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DÚVIDAS IMENSURÁVEIS Tenha se originado de um rasgo de inspiração ou tenha nascido de insônia ou de zelosa lapidação, a duradoura sentença criada por Shakespeare, “to be or not to be that's the question”, não vai além de consagrar a dúvida que não conseguimos zerar por mais que a tentemos traduzir e, ainda, reafirmar cada vez em que a meditar sobre ela nos debruçamos, a ínfima compreensão que temos da vida (e da morte), do mundo e seu sentido holístico. Continuamos a fracionar para apreender e aprender. Perdemo-nos quanto ao entendimento do tudo e do todo, do nada que, certamente, não existe, basta lembrar a letra da canção de Gilberto Gil e Buarque de Holanda que diz sempre bom lembrar que “um copo vazio está cheio de ar” e que o espaço sideral, entre os corpos que nele transitam, incluídos os fótons que nos trazem a luz de suas existências, é totalmente magnetizado, o que viabiliza a comunicação plena com as sondas já tão distantes que foram despachadas em busca de parentescos. Os gênios estão aí para desafiar, instigar, mesmo quando pensam ou escrevem com pressa, mesmo que só expressem novas dúvidas e fraquezas, talvez tementes de se finar sem a prestação de um último serviço. Falo agora de Saramago. No livro As Intermitências da Morte, a morte resolve interromper suas imprescindíveis funções de por término a vidas, cerne do enredo que gera atividades de contrabando de vivos para além das fronteiras do país atingido pela interrupção. Ninguém mais morre, o que gera o caos que sustenta a narrativa estapafúrdia, já que contém inverossimilhança insuperável. Não haveria como permanecer vivo quem perdesse o corpo, fosse em razão de esquartejamento, fosse por carbonização, num incêndio por exemplo. O próprio Saramago defende que a ficção, ainda quando se trate de realismo fantástico precisa parecer mais verossímil que a realidade. A realidade simplesmente é; não se compromete com coerência. Pois nesse deslize em suas convicções e aparente (?) descuido, deixou defeito narrativo, mas me levou a pensar na existência e inexistência dos corpos e melhor compreensão do que realmente não tem começo, nem fim: o ESPAÇO. Todos os corpos, vivos ou não, num estado químico ou em outro, são mensuráveis. O espaço que ocupavam antes de seu término ou transformação volta a ser preenchido pelo que respeitava seus contornos, medidas e peso: o ESPAÇO. Depois desta noite de insônia em que gastei horas, como a personagem Aureliano Buendia de Garcia Márquez em Cem anos de solidão para chegar a tão evidente resultado (Aureliano descobriu que a terra era redonda com séculos de atraso, imerso na mediocridade de seu povoado), cheguei a conclusão de que perdemos tempo quando procuramos nos corpos celestiais a explicação do que seja o infinito. Ele se explica desde aqui na compreensão do ESPAÇO. Alan Kardec, em sua doutrina, segundo ele informada por “espíritos superiores”, adota como prova da existência de Deus e do criacionismo, fundado apenas na Fé, a impossibilidade de, do nada, algo ser criado. Então, como explicar a origem do próprio Criador? Teria surgido do nada que nada poderia criar. Também, ainda que se exclua o criacionismo para explicação da origem do universo, de nada serve entender a mecânica do chamado big bang que teria fracionado corpo inicial em bilhões de bolas de fogo a se arrendondarem e distanciarem no infinito espaço. Quem pode garantir que essa expansão já não houve antes da contração e que esse contrair e expandir dos corpos siderais, esse formar e transmudar no caos, não passe de ensaio sinfônico em que é permitido errar enquanto não atingida a excelência, impulsionada por moto perpétuo, tocado por músicos independentes ou regido por divertido maestro que se compraz em surpreender e instigar?
Escrito por Jerônimo Jardim às 15h29
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CONTRADIÇÕES DE CRENTE Sei muito bem do que fala José Alencar quando refere efeitos colaterais decorrentes do tratamento da doença. A artrite reumatóide também exige a ingestão de medicamentos agressivos. As hospitalizações são traumáticas, dolorosas. É um admirável lutador, sem dúvida. Cada declaração sua me emociona. Todavia, a entrevista concedida no programa da Marília Gabriela, em que disse não temer a morte, que sua luta pela vida é questão de Fé, por ter sempre em mente a vontade de Deus que, com seu poder, não precisaria de nenhum câncer para decretar seu fim; que ele, José Alencar, não faz outra coisa senão cumprir a sua parte, colocou em relevo a contradição dos crentes quando se trata de vida e morte. Eu temo a dor, não temo a morte, embora não acredite em posterior vida de excelências em companhia da suprema autoridade universal. Mas não temer a morte não é o mesmo que me negar direito à vida. Acho que ficaria melhor e menos contraditório se José Alencar dissesse não temer a morte, mas amar a vida. No final das contas, tenho eu razões mais coerentes para me agarrar ao último sopro vital que me reste, uma vez que não tenho, como os crentes, qualquer promessa de paraíso depois do último suspiro. E do que valeria fazer a sua parte se, em qualquer hipótese, a decisão sobre seu destino estaria a mercê da providência divina?
