro.

Relembraram fatos dos tempos de universidade, preenchendo a lacuna dos quase dez anos que não se viam ou falavam. Taurino contou que pai, depois mãe, tinham falecido e que, filho único — que tinham isso em comum, Silvério não lembrava —, assumira a administração da fazenda. Silvério comentou as perdas coincidentes, contou das vãs tentativas de se estabelecer como advogado e o que buscava na fronteira. Omitiu a questão de saúde, seu tabu particular.

— Zeca, Bagé também é uma cidade cheia de advogados. — Taurino coçou a cabeça. — Mas agora é tarde, já estás aqui. 

— Se não der lá, vou em frente. Mas me conta da aversão do teu povo por forasteiros. — Silvério tentou obter a resposta que não obtivera do Padre e do hoteleiro. 

Taurino suspirou como se pensasse se valia a pena abordar o assunto. Acendeu um cigarro.

— Vieste ao sítio proibido. — Esboçou sorriso forçado. Fez pequeno hiato. Continuou. — Embarcaste sem querer numa canoa furada. — Deu profunda tragada. — Não estão te evitando por aversão a forasteiros. Tu sabes que a gauchada, em regra, costuma ser hospitaleira; o povo daqui não é diferente nisso. O problema é que a nossa gente, tirando o pessoal da Vila Podre, não quer nem pensar no assunto. 

Taurino bebeu em goles rápidos o conteúdo do copo. Encheu-o novamente até a borda. Bebeu tudo de uma sentada, sem respirar. Estalou os lábios. Pegou o chapéu que deixara pendurado pelo barbicacho no espaldar da cadeira e se levantou, amassando no cinzeiro a ponta do cigarro pela metade.

— Emborca esse troço como nos velhos tempos. — Apontou para o copo de Silvério. — Esse castelhano está demorando além da conta. Nem sei se me ouviu. Vou te acompanhar à oficina. Acho que o Manivela já voltou lá de fora. Foi consertar um dos meus tratores.

Vendo que Silvério não se mexia da cadeira, insistiu:

— Vamos, tchê! A gente segue o papo no caminho.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h33
[ ] [ envie esta mensagem ]



OBJETOS IN(ÚTEIS)

Ao precisar hoje de um arame de desentupir encanamentos que comprei, tenho certeza, há uns cinco anos numa hora de necessidade doméstica, aprendi algo: é preciso arrumar na casa um lugar em que fiquem visíveis os objetos úteis que não são de uso rotineiro. Depois de revirar caixas e caixas de guardados, achei outros que já havia comprado duas vezes ou mais; menos o tão procurado. Guardar tais utilidades desse modo é convertê-las em tralha inútil. O tal desentupidor, atualmente, onde quer que esteja guardado (escondido?) não mais serve para desentupir canos; sim, para entupir espaços. Seria útil ainda se o tivesse doado após o uso. Não atulharia a casa. Até no lixo teria maiores chances de ser achado; continuar a cumprir suas serventias. Perdoem o mau humor. As caixas de inutilidades me aguardam para retornarem aos seus cantos-esconderijos. Ainda não descobri como dar permanente visibilidade a tanta porcaria. 

Escrito por Jerônimo Jardim às 08h56
[ ] [ envie esta mensagem ]



SERAFIM DE SERAFIM - III - 9

(continuação)

— A que devo sua visita à casa de Deus? — Indagou o Padre.

Sem responder, Silvério estendeu a mão para corresponder ao cumprimento, apenas dizendo o nome com cortês formalidade.

— E o meu é Cornélio. — O Padre se identificou.

Silvério passou a respirar pela boca para evitar o odor de cachorro molhado que recendia da rota batina, já mais para o cinza do que para o preto, daquele padre gordo de fala ofegante que parecia suportar com galhardia o peso da idade.  

— Eu ia passando. Resolvi entrar. — Silvério respondeu à pergunta que ficara sem resposta. 

