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SERAFIM DE SERAFIM - III - 8

(continuação)

III – O PÁROCO 

Não havia opção no cardápio. Feijão, arroz, salada, bife e batata frita, foi o jantar de Silvério Santos, muito bem-vindo porque servido pela moça do hotel. Ela deu mostras de que sua presença a agradava. Evitavam sorrisos e olhares quando percebiam a atenção do hoteleiro. Esbanjavam-nos à ausência dele.

— Só eu janto nesse hotel? — Silvério, diante das demais mesas vazias, perguntou ao hoteleiro.

— Sim. — Foi a resposta.

Não levou o assunto em frente. Se a ausência de hóspedes e fregueses decorria de sua presença, não saberia o que comentar. Além do prejuízo ao hotel, que já seria considerável, se submeteria a constrangimento se o hoteleiro falasse com franqueza.

Nem aproveitou a lâmpada trocada para ler. Estava exausto. Dormiu sono reparador, sem sonhos. Gostaria de ter sonhado com a menina do hotel.

No café da manhã, dois homens ocupavam a mesa próxima do balcão. Fingiram não perceber sua chegada. Seguiram conversando em voz baixa. Silvério respeitou-lhes a privacidade. Retiraram-se ao fim do café sem lhe dedicar uma única olhadela. Concluiu que também estavam hospedados no hotel, já que tomaram o rumo dos quartos.

Resolveu conhecer o lugar, fazer tempo até a hora de ir à oficina. Francisco acompanhou-o à porta. Desejou-lhe um seco “bom-dia”. Ao se voltar para corresponder ao cumprimento, viu Mariana junto ao balcão. Mais ao fundo, próxima do vão de entrada do corredor enxergou, sem nitidez, pois já acostumara os olhos à claridade do dia, o vulto de uma mulher. Percebendo que fora vista, ela se retirou. É mais encabulada do que a filha, Silvério pensou, presumindo que vira a esposa do hoteleiro.

As pessoas que encontrava no caminho continuavam a evitá-lo como no dia anterior, passando rapidamente para o outro lado da rua. Não recebia dos transeuntes um único olhar que pudesse perceber, embora se sentisse permanentemente observado.

 Não entrava numa igreja há anos. Cedeu ao impulso ao se ver  diante da que provavelmente era a única da cidade, e que, a considerar o estado de conservação, estaria condenada por qualquer fiscalização séria. Achou que, solidão por solidão, estaria menos só à presença de imagens secularmente adoradas pelos católicos, mesmo que nada mais representassem para ele. Pensou que precisaria torcer para que o teto não desabasse. Não pretendia permanecer em Serafim, muito menos sob os escombros de um velho templo.

Escuro interior. Aos poucos capacitou os sentidos à observação dos detalhes. Tudo padecia da falta de cuidado. Um cheiro de mofo se desprendia das paredes. Os móveis estavam minados de cupins. Sentou-se no banco mais perto do altar.

Quando se afastara da religião? Em que momento não mais encontrara em sua vida lugar para a fé, para a exaltação divina? Quando começara a descrer em céu, inferno, santos e demônios? Tinha certeza de que ainda muito jovem; mas não conseguia precisar o momento. Assaltavam-lhe muitas dúvidas e contradições desde aquela época até então, agravadas no presente próximo em que, na busca de equilíbrio, passara a dedicar mais tempo à meditação. Uma delas era o fato de não crer em Deus e não se considerar ateu. Como não acreditava, se ainda se deixava impressionar por acasos e coincidências? Sabia muito próximos o ideário mágico e o teísta. Não conseguia afastar com plena convicção a possibilidade da existência de um comando maior, fosse ele o que fosse, superior à compreensão científica. Via de conseqüência, abriam-se entrelinhas nas linhas tortas em que poderiam residir um ou muitos determinadores de destinos, nada mais nada menos do que deuses.      

— Bom-dia. Deus seja louvado!

Justamente quando pensava em Deus, aparecia-lhe à frente um de seus ditos representantes terrenos. Não lhe ocorreram palavras que considerasse adequadas. Levantou-se.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 06h55
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SHOW EM SANTO ANTÔNIO DA PATRULHA

Gracias à recepção carinhosa do Fred da AUDIO CINE CHOPPERIA, da CARMEN, do pessoal da MOENDA e do público que prestigiou minha apresentação. Até outra oportunidade.

    



Escrito por Jerônimo Jardim às 06h50
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SERAFIM DE SERAFIM - II - 6 a 7

 

(continuaçao)

II — MARIANA

 

 

Já anoitecera quando a guria retornou. Tardaram um século os vinte minutos, contados por Silvério um a um.