Escrito por Jerônimo Jardim às 06h53
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PROCESSO DE CRIAÇÃO Ontem assisti entrevista com João Ubaldo Ribeiro na TV. Lançava o livro ALBATROZ AZUL. Lá pelas tantas ele disse que o título foi dado sem ter idéia se a história engendrada teria a ver com o nome dado ao livro. Sempre teria. O autor é o condutor da história. Daria um jeito da narrativa chegar lá. Alguns escritores dizem que se educaram para escrever todos os dias, mesmo sem um tema preconcebido. Não acho que se consiga classificar métodos de criação. Há idéias que o sono traz. É só polir a narrativa, dar-lhe ordenação estética, buscar originalidade. Já comecei textos pelo meio da história. Só depois fui escrever o início e o fim. Quando tenho uma música para colocar letra, nota por nota, também não sei (conscientemente) onde vai desembocar o palavreado, rimas internas e externas. Musicar letra é menos difícil. Já se tem um enredo explicitado. Nunca vou esquecer a declaração de Chico Buarque num DVD sobre seu processo mais frequente de criação quando escreve letra para música. Basta-lhe ir preenchendo o espaço das notas musicais com palavras e, verificar, ao final, se fez algum sentido. Brincadeirinha de gênio.
Escrito por Jerônimo Jardim às 08h12
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AMIGOS DESCARTÁVEIS Uma vez eu enfrentava fila enorme para comprar ingresso para ir ao cinema. Duvidava que não anunciassem a lotação esgotada antes de eu chegar. Respondi ao aceno de um amigo que sorria próximo do guichê. Havia mais uns cinqüenta na fila depois de mim. Consegui chegar na janelinha. Não deu outra. O cara me pediu para comprar o ingresso dele e da mulher. Titubeei inicialmente, mas me enchi de coragem e, embora constrangido, me neguei a cometer o desrespeito contra os tantos que, tenho certeza, não teriam sucesso, não veriam o filme. Fico chateado até hoje ao lembrar o fato. O sujeito nunca mais se aproximou de mim ou me dirigiu um cumprimento. Soube que já morreu. Era um exemplar de amigo descartável. Encaixam-se perfeitamente na classificação aqueles que te pedem dinheiro emprestado, sem juros, pois não passas de um amigo, já que não és banqueiro ou agiota; e os que te pedem aval ou fiança. São três negócios jurídicos em que nada ganharás. Só tens duas alternativas. Empatar ou perder. Pode ser até que o amigo não tenha planejado te ferrar, tenha fracassado, entrado num período de dificuldades financeiras. Não muda nada. É presente o risco de perderes o que te levou anos de vida para amealhar. Quem tem crédito pode muito bem pedir empréstimo bancário. Existem seguros para fiança. Felizmente, eu não tenho bens que garantam pagamentos de outrem; e aprendi a dizer não. Como destaco no título, tais pedintes são amigos descartáveis. Agradeço que se afastem, fiquem a vida inteira longe de mim. Diferente é a situação em que te prontificas, por livre iniciativa, altruísta e solidátrio, a socorrer um quase irmão de um aperto momentâneo. Mas essa é uma outra história. Prodigalidade e altruísmo não são sinônimos.
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h09
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TESÃO CAVALAR Testemunhei a faceirice de Primo César nos primeiros dias de sua aposentadoria. Troteava no cabresto com a altivez do puro sangue inglês. Parecia saber que chegara à estância com mais uma vitória, mais um troféu, conquistado no Cristal na última semana de sua carreira de atleta das pistas. Verdade também que acompanhei sua decadência física e performática, os músculos encolherem, sumirem as veias esculpidas em seu pelo lustroso que, rapidamente se tornou opaco. Para adaptar-se ao novo ambiente, abagualar-se, como explicou meu irmão, para sobreviver à intempérie, longe do conforto das cocheiras, impunha-se retirar as rações de milho e alfafa, reduzi-lo ao pasto natural dos potreiros. Em menos de uma semana era um indivíduo humilde, fora de forma, com alguma barriga. Meu irmão mandou colocá-lo no potreiro mais próximo do galpão da fazenda onde foi construída uma cocheira. Primo César usou o teto protetor durante poucas noites, a atenção desviada para uma égua alquebrada, queixo quebrado por algum coice, que o fez relegar ao esquecimento os vícios do conforto. Resfolegava e relinchava quase a chorar pelo amor não correspondido. Corria no prado com parelheiras tão belas de corpo quanto ele. Segundo meu irmão, elas não ganhavam um minuto de seu olhar. Agora sofria rejeição em torno da fêmea feia que lhe despachava certeiras patadas e que só tinha em mente namorar o cavalo castrado confinado no potreiro vizinho, o que lhe obrigava a superar a dor dos arranhões causados pela cerca de arame farpado. Vá a gente entender a química das paixões.