— Nunca vi o senhor na cidade! Nunca veio aqui antes, certo?

— Só vim porque preciso consertar o carro. — Silvério respondeu, mantendo-se em pé.  

— E à igreja, veio para os sacramentos?

— Padre, se eu resolvesse me confessar o senhor teria que ficar comigo dias a fio. Nem lembro da última vez em que me ajoelhei num confessionário!

— Não faz mal. Ainda que não se lembre de tudo, Deus é bom e compreensivo diante do verdadeiro arrependimento. Posso lhe dar a absolvição. — Insistiu Cornélio.

— Quitação total?! — Silvério caçoou. — Obrigado, Padre. — Procurou, pelo tom de voz, não parecer ofensivo.

Cornélio não fez questão de esconder o desagrado. Não parecia disposto a deixar passar ao largo, sem marca, uma ovelha extraviada, pensamento que Silvério não conseguiu evitar, deixando aflorar um sorriso.

— Padre, acho que o senhor pode me ajudar numa coisa. — Como o velho parecesse disposto a ouvi-lo, prosseguiu. — Estou curioso. Por que as pessoas me evitam? Por que não sou bem-vindo? Ou é mera impressão minha?

Cornélio pigarreou.

— Vou ter que sair. Há um paroquiano passando mal. E extrema-unção é das poucas coisas que restam pro sustento deste pobre pároco. — Queixou-se. Acrescentou. — Por outro lado, o senhor não quer falar com o dono da casa...

— Como não quero, se estou falando com o senhor?

— Está falando comigo, não com o Senhor. — Apontou para cima. — Ele é o dono da casa, não eu, seu simples pastor. Se quer somente falar comigo, vai ter que ser em outra hora. O ofício em primeiro lugar. Deus seja louvado. Mais tarde, se quiser, a gente se fala. — Disse a caminho da porta, enquanto punha o chapéu. 

— Acho que não vai ter outra vez, Padre.

— Talvez não, talvez sim. Passe um bom dia. — Cornélio não interrompeu a caminhada. Seus passos ecoaram no interior da nave.       

Recusara o sacramento. Dele decorreriam outros. Conhecia o poder de persuasão dos padres. Tempo distante. Pais católicos, filho único. Tudo o que um dia, na juventude, fora-lhe taxado de pecaminoso, hoje relevava complacente: masturbações, mãos sob as saias das meninas, brincadeiras de casinha, de papai e mamãe. Esses eram os grandes pecados, além de um ou outro furto de doces ou moedas da mãe. Os últimos não motivavam seus confessores.  Queriam histórias picantes. Mal ajoelhava e recitava o “Padre dai-me vossa bênção porque pequei!”, vinham as perguntas constrangedoras. Fez coisas feias? Com quem? Às vezes tinha que dizer que consigo mesmo. Essa curiosidade obsessiva, hoje achava, só podia decorrer da triste condição de celibatários privados da satisfação de naturais impulsos, doída luta para se manterem obedientes às imposições do Vaticano, colidentes com a palavra atribuída ao próprio Deus feito homem: Crescei e multiplicai-vos! Cortavam a corrente da reprodução por cabeça ou por estirpe, quando filho único o padre, como ele. Castravam-se moralmente, enquanto, logo ali, além da janela do confessionário, o sexo florescia em múltiplas nuanças. Naquele momento da vida se sentia em pior situação do que a dos padres, já que podiam proibir-lhes relações sexuais, mas não solitárias ereções. Como conseguia alguém privar-se de tamanha benesse natural sem sofrimento? Perdoou o mau humor do velho. Apiedou-se de si. Castigo? Preferia ainda acreditar em mau acaso. Decididamente, a fé não lhe oferecia soluções. O catolicismo só lhe proporcionava dúvidas. Mas saiu do templo mais leve. Não aliviado das dores, mas sem culpas.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 08h42
[ ] [ envie esta mensagem ]




[ ver mensagens anteriores ]