— Senhor, minha filha o acompanhará aos aposentos. — Disse-lhe Francisco, com pompa.

Que se danasse a dor, a estada começava a ficar interessante, pensou Silvério ao revê-la. Não parara de pensar nela enquanto esperava. Tinha que ter um rabo de saia no meio, diriam as poucas amigas, se é que podia considerá-las assim, porque bastaria um ano sem vê-las para não mais se lembrar do nome delas. Esqueceria tão facilmente aquela mulher? Perguntou-se. Já esquecera tantas. E aquela nem conhecia direito. Simples foco de desejo.

Ela se aproximou para pegar a bagagem, que continuava na cadeira em que a largara na chegada. Não permitiu, murmurando um “muito obrigado”. Seguiu-lhe os passos, que navegaram nas alpargatas calçadas feito chinelos.

Ela abriu a porta do quarto. Entraram. Havia uma cama de solteiro e pequena mesa. Os lençóis, muito brancos, estavam estendidos com cuidado; o de baixo, bem preso às bordas do colchão, como gostava. A mãe, há pouco falecida, tinha esse capricho. Achava que, bonita como era, se mantivera viúva por medo de não encontrar homem capaz de conviver com suas manias de ordem e arrumação. Lembranças! Tudo por causa de um quarto arrumado por uma linda mulher.

Da maneira mais cortês que pôde, reclamou da lâmpada, dizendo-a fraca para leituras. A guria saiu, dando a entender, por meio de gestos, que solucionaria prontamente o problema. Preferiu aguardar sem desfazer a bagagem. Continuou a pensar nela. Não ouvira ainda o timbre de sua voz. Mas conseguira vê-la nua na imaginação, tirar-lhe mentalmente o vestido. Chegara perto o bastante para sentir vontade de degustar sua pele, grudar-se feito selo no envelope, prender-se nela até que ela se enojasse de sua incompetência.

A solução do problema da lâmpada não chegou tão pronta. Como a guria tardava a voltar, resolveu acomodar as roupas no armário. Algumas ainda estavam sobre a cama, quando ela retornou com a prometida lâmpada e instalou-a. Tentando extrair-lhe alguma palavra, quis saber o horário da janta. Ela mostrou oito dedos, elevando as mãos à altura do rosto.

— Você também ajuda na cozinha? — Ele indagou.

Ela sinalizou negativamente, com a cabeça.

— Serve às mesas? — Nova pergunta.

Obteve gesto afirmativo e um sorriso.

— Que bom! — Deixou escapulir.

Acompanhou-a à porta. Ela se distanciou no corredor. Virando-se subitamente, surpreendeu-o. Sorriu. O coração bateu mais forte, descompassado. Não se lembrava de emoção igual, ultimamente. E acontecia ali, naquele cafundó, por conta de uma guria que nem falava, beleza perdida num fim de mundo, pensou. Do intelecto, nada sabia. Não gostava de moças tipo papo-cabeça; mas tampouco agüentava mulher burra. Tinha ouvido de algumas que era típico dos machistas a preferência por mulheres de nível intelectual inferior pelo simples medo da perda do comando. Que homem, em sua normalidade, sem nenhum interesse escuso, preferiria uma mulher dominadora? Sempre escolheria uma que o admirasse. Se crer nisso era ser machista, então o era. E que importância tinham tais opiniões a seu respeito? Gostava de se sentir leão no pedestal, se bem que do leão tinha perdido até a juba. Ao diabo as opiniões. Buscava reconstruir-se.   

Pegou um livro da bolsa. Não conseguiu se concentrar. Serafim, no momento, era um livro mais curioso: estranha placa, estranha cidade, estranha gente, estranho hotel, estranha guria. No mapa, localizara Bagé, a cidade mais próxima de onde se encontrava e por ele eleita como primeira tentativa de encontrar seu destino; mais Caçapava, Lavras, Dom Pedrito, Livramento... Examinara-o com atenção antes de pegar a estrada. Retrocedeu mentalmente ao momento em que decidira sair da Capital. Não dava mais para ficar, depois de tantos anos de formado tentando sem sucesso firmar-se na profissão. A doença fora só a gota d’água. Nada o prendia ao passado. Pai falecido antes, mãe mais proximamente, tios e primos de pouco contato ou vivendo em outras cidades. Retornou da retrospectiva. Lembrou-se de que tirara o mapa do porta-luvas e de que o colocara na bolsa. Encontrou-o num dos compartimentos. Abriu-o sobre a mesa, após afastar o copo e a jarra que a moça, zelosamente, teria providenciado ao arrumar o quarto. Serafim não merecera referência dos editores. Conhecia lugares muito menores que figuravam no mapa. Por que nele não constava uma cidade aparentemente antiga e, certamente, com mais de mil habitantes? Todavia estava nela. Estou aqui, logo existe, pensou.