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h37
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RUÍDO O ruído nunca é discreto. O mesmo acontece com o torto. Impossível não chamar todas as atenções a vaia solitária em numerosa e educada platéia. Assim acontece com o único quadro mal colocado da sala. E o erro na execução perfeita de peça musical conhecida? E a arranhada ocasional na troca de marcha quando se dirige? É difícil, muito difícil que alguém resolva contar em livro a história de personagem de ilibada conduta, comportamento exemplar. Só se for para biografar alguém incomum pela dimensão de seu talento. Essa será no caso a anormalidade gritante. Ela será o ruído. Continuo convicto de que só o desequilíbrio cria, abala e faz história.
Escrito por Jerônimo Jardim às 09h56
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MÚSICA, SEXO E DROGAS A Bíblia nos dá notícia da descoberta do sexo e do primeiro tráfico de drogas, que aconteceu quando a cobra safada deu uma maçã à ingênua Eva. A busca do prazer pelo primeiro casal se encarregou de determinar-lhe a expulsão do paraíso. Não há qualquer referência à música. Talvez por somente estar sendo usada indevidamente pelos pecadores é que Deus permite o sucesso do Padre Marcelo. Nunca esquecendo que a música enche as salas de culto dos templos do Bispo Macedo. Como a intenção inicial desse texto que vai pendendo perigosamente para as beiradas era falar de drogas, vamos lá. Pelo que sabemos pelos desenhos nos livros de catecismo, o paraíso era uma profusão de verdes em múltiplas tonalidades. Ali já estariam, não somente a macieira fatal, mas também as ervas que, como é sabido, passam de medicinais a alucinógenas por questão de miligramas. Primeira conclusão: as drogas existiam antes dos drogados. Engordando ou morrendo envenenados, que é como deve ter sido descoberto o que matava e o que servia para alimentar, de experimento em experimento as tribos descobriram o cauim e a maconha, bem como o venenoso e lucrativo tabaco. Bota samba no meio, gingado nas cadeiras e pronto, embalado para consumo o mais procurado dos bens da vida: o prazer. E agora? Tudo liberado: bagunça. Tudo proibido: mercado negro. Solução equilibrada? Sei lá. O que sei é que nunca extinguirão a necessidade humana de buscar esses estados de louca lucidez.
Escrito por Jerônimo Jardim às 09h12
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MENINOS DE RUA Perdi a conta de quantas vezes tenho defendido investimentos em escolas de horário integral como forma de salvar a juventude das sarjetas. Ingênuo que sou. A solução chegou espontaneamente, sem esforço e sem orçamentos. Com o crack não vai sobrar criança de rua pra contar a história de suas desditas. E não vou estranhar comemorações tecnocráticas em torno dos novos resultados estatísticos no breve futuro.
Escrito por Jerônimo Jardim às 08h33
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DELÍRIO
Clair, Clair. Acho que o Lula descompensou. Ir com a faixa presidencial numa inauguração de obra do PAC eu até aceito. Mas colocar a faixa de madrugada pra ir ao banheiro... Acordo a Clair às três da manhã. Tá com febre! Vamos pro hospital!
Escrito por Jerônimo Jardim às 14h40
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RÓTULOS Os rótulos são necessários. Servem, por exemplo, para identificar produtos nas prateleiras, esclarecer e facilitar o consumidor. Mas em certos casos, reduzem, limitam, geram distanciamento e preconceitos. Eu não consegui ouvir por longo tempo o gênero da música que chamamos de clássica ou erudita sem associá-lo a velórios, funerais e cemitérios. Era o tipo de música que tocava nas emissoras de rádio nos dias de finados nos meus tempos de criança. Perdi de ouvir e incorporar boa música à minha formação cultural. Também perdi de aprender melodias e harmonias dos Beatles, porque na adolescência me apaixonei pela música dos festivais nacionais, muito especiais, mas não a ponto de excluir os demais gêneros de música que convencionamos chamar de popular. Há muito para crer que a música dita hoje erudita era a popular do passado. Felizmente, mais tarde, percebi o equívoco que cometera. Comprei a coleção completa dos Beatles e sou assíduo freqüentador dos concertos da Orquestra da Ulbra. Mas, lá atrás, restou uma lacuna que nunca será preenchida.
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h37
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HISTÓRIAS DE VIDA E MORTE
Perdão pela recorrência ao tema nos textos. Tem a ver com a minha vida no momento.
Escrito por Jerônimo Jardim às 10h50
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DIPLOMACIA DIVINA Dizem que o demônio é um arcanjo do Senhor que declarou independência para agir e administrar com liberdade sua própria casa, o inferno. Na falta de outra versão, teríamos de aceitar essa? Difícil de engolir que Deus, em sua onipotência, permitiria que a rebelião vingasse. Inverossímil. Embora seja tarefa das mais delicadas compreender suas atitudes, porque é tão permissivo às vezes e tão autoritário em outras, porém sabedores que, em sua infinita sabedoria, não dá passos em vão, tentamos erigir a teoria da diplomacia. Não houve revolução nenhuma no reino divino. Houve, sim, um acerto. Em que pesem os cruéis castigos que Deus tem imposto às criaturas humanas através dos tempos, a figura mais corrreta de seu marketing pessoal é a do ser supremo de bondade ilimitada. Do acerto teria resultado a abertura das portas do paraíso para os justos e o fechamento para os pecadores. Aí está. Deus administraria a premiação e não se encarregaria dos castigos da outra vida. Não se harmonizaria com o paraíso a manutenção de uma casa de punição com sofrimento eterno, fogo e tridentes. Portanto, melhor medida seria deixar as maldades aos encargos do governante do inferno, bem como os atos de tentação e persuasão ao cometimento de atos pecaminosos ou sacrílegos no mundo dos vivos a arrecadar eternos usuários. Não fosse a existência de satanás e seus domínios independentes, Deus também teria que arcar com funções somente compatíveis com as dos carrascos ou deixar não premiados a vagar com suas maléficas energias pelo universo, a perturbar sua expansão e tráfego. Como ficou, satisfizeram-se ambas as partes. Deus não se incomoda com os que não rezam por sua cartilha e, ao demônio, basta esperar os recusados nos portões do céu e conduzi-los a pontadas de tridente aos portais do inferno.
Escrito por Jerônimo Jardim às 10h48
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RÉDEAS PRESAS Papai Noel tem seu trenó. Com ele consegue desempenhar a hercúlea tarefa de entrar e sair por chaminés de todos os continentes terráqueos e distribuir os presentes na noite de Natal. Batman persegue bandidos em seu batmóvel. Basta surgir nas nuvens a marca do morcego. O Papa desfila em seu papamóvel blindado. Recebe aplausos, protegido de possíveis atentados. Superman não carece de veículo especial para cumprir suas tarefas em prol do bem. Consegue multiplicar-se e, sem necessidade de asas para voar, talvez se locomova na velocidade de Deus, o que parece provar que o Criador caprichou muito mais na criação de um ser a sua imagem e semelhança no planeta Kripton, origem do consagrado herói. Tudo isso é necessário relembrar para que se tente compreender porque Deus, com gestual mágico digno de Mandrake, construiu seu teocóptero. Por que não facilitar o trabalho de suas juntas cansadas depois de tantos bilhões de tudo e nada? Por que não se valer de criações de suas criaturas, imitá-las? Tudo lhe pertence. Nada lhe é impossível. O veículo divino tem as mesmas propriedades de seu piloto. É invisível, inaudível e onipresente. A bordo dele percorre os espaços aéreos de um de seus menores criadouros a distribuir benesses, castigos, tentar neutralizar atos satânicos – o diabo se tornou mais forte do que imaginaria - e a fiscalizar as ações de seus anjos, vida, morte e sacerdotes, parte destes em frequentes crises comportamentais, envolvida em cabeludos escândalos. Um pregador de rua em Porto Alegre disse convicto que Deus adotou alguns dísticos gauchescos, tanto tem circulado pelos céus do Brasil, onde afirmam que ele é brasileiro, e que ele tem gosto especial pelos costumes, lendas e lides campeiras do sul. Para justificar as permanentes revoadas por aqui disse que o boi só engorda aos olhos do dono. Todavia, a maior crueldade divina - isso a meu ver de pouco alcance - é a farta distribuição de fome, doenças e sofrimento entre seus crentes mais fiéis, aqueles que deixam tudo aos sacerdotes, o que têm e o que não têm, valendo-se do dito campesino de que não dá pra afrouxar as rédeas, senão o bicho dispara. Vá a gente entender os afazeres e as vontades de Deus. De nada precisava e tudo criou; com defeito de fabricação, na minha modesta opinião. PS - Gracias Flávio pela sugestão do papamóvel.