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h40
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VITÓRIA GREMISTA

Novamente, por estar em campo legítimo representante da raça gaúcha, torci pela vitória do Grêmio pelo placar frustrado por uma caprichosa (maldita!) bola na forquilha que não entrou. Dois a um seria o placar mais justo. Não ando com muita sorte "enquanto" (linda expressão, né?) torcedor de futebol. Acho que vou começar a acompanhar campeonato de cuspe à distância contra o vento, jogos desse tipo, talvez mais estimulantes do que essa correria, chutões, tombos e cacetadas por causa de uma pobre bola.

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h35
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SERAFIM DE SERAFIM - I - 4 a 5

(continuação)

— Não estou entendendo...

A conversa foi atalhada. Silvério achava que se prometia esclarecedora. Mas a aparição da guria arredou a curiosidade, levando-o a considerar que já tinham valido o enguiço do carro e a caminhada. Lembrou dos adjetivos que algumas mulheres lhe reservavam: volúvel, galinha, este o pior, porque o sujeitava ao desprezo até mesmo das que não estavam para ligações sérias. Não se incomodava com os pejorativos. Nem se esforçava para mudar. Não tirava mulheres para comadre. Conquistava-as para uso eventual. Nem para piloto de fogão queria uma. Sorriu do lugar-comum. Às vezes se valia dele para gracejar. Machista cretino, as moças imprecavam. Só que, no último ano, o galo baixara a crista, quebrara as puas. Bateu-lhe a pena de si próprio ao ter a mercê do olhar, que continuava voraz embora sem eficácia, aquela guria sedutora por natureza.        

— Prepare um quarto para o nosso hóspede, filha. — Francisco ordenou em tom suave. — E vê se a Josefa já começou a preparar a janta.

Silvério se sentiu repentinamente tocado de viés pelo olhar da guria. Teve ímpeto de desprezar o medo da tesão, invadido por anseio de gozo ancestral, antropofágico. Mas aí, maldita dor, oriunda de mal que nem médico, nem psicólogo, únicos detentores de seu segredo, como acreditava, tinham conseguido descobrir. Era como se tivessem colocado nele o anel desestimulador de ereções que vira em cavalos de corrida. Dor agoniada de macho ferido. Tão logo consertado o carro se iria dali. Fugiria daquela frustrante tentação, daqueles inexplicáveis olhos azuis da bugra. Fosse o que era antes, daria vazão à fantasia, um rapto, hoteleiro bicando nos calcanhares, pele com pele no fim da fuga. Mas novamente a dor, para não esquecer que a mudança se restringia ao estímulo e ao ambiente.  

A jovem se foi pelo corredor.  

Francisco Lopez, absorto em seu balcão, de propósito — ao menos assim Silvério entendeu —, entregou-se a escritas e cálculos. Sem ter o que fazer ou com quem conversar, Silvério se dedicou ao exercício de iniciar e cortar fantasias, provocar e reprimir desejo e dor. O exercício masoquista recém descoberto poderia se converter em gozo, como o estava praticando. Não eram poucos os que só no sofrimento chegavam ao orgasmo. Mundo louco, pensou. Sentou-se à mesa onde uma jarra com água e copos se encontravam postos. Bebeu, secando com o dorso da mão o suor das sensações. Ansiosamente aguardava o retorno da guria para, quem sabe, ganhar um sorriso, algumas palavras, trânsito livre à intimidade. Era a primeira vez em meses que desdenhava de sua desdita. 

 

(continua amanhã)



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h25
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SERAFIM DE SERAFIM - I - páginas 3 a 4

(continuação)

 

A sala cheirava a cigarro, incômodo para quem deixara de fumar há menos de um ano.   

— O senhor pode me dizer onde encontro um mecânico? Estou com o carro estragado. Ia pra Bagé. Vim a pé até aqui. — Disse, dirigindo-se ao homem que, ao menos por força do ofício, parecia mais suscetível de abordagem, enquanto largava a bolsa numa cadeira. Sem se afastar do balcão, o homem com cara de bugre consultou o relógio de bolso, talvez por cacoete, pois havia um de pêndulo na parede dos fundos. Guardou-o devagar. Espichando-se para alcançar o botão, baixou o volume da TV.