Escrito por Jerônimo Jardim às 18h00
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VIDA E MORTE: O AMISTOSO ENCONTRO Dessa vez não foi de encontro a, mas ao encontro da, troca de preposições que distingue radicalmente, no sutil idioma português, uma rota de aproximação amistosa ou mesmo amorosa de uma de colisão ou mesmo trombada, infelizmente não dominada por muitos oradores. Tal introdução se impõe ao se pretender narrar de forma clara e convincente a disposição da Morte de interromper os exaustivos afazeres de ambas e bater um papo sincero e franco com a Vida, esclarecer algumas dúvidas de séculos, como a desproporcionalidade estatística, o absurdo aumento da população terráquea não obstante seus esforços com a ceifadeira. Não seria difícil, já que estão, as duas, em todos os lugares a todo o tempo, algo temerário de afirmar, pena do cometimento de sacrilégio sujeito a severo castigo, sem explicar que são a longa manus de Deus, único ser onipresente do universo. Bastaria apresentar-se sem ranger os dentes, embora impossível para ela um sorriso. Assim foi e deu certo. A Vida acolheu de bom grado a simpática abordagem. Interromperam a visita e se acomodaram à cabeceira da cama em que um casal de namorados arrojava-se nas carícias preliminares da relação corporal não utilizada pelos humanos somente para finalidades reprodutivas como seria a vontade do Criador, no dizer de seus sacerdotes católicos que, contraditoriamente, são celibatários. Acho que seria desperdício de linhas ficar a dizer quem disse o quê. Então, me limito a repercutir as frases com a maior fidelidade possível. Espero que não se ofenda por eu começar dizendo que os incrédulos afirmam que não passas de hiato na linha do nada. Claro que não me ofendo, já que mais atingem a ti do que a mim, por te reduzirem a mera passagem, portal do hiato para o nada. Ademais, que crédito nos merecem os incrédulos? Nunca vi crianças nascerem às gargalhadas. É sempre aquela choradeira, se não dou um jeito nelas antes. Eu acho que já nascem como medo de ti, como se já soubessem que passarão a existência sob permanente ameaça, dissimulada pela promessa de outra vida melhor. As pessoas vivem nos templos por que viver é um calvário, cheio de temores, fome, doenças. Até compram cadeiras no céu. Mas do contraste entre sofrimento e alegrias, conseguem mensurar os estados de graça e felicidade. E não podemos duvidar da sabedoria do Chefe ao criar esses dois estados. Quanto à desproporcionalidade entre mortes e nascimentos que, tenho certeza, é o que mais te aflige, digo-te que a humanidade tem abusado do livre arbítrio, fazendo sexo por prazer e, cá pra nós, que Deus não me ouça, já que em sua onipotência odeia conselhos, estaria mais que na hora de ele ter uma conversinha com seus representantes para não condenarem o uso de camisinhas. Com isso até não me preocupo, desde que surgiu a AIDS. Acho, isto sim, um despropósito essa profusão de remédios que permitem a um monte de inúteis pesar nos encargos de família, conturbar os cálculos atuariais dos planos de saúde. Como será que Deus resolve esses impasses nos demais cantos do infinito universo? Questionaram em afinado dueto. As circunstâncias determinaram o término prematuro do encontro. Despediram-se rapidamente com todas as dúvidas que poderá o leitor ainda levantar. Apelo ao trabalho, já que o casal, que transava sem camisinha, avançara para o orgasmo, milhões de espermatozóides dispostos a ganhar a corrida para penetração no óvulo. Um deles bicou, bicou e entrou abanando o rabinho. A Vida clamou angustiada pela providencial interferência da Morte. A Morte fingiu surdez. Deu um suspiro prazeroso. O resultado desse óvulo fecundado, desenvolvido a contento no útero era de seu maior interesse, daí a atuação aparentemente contraditória de ambas. Com a onisciência da qual dispunham como longa manus de Deus, sabiam que aquele indivíduo nasceria predestinado à acionar o botão do apocalipse.
Escrito por Jerônimo Jardim às 08h50
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VIROU ROTINA
Hoje me submeto a novo procedimento no coração, no hospital da PUC. Até breve.
Escrito por Jerônimo Jardim às 07h00
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