— O carro então ficou na carreteira? — Perguntou.

Um colega de faculdade certa vez lhe dissera que na fronteira usavam a expressão de origem espanhola para se referirem à estrada principal. Lembrava-se do amigo novamente. Pouco depois do carro enguiçar, tinham-lhe vindo à mente o apelido e a figura da pessoa que o pusera, um cara de Bagé — cidade que ao acaso escolhera como primeira tentativa de reiniciar a vida — cujo nome se fora da memória, coisa comum de acontecer.

Confirmou com um gesto que o carro ficara na estrada principal.   

— Bem, senhor...

— Meu nome é Silvério, Silvério Santos. — Apresentou-se, percebendo o sentido da reticência. — E o seu?

— Francisco Lopez. Sou o dono dessa joça. — Disse o homem, sem dissimular a má disposição para o diálogo. — O povo prefere me chamar de Castelhano. — Acrescentou.  

— Prefiro Francisco. — Opinou Silvério com intenção aduladora, percebendo que o homem não apreciava o apelido.  

— Melhor!  Não me “gusta” a alcunha. Quanto à sua pergunta, o único mecânico que temos aqui é o Chico Manivela. Acho que ele até lhe atenderia, embora logo vá anoitecer. Mas não vai dar. Ele foi numa estância consertar um trator. — Informou Francisco.

— Sozinho não tenho como fazer funcionar aquela porqueira. O senhor tem vaga pra uma noite?

— “Tengo”. — Francisco respondeu, lacônico. 

Feito o registro, forçando passagem para fora do balcão, o hoteleiro empurrou o maltrapilho, que ainda o usava como escudo.

— Te tapa de quero-quero, maluco! — Ordenou, rudemente.

O homem correu manquejando porta a fora.

— O Dedé me tira a paciência. Mas não se impressione com ele. Só “tiene” macacos no sótão. Vive por aí de esmolas ou vendendo bilhetes que quase ninguém compra. – Francisco descreveu-o com poucas palavras. — Mariana, vem cá. Temos hóspede de fora! — Gritou, acentuando a expressão “de fora”, rosto voltado para o vão lateral, sem portas, que permitia enxergar um corredor mal iluminado.

Frente a frente, enquanto esperavam a presença solicitada, ficaram desviando olhares, sem assunto. Silvério se deu conta de que permaneceriam assim horas a fio, caso não tomasse iniciativa.

— Por que o... Dedé... — Gaguejou. — Por que o homem se assustou tanto quando me viu? — Perguntou.

— Primeiro porque, já lhe disse, é meio pancada. Segundo, porque “nosotros” não estamos “acostumbrados” a estranhos.

— Pelo jeito que encaram os forasteiros, parece que não puseram por brincadeira aquela placa na estrada!

Silvério pôde perceber o desagrado do hoteleiro.

— Cadê essa menina, que não vem? — Francisco mudou o rumo da conversa.

Parecia sincero na preocupação com a demora, talvez porque lhe desagradasse o diálogo, presumiu Silvério.

— Quanto ao que o senhor disse sobre a placa, digo-lhe uma coisa. Não se trata de brincadeira. Somos gente séria. E até posso “le” advertir que não vai “le gustar mucho” ter feito vista grossa pro aviso.

(continua amanhã)    



Escrito por Jerônimo Jardim às 05h53
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SERAFIM DE SERAFIM - I - 1 a 3

I — A PLACA

 

 

Em nenhum momento passou pela cabeça de Silvério Santos — Zeca, como fora sem qualquer razão plausível apelidado por um colega de faculdade — que devesse ser merecedora de observância a placa de letras desbotadas: “Serafim. 20 km. Se você nunca veio, não venha”.

Não fosse o fuca empacado, sem sinal na parte elétrica, nem a teria notado.

A advertência minimizou a irritação.

Momentaneamente desligado das dificuldades e despesas que teria que enfrentar por causa da pane, leu e releu o texto, imaginando tratar-se de manifestação humorística de compreensão limitada à gente do lugar.

Retirou do porta-malas a bolsa com poucas mudas de roupa, calçados, mais um pouco de dinheiro, que serviu para lembrá-lo de que todas as economias seriam suficientes para um ano se soubesse dosar gastos pessoais, o que não compunha o seu perfil.

Fechou o carro.

Começou a caminhada, disposto a vencer a quilometragem da placa antes do final daquele dia de início de setembro.

Ao fim do trajeto, em que só um celeiro abandonado quebrara a monotonia das tonalidades da campanha, avistou um cemitério na entrada da cidade; um pouco além, a torre de uma igreja; ranchos de barro, nos arrabaldes; e um casario de alvenaria, descolorido e descascado, revelador de desleixo e antigüidade do povoado.

O sol se aproximava do horizonte, quando começou a percorrer a rua de acesso à cidade infestada de borboletas, cruzando com gente que fingia não vê-lo, aparentemente contrariada com sua presença.

Por puro acaso, chegou ao portão de uma oficina mecânica. Dizia na placa frontal: “Oficina Manivela”. Estava fechada. Olhou o relógio. Ainda faltavam dez minutos para as sete da tarde. Viu, a dois quarteirões, outra placa que rangia ao vento chamando a atenção: “Hotel Central”. Era do que mais precisava no momento, ansioso por se livrar da poeira que parecia invadir-lhe as tripas, descansar os braços, esticar-se numa cama.

O primeiro homem que apareceu à porta franziu o cenho, esbugalhou os olhos, abriu boca desdentada de espanto e, com tal máscara de susto, afastou-se em trôpega disparada para abrigar-se às costas de um outro com olhos de bugre, que observava a cena por detrás do balcão, ao fundo da sala. 

As mesas daquele misto de bar e recepção esvaziaram-se em minutos. Algumas pessoas, que ali só estariam para beber, prosear e assistir televisão, saíram apressadas. Outras, hóspedes habituais, vendedores e representantes comerciais — soube mais tarde —, se retiraram para os aposentos. Permaneceram na sala o homem do balcão e o desdentado. Um, cerimonioso; outro, com medo de algo que Silvério não conseguia detectar.

(continuação amanhã...)

 



Escrito por Jerônimo Jardim às 07h21
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SERAFIM DE SERAFIM

Como até agora nenhuma Editora se manifestou, vou publicar essa novela aqui no blogue, de duas em duas páginas. É a história de um aventureiro que faz o caminho inverso do êxodo rural. Encontra uma cidade que ficou um pouco distante da passagem do asfalto e, por isso, esquecida, fora do mapa. Nela não nasce ninguém há vinte anos e visitantes não são bem-vindos; algo difícil de explicar, como tudo que transcende ao alcance da ciência e se converte em mito, instrumento de mistificação e, às vezes, como no caso, em tabu para os nativos. Cabe apenas reportar os fatos. Juro que aconteceram, bem na época da passagem do Cometa Halley. Amanhã começo a contar.  

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h14
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NETTO PERDE SUA ALMA

Já vi mais de seis vezes e verei outras tantas. Sempre me emociono com essa saga escrita pelo Tabajara. Vejam. A trilha do Celau Moreyra é maravilhosa.

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h08
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AMSTERDÃ

Não resisti à tentação de colocar no blogue essa letra do jornalista cariúcho Timóteo Lopes. Fiz a valsinha à primeira vista. Nunca imaginei que alguém pudesse falar assim de uma mulher-cidade, perigosa, mas que lhe dá guarida e sustento. Quem me ouviu na FUNDAÇÃO ECARTA, já a conhece. Agora irei cantá-la no dia 29.6.2007 na Livraria Cultura.

 

AMSTERDÃ

(Jerônimo Jardim e Timóteo Lopes)

 

 

E AÍ ME VENS CHEIA DE ENCANTOS MIL

 

PENOSAMENTE BELA, MEDONHAMENTE VIL. 

 

TEU PÃO É FANTASIA, TEU CIRCO HIPOCRISIA

 

ME APONTAS TODO O DIA A PONTA DE UM FUSIL.

 

 

E ENTÃO ME TENS SONÂMBULO E FEBRIL

 

ARMADO ATÉ OS DENTES, MEDROSAMENTE HOSTIL.

 

TEU CORPO ME EXTASIA, TEU BEIJO ME AVARIA

 

ME MATAS TODO O DIA EM TAL GUERRA CIVIL.

 

 

ÉS O QUE ÉS, SERPENTE E MAÇÃ

 

ÉS FOGO, ÉS INFERNO,

 

MEU CÉU DE AMSTERDÃ.

 

 

NA TRÉGUA OU BOMBARDEIOS

 

ME ACOLHES EM TEUS SEIOS

 

ENCHARCAS MEUS RECEIOS

 

NO SANGUE DAS MANHÃS.

 



Escrito por Jerônimo Jardim às 16h46
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GALO X TERREIRO

Está na hora desse galo cantar como tal de seu puleiro ou não vai ter muito tempo pra galinhagens. Esse terreiro só sabe ciscar e agachar. E o novo macho não montou nem levantou a crista.  

Escrito por Jerônimo Jardim às 05h38